Potencialidades da braquiária em SPD no Sul

18/11/2020

Por Eng. Agr. Tiago Stumpf da Silva, doutor em Ciência do Solo, UFRGS; Eng. Agr. Marcelo Raul Schmidt, doutorando em Ciência do Solo, UFRGS; Michael Mazurana, doutor e professor em Ciência do Solo, UFRGS; e Renato Levien, doutor e professor em Ciência do Solo, UFRGS

Arroz em plantio direto - Foto: Sebastião José de Araújo/Embrapa

 

O plantio direto – ou sistema plantio direto – tem se expandido cada vez mais ao longo dos últimos anos, especialmente em regiões de climas tropical e subtropical. Embora avanços tenham surgido em áreas sob esse sistema, alguns dos principais pilares do plantio direto não estão sendo considerados por alguns agricultores na Região Sul do Brasil. Parte das áreas cultivadas ficam sob pousio após a colheita da soja, principal cultura de verão utilizada, e esse cenário pode levar a problemas relacionados com a compactação de solos sob esse sistema de manejo. Uma alternativa para tal problema poderia ser o cultivo de espécies forrageiras do gênero Brachiaria, pela alta adaptação em regiões de clima quente, como o Brasil, além de ter baixa exigência de fertilidade.

Pelas particularidades climáticas existentes no Rio Grande do Sul, entre os diversos sistemas de culturas utilizados para constituir o PD, há, por base, a soja e o milho no verão. Nessa estação há uma preferência para a soja, principalmente pelo rendimento econômico da cultura, tornando maior a resistência dos produtores na introdução de novos sistemas, como, por exemplo, o uso de braquiária para pastejo em parte da área, o que permitiria manutenção da atividade pecuária.

Esse poderia ser um mecanismo pelo qual o uso de culturas de cobertura em rotação ou consórcio com a principal condicionaria um efeito duradouro na mitigação das limitações físicas do solo. Além disso, poderia fornecer cobertura do solo após a colheita das culturas de grãos, no período de outo-no-inverno.

Em uma pesquisa conduzida com o apoio da Fundação Agrisus (Projeto nº 2.031/17), realizada em Eldorado do Sul/RS, em um Argissolo Vermelho com 25% de argila, utilizou-se a espécie de Brachiaria brizantha cv. Xaraés para estudar o potencial dessa cultura na adaptação às condições de clima e solo da região, além de testar seu potencial na melhoria da estrutura do solo em dois anos consecutivos. Foi feita a semeadura em linha, espaçadas em 17 centímetros, na dosagem de 36 quilos/hectare de sementes viáveis, em meados de dezembro no primeiro ano e no final de outubro no segundo ano. Foram aplicados 100 quilos de nitrogênio por hectare em cobertura na forma de ureia, divididos em duas etapas ao longo do ciclo. Embora o lento desenvolvimento inicial, com dois anos de uso na área experimental, foi possível observar significativa redução na densidade do solo e aumento na porosidade total, como representado nos gráficos da Figura 1.

A braquiária apresenta alto aporte de massa seca de parte aérea, sistema radicular volumoso, além de ser uma planta perene, proporcionando, dessa forma, boa cobertura e agregação ao solo. A Figura 2 apresenta resultados de um estudo com a massa seca de aveia-preta sobre áreas previamente cultivadas. Na área com braquiária, houve maior aporte de resíduos comparada com as demais culturas.

As melhorias em relação à cobertura do solo e na estrutura do solo proporcionadas pela cultura da braquiária se tornam importantes em um sistema de rotação ou mesmo em consórcio, como se tem visto no Cerrado com o Sistema Santa Fé (principalmente consórcio de braquiária com milho, sorgo e/ou milheto) para a manutenção da atividade pecuária na entressafra e aporte de palha para o plantio direto.

O uso da braquiária como planta descompactadora possui potencial para abrir caminhos de poros em maiores profundidades, o que, após a senescência dessas raízes, forma bioporos preferenciais para infiltração de água da chuva e/ou irrigação, os quais poderão ser usados pelas culturas subsequentes. A importância desses poros contínuos e conectados é ainda maior em locais com recorrentes estiagens no verão.

De modo geral, 80% do sistema radicular das culturas se concentra nos primeiros 20 centímetros de solo, sendo fácil para as culturas acessarem a água retida nessa camada. No entanto, em locais onde há períodos de 30 a 40 dias sem chuvas ou irrigação, com altas temperaturas, a perda de água por evapotranspiração é expressiva. Assim, cessando a disponibilidade dessa água nas camadas superficiais, torna-se de suma importância que as raízes busquem água em camadas subsuperficiais, pois essa água em profundidade é menos susceptível à evaporação. Portanto o manejo do solo que mantém a água acessível às plantas por mais tempo é essencial e influencia na produtividade das culturas de grãos.

