O "Alemão Louco" que quebrou um paradigma milenar

17/11/2020

Reportagens by Wilhan Santin

Estudos arqueológicos apontam que faz aproximadamente sete mil anos que os seres humanos inventaram o arado, um instrumento fundamental para que a agricultura passasse a ser utilizada com mais eficiência.

A partir dessa ferramenta, inicialmente feita de galhos bifurcados e puxada por animais domesticados, os homens da antiguidade puderam preparar mais solo em menos tempo, tornando-se verdadeiramente agricultores. Há estudiosos que consideram o arado como sendo a invenção mais importante da história da humanidade.

Agora imagine como foi a reação de agricultores do interior do Paraná, no início da década de 1970, quando um sujeito com forte sotaque alemão começou a dizer que não iria mais usar arado. Deixaria de preparar o solo e plantaria em cima da palha que sobrara depois da última colheita; contrariando milênios de história e o que sempre haviam feito os pais e avós daquela turma toda.

Não deu outra: “Ele ficou louco” era a frase corrente no município de Rolândia e arredores para qualificar Herbert Bartz quando ele vendeu todos os seus arados e grades, máquinas de plantar e até tratores; aparecendo em seguida com uma máquina importada dos Estados Unidos que ninguém jamais tinha visto. A danada fazia o tal do Plantio Direto.


 

Para entender esta história, é preciso voltar um pouquinho no tempo, para entender as raízes do tal “Louco”. Se você não leu a primeira parte desta reportagem clique aqui mesmo e confira. Depois você volta. A gente espera.

 

Se você já leu a primeira parte, vamos em frente, saltando para 1971. Herbert Bartz estava tocando a Fazenda Renânia, de 101 hectares, em Rolândia, junto de Ulrich, seu irmão mais novo. Eles pagavam arrendamento para o pai, Arnold, que havia desistido das agruras de ser agricultor.

Não plantavam café, como fazia maioria dos donos de terras da região. Estavam no cultivo de soja e trigo desde a década anterior. Perdendo muito trigo para as geadas e a soja para a erosão.

A erosão era o grande mal da agricultura brasileira na década de 1970. Grande parte das terras férteis do País eram arrastadas, ano a ano, para os rios.

Herbert Bartz não se conformava com aquilo. Como podia um agricultor assistir à sua maior riqueza, o solo, ir se desfazendo e não se inquietar?

Todas as vezes que o tempo armava para tempestade, ele não conseguia dormir. Sabia que parte de sua terra, arada e gradeada, iria embora. Por isso, em uma noite abafada de outubro de 1971, Bartz estava absolutamente inquieto, sozinho na fazenda. Sabia que viria uma tempestade. Ulrich havia viajado para a Alemanha.

Ele havia acabado de plantar 50 hectares de soja.

Pegou um guarda-chuva, um par de botas de borracha, um chapéu, uma lanterna a querosene e foi, a pé, para o meio da lavoura.

“Quando eu já estava a 500 metros da nossa casa, caiu um dilúvio. Parecia o fim do mundo. Com a luz da lanterna, eu via dezenas de pequenos riachos se formando, as sementes sendo levadas junto com a água, tudo perdido. Teria que replantar. Não dava para continuar daquele jeito”, rememora o agricultor.

Em Londrina, um agrônomo chileno de pais alemães, visionário, chamado Rolf Derpsch, desenvolvia um trabalho no Instituto de Pesquisa Agropecuária Meridional (Ipeame), embrião do Iapar. Ele visava desenvolver técnicas de preparo mínimo do solo e fazia algumas experiências em parceria com Bartz. Foi Derpsch que aconselhou o amigo a ir atrás de mais informações em outros lugares do mundo.

“Enquanto a maioria dos agricultores não ligava para a erosão, achando que a terra roxa profunda permitiria aceitar perdas de solo, em média de 60 toneladas por hectare a cada ano, conforme constatei naquele tempo, Bartz achava que tinha que ser feito algo para parar essa catástrofe. Era isso que o diferenciava e o movia”, declarou Derpsch em 2017.

Esta reportagem da Folha de Londrina, de 1975, mesmo ano em que a geada negra dizimou os cafezais do Paraná, mostra o que era a erosão:

Bartz financiou passagens aéreas da Varig em dez vezes. Foi à Alemanha e à Inglaterra. Não encontrou o que procurava. Em seguida, visitou os Estados Unidos, onde já havia feito contato com o professor Shirley Philips, em Lexington, no Kentucky. Juntos, foram à propriedade Harry Young Jr., no condado de Cristian.

