O homem que revolucionou a agricultura brasileira passou fome na infância

17/11/2020

Reportagens by Wilhan Santin

Gosto de contar histórias de pessoas “fora da curva”. São elas que fazem a diferença, abrem caminhos e nos inspiram

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Em toda a minha carreira de jornalista, uma das mentes mais à frente do próprio tempo que eu conheci é a de Herbert Bartz, um agricultor nascido no Brasil, criado na Alemanha em meio aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e que depois voltou para este País tropical do hemisfério sul para fazer história.

Bartz nasceu em 14 de fevereiro de 1937, em Rio do Sul, Santa Catarina, filho de dois imigrantes alemães: Arnold e Johanna. Ele, especialista em trabalhar com pedras; ela, enfermeira.

Mas Johanna tinha uma doença crônica nas válvulas cardíacas. Em comum acordo com o marido, decidiu se tratar na terra natal, onde havia Medicina mais evoluída naquela época. Embarcou no fim de 1938, levando com ela Herbert e Relinde, a filha mais velha.

Em 1939, Arnold foi atrás da família, para pagar as contas do tratamento da esposa e trazer todos de volta para o Brasil. Não deu certo. Estourou a Guerra e ele foi retido. Poderia ser útil nos conflitos.

Eles se instalaram na região da Renânia, Leste do País, vendo muito de perto a movimentação das tropas do Exército Alemão. A Guerra cada vez mais presente. Moravam em uma fazenda, como funcionários, sobrevivendo conforme podiam e tentando levar uma vida o mais próximo possível do normal.

Relinde, a irmã mais velha de Herbert, lembra-se que as crianças receberam treinamento para se jogar no chão, a caminho da escola, se aparecessem no céu os aviões de caça das Forças Aliadas. “E isso aconteceu muitas vezes.”

Quando era evidente que seriam atingidos, em 1943, tomaram o rumo de Dresden, do outro lado da Alemanha, onde moravam os pais de Johanna. Dois dias depois, a casa onde antes eles residiam na Renânia foi completamente destruída. Escaparam por pouco.

No entanto, na noite de 13 de fevereiro de 1945, Dresden foi severamente bombardeada por mais de 700 aviões do Real Força Aérea Britânica. As bombas incendiárias espalharam o fogo por todos os lados, com a temperatura passando de 500o C nas ruas da cidade. As águas das fontes públicas ferveram e evaporaram. “Eu estava na casa dos meus tios quando começou o bombardeio. No dia seguinte, seria meu aniversário de oito anos. Nos refugiamos em um porão. Um termômetro que havia lá marcava 80o C. Sobrevivi porque os adultos jogavam água sobre mim o tempo todo”, recorda-se Bartz.

Quando o dia amanheceu, ele foi a pé, em meio à multidão de sobreviventes, para a casa de seus pais. Ali, testemunharia um dos piores episódios da Segunda Guerra Mundial. Ele conta: “Caças britânicos passaram voando baixo, dava para ver a cara dos pilotos, e metralharam deliberadamente os civis que estavam na rua. Um homem atingido caiu ao meu lado e segurou nas minhas pernas. Até hoje tenho na mente o barulho das balas perfurando o corpo dele.”

Esse episódio do bombardeio de civis não foi registrado em nenhum relatório oficial dos Aliados. Livros especializados no bombardeio de Dresden destacam que eles são relatados somente por testemunhas que viveram aquele terror. Herbert Bartz é um dos poucos ainda vivos.

Os números de mortos nos bombardeios de Dresden divergem, dependendo da fonte. Oficialmente foram identificados 39.773 corpos.

Para piorar a situação da família, em março de 1945, pouco depois da destruição de Dresden, Arnold, o pai de Herbert, foi convocado pelo Exército Alemão e teve que ir para a guerra. Poucos dias depois foi feito prisioneiro pelos russos. Seria libertado somente no fim de 1947, pesando 44 quilos.

Nestes mais de dois anos sem o marido, Johanna foi uma verdadeira heroína. Além de Relinde e Herbert, o casal já tinha mais três filhos. Um deles, Wieland, morreu em maio de 1945, por falta de socorro médico para uma infecção intestinal.

Passaram fome e frio no inverno europeu.

Para atenuar a situação e conseguir alimentos, Johanna arranjou uma solução de criatividade e muito trabalho. Descosturavam uniformes de soldados alemães que haviam morrido nos bombardeios e transformavam em roupas para civis. Depois, trocavam as peças de vestimenta por comida. A mulher utilizava uma máquina de costurar Singer para esse trabalho. As crianças ajudavam.

A Singer é guardada até hoje, como símbolo de sobrevivência, por Marie Bartz, filha de Herbert.

 

Saltando no tempo, Johanna morreu em 1958, vítima de insuficiência cardíaca. Estava com 54 anos.

Em 1960, a família voltou para o Brasil, evidentemente sem a mãe.

Herbert estava com 23 anos quando deixaram a Alemanha. Havia concluído os estudos correspondentes ao ensino médio no Brasil e trabalhara com o pai explodindo tocos de árvores queimadas ou derrubadas na guerra, além de escombros de prédios, chaminés e outros tipos de edificações. Tinham uma empresa especializada nisso.

Ele trazia na bagagem todos os ensinamentos de Johanna, que lhe incentivara muito a ter uma visão ampla e filosófica do mundo, baseada, principalmente nos conceitos de Alexander von Humboldt (1769 – 1859), explorador e cientista alemão.


 Os Bartz se estabeleceram em uma propriedade rural no município de Rolândia, na terra vermelha do Norte do Paraná. Chamaram-na inicialmente de Sítio Renânia. Tornavam-se agricultores.

Herbert, na verdade, tinha esperança de retornar mais tarde para a Alemanha e terminar um curso de Engenharia Hidráulica no qual estava matriculado. Mas isso jamais aconteceria.

Ficaria para sempre no Brasil, onde introduziria o Sistema Plantio Direto (SPD), que revolucionou o cultivo de grãos nos solos do País. Se hoje produzimos tantos alimentos, muito se deve a esse jeito de plantar.

Contamos a história da infância de Herbert na Guerra porque é daí que vem o fato de ele dar tanto valor ao solo.

Você sabe o que é Sistema Plantio Direto? Quer entender a importância dele?

Clique e confira a segunda parte desta história.

Aos 83 anos, Herbert vive em Rolândia, em uma casa de pedra construída pelo pai dele, Arnold. (Foto de autoria de Sergio Ranalli no início desta reportagem).

As informações deste texto foram retiradas do livro “O Brasil Possível: a biografia de Herbert Bartz”, idealizado por Marie e Johann Bartz e escrito por este jornalista, publicado originalmente em: https://www.bemcontado.com.br/reportagens/5-o-homem-que-revolucionou-a-agricultura-brasileira-passou-fome-na-infancia.html