 

Armazenamento de água no solo

Estudos indicam que a braquiária (Brachiaria brizantha) exige a manutenção do armazenamento de água no solo acima de 50% da água disponível no período de outono-inverno para suprir suas necessidades hídricas. No entanto, medições de umidade realizadas no experimento de Eldorado do Sul, em fevereiro, mostraram que a umidade do solo da camada superficial chegou a 0,08 grama/quilo na média, o que corresponde a um conteúdo volumétrico de água de, aproximadamente, de 0,124 cm3 cm-3 nessa camada.

Esse volume de água ficou muito próximo do volume correspondente ao ponto de murcha permanente (PMP) (0,106 cm3 cm-3), atingido quando a umidade do solo proporciona a murcha irreversível das plantas e não há mais a recuperação da turgescência das folhas, mesmo expondo elas a condições favoráveis novamente. Portanto as culturas permaneceram por longos períodos com baixo volume de água no solo, podendo ter sido expostas a situações mais severas ao longo do ciclo.

Além disso, outros estudos relatam que os componentes de rendimento das culturas podem ser influenciados antes mesmo da umidade do solo atingir o PMP, indicando que a água não é uniformemente disponível para as plantas dentro da famosa variação de água disponível. Assim, conforme o solo vai secando, a água vai ficando retida na matriz porosa mais fortemente pelos fenômenos de adsorção, o que exige maior tensão no sistema radicular para absorver água.

Atrelada a isso, a maior cobertura do solo permite que a umidade seja mantida no solo por mais tempo, reforçando o potencial de uso da braquiária no sistema plantio direto. A Figura 3 mostra a cobertura do solo por resíduos de diferentes culturas, na qual as parcelas com braquiária propiciaram visivelmente maior cobertura do solo em relação às cultivadas anteriormente com milho e soja.

Alto aporte de massa seca

Com o estudo em Eldorado do Sul, conseguiu-se resultados que indicam potencial da braquiária cultivada solteira em manter alto aporte de massa seca da parte aérea e de raiz, além da contribuição na estrutura do solo. Pretende-se, agora, em pesquisas futuras, avaliar o uso dessa cultura em consórcio e em rotação com milho e soja, nas condições do experimento. A hipótese sugerida é de que o uso da braquiária em consórcio não influenciará os componentes de rendimento de milho e soja.

Essa hipótese é fundamentada pelos dados de literatura, com trabalhos desenvolvidos no Rio Grande do Sul, no Paraná e no Mato Grosso do Sul. Embora não tenha afetado a produtividade de grãos, os pesquisadores sugerem que ainda são necessários mais estudos para se recomendar o uso desse sistema, principalmente na consorciação com soja, pela baixa estatura da cultura, o que pode influenciar em problemas na colheita. Tem-se utilizado a semeadura da forrageira simultaneamente ou após a semeadura das culturas de grãos.

 

Semeadura

Na realização da semeadura simultaneamente, as sementes da braquiária vão juntas nas caixas de adubo, em maior profundidade, na mesma linha de semeadura. Há, ainda, sistemas que alternam as caixas de sementes, em que semeiam linhas alternadas entre milho/soja e braquiária. Quando semeadas após a cultura de grãos, tem-se visto em trabalhos de pesquisa diversos testes, contemplando de dez a 30 dias após a emergência da soja. Nesse caso, o espaçamento entre linhas é maior, o que não compromete a cultura de grãos. Além dessa forma de consórcio, outra alternativa é realizar a semeadura da braquiária a lanço já no final do ciclo da cultura de grãos. Isso tem sido utilizado principalmente na cultura da soja, na qual a própria desfolha das plantas cobre as sementes, permitindo sua germinação e tendo por vantagem o menor risco de crescerem excessivamente e dificultarem a colheita de grãos.

A potencialidade do sistema varia muito em função do manejo adotado, como as espécies utilizadas, a aplicação de subdoses de herbicida para supressão da forrageira, o tempo de permanência da cultura na área, entre outros. Embora os verões na Região Sul são quentes, na entrada do outono já apresentam temperaturas baixas, dificultando o desenvolvimento da braquiária, que é sensível a geadas. Portanto ainda são necessários estudos para comprovar e obter melhores resultados para recomendar o uso da braquiária em sistemas agrícolas no Sul do Brasil.

Artigo originalmente publicado na Revista A Granja, edição Nov/2020