Esse agricultor estava fazendo Plantio Direto desde 1962 e fez uma demonstração para Herbert, plantando sobre uma farta palhada de milho que estava sobre a terra. Sem revolver o solo, sem deixá-lo exposto, o que minimizava os risco de erosão.

“Eu quase levitei. Foi o momento de virada na minha vida”, relata Bartz.

Para encurtar a conversa. Da propriedade de Young Jr., o brasileiro foi direto à fábrica da Allis-Chalmers, onde encomendou uma plantadeira igual a que havia visto na propriedade do mais novo amigo americano.

Daí em diante, Herbert Bartz:

- Teve que começar o Plantio Direto já em 1972, porque a geada dizimou todo o trigo que ele havia plantado. Vendeu o equipamento de plantio convencional para fazer dinheiro e já passou a utilizar a máquina da Allis-Chalmers, que permitia plantar sobre a palhada, em larga escala. O primeiro da América Latina a fazer isso.

- Viu a sua primeira safra de soja sob Plantio Direto ser confiscada pela Polícia Federal, por causa de denúncias anônimas que diziam que o alemão estava com práticas irregulares.

- Ouviu deboches de muitos e até manifestações de piedade de gente que estava convicta de que ele realmente estava pirado.

- No final de 1973, quando houve a crise do petróleo, com o barril saltando de US$ 2,90 para US$ 11,65 em três meses; muitos passaram a considerar que o “Alemão” não era tão doido assim. O Plantio Direto gasta um terço de óleo diesel em comparação com o sistema convencional, pois não requer as operações de arar e gradear.

- Recebeu a visita dos japoneses de Mauá da Serra e do pessoal dos Campos Gerais, especialmente Nonô Pereira e Franke Dijkstra, respectivamente de Palmeira e Carambeí; homens que acreditaram na nova tecnologia e passaram a difundi-la amplamente, junto de Bartz.

- Começou a chamar a atenção da imprensa, ainda na década de 1970, gerando reportagens como esta.

- Casou-se com Luiza e teve três filhos: Wieland, Joahann e Marie.

- Fez contrabando de herbicida, indo buscar no Paraguai, em pequeno avião monomotor, produto que era proibido no Brasil. Se não fizesse isso perderia tudo para o mato, já que a principal dificuldade era controlar as plantas invasoras. Não havia produtos eficientes no mercado nacional.

- Desenvolveu suas próprias máquinas para trabalhar no sistema e ajudou a indústria a desenvolver muitas outras, sendo consultor informal de várias fábricas de implementos.

- Fez inúmeras palestras, viajando de graça para convencer mais gente a adotar o novo sistema. Na década de 1980 a erosão ainda era um grande mal, como mostra esta reportagem da Folha de Londrina:

 

- Ajudou a fundar a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e Irrigação (FEBRAPDP).

- Viu cada vez mais e mais agricultores, de vários estados do Brasil e de toda a América Latina, aderirem ao Sistema Plantio Direto.

Atualmente, o Sistema Plantio Direto (SPD) é uma realidade no Brasil. Louco é quem não o pratica. Permite três safras por ano – já que se planta imediatamente após a colheita, sem perder tempo “preparando” o solo - e fez com que áreas como o Cerrado se tornassem altamente produtivas, assim como alavancou os índices de produtividade de grãos de todo o Brasil.

O SPD permite que a água não escorra mais, levando o solo junto. Ao contrário. Protegido pela palha, o solo absorve a água e pode reservá-la para os momentos de seca. Além disso, o sol escaldante não torra o solo e a vida ali abunda, com minhocas, besouros, joaninhas; verdadeiros amigos da terra, aumentando a matéria orgânica e a fertilidade.

Com tanta produtividade, o agronegócio segura o PIB do Brasil, especialmente nestes tempos de crise.

“Espero que tudo o que está acontecendo no agronegócio se espalhe para todos os setores, que aqueles que ocupam os cargos políticos possam se espelhar no homem do campo, que trabalha do nascer ao pôr-do-sol, que come marmita em cima do trator, com o motor ligado para fazer o plantio e a colheita no tempo certo, que enfrenta estradas esburacadas para escoar a produção, que entende a natureza e a respeita. Por sinal, ela, a natureza, não aceita propinas”, declarou Herbert em 2018 para o livro “O Brasil Possível”, biografia que conta toda a história dele.

 Hoje, aos 83 anos de idade, Herbert Bartz vive em Rolândia.

Publicação original em: https://www.bemcontado.com.br/reportagens/6-o-alemao-louco-que-quebrou-um-paradigma-milenar.html