Nutrição: adubação para a cultura ou para o sistema?

14/10/2020

Por Paulo Carvalho, Carolina Bremm, Gustavo Farias, Daniel Gonçalves, Vicente Laemon, Loren Duarte, Jusiane Rosseto, Tales Tiecher, Amanda Martins, Felipe Bertol, Lucas Alves e Mateus Goulart, da Equipe GPSIPA/UFRGS

 

A agricultura tem importante papel na segurança alimentar em nível global. A exigência em incrementar a produção de alimentos está, mais do que nunca, pressionada pelo aumento populacional, ao mesmo tempo em que a agricultura que produz alimento é associada com poluição e aquecimento global. Trata-se de uma dicotomia a ser conciliada por sistemas que contemplem a produção de serviços ecossistêmicos (incluídos os alimentos). Não basta mais que não impactem negativamente o ambiente, há que se recuperá-lo.

O uso eficiente dos recursos, como a terra e os insumos, tem grande importância na solução de um modelo agrícola para o futuro. Ressurge, neste contexto, o conceito de Sistema Integrado de Produção Agropecuária (Sipa), que tem pilares na diversificação e que vem perdendo espaço devido ao predomínio de sistemas especializados, caracterizados por baixa diversidade e elevado uso de insumos. O Sipa tem por princípio a diversificação do sistema produtivo e a ciclagem de nutrientes em prol do melhor aproveitamento dos recursos disponíveis, e ressurge como alternativa de intensificação sustentável.

Entre as diversificações possíveis está a inclusão do componente animal (herbívoro) em sistemas especializados na produção de grãos, no intuito de converter cultivos de cobertura de solo em alimento de alto valor nutricional para o consumo humano (carne e leite). Além disso, o animal tem importante papel na ciclagem de nutrientes, pois grande parte dos nutrientes ingeridos retorna ao sistema (solo) via fezes e urina. Esses nutrientes servem de alimento à fauna do solo, decompondo o material orgânico e o disponibilizando para as plantas. Um sistema com esta natureza necessita de entendimento mais amplo, bem como de visão holística para além da agricultura especializada e compartimentalizada. Isso inclui a revisitação da forma tradicional de nutrição das plantas, pautada nas demandas dos cultivos individuais, que não mais contempla a necessária abordagem sistêmica.

 

Alternativa racional no uso de fertilizantes

A adubação de sistema surge como alternativa racional no uso de fertilizantes, com propósito de beneficiar todo o sistema produtivo e promover maior eficiência no uso de nutrientes. Essa adubação consiste na reposição estratégica de nutrientes em situações de solos que já tenham sua fertilidade construída (acima do teor/nível crítico), de acordo com o conhecimento dos fluxos de entrada e de saída dos nutrientes no sistema.

Nesse sentido, uma pesquisa foi realizada na Estação Experimental Agronômica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na safra 2019/2020, em área de 4,8 hectares (Figura 1) cultivada com azevém (Lolium multiflorum) no período de inverno e soja (Glycine max) no verão. A pesquisa foi financiada pela Fundação Agrisus e teve por objetivo avaliar o efeito de dois sistemas produtivos com distintas abordagens de adubação na produção do sistema e na emissão de metano pelos animais.

Os sistemas de produção avaliados foram os seguintes: (i) sistema especializado em produção de grãos (azevém como cultura de cobertura no inverno e cultivo de soja no verão) com adubação tradicional; (ii) sistema especializado em produção de grãos com adubação de sistema; (iii) Sipa (azevém pastejado por ovinos no inverno e cultivo de soja no verão) com adubação tradicional; e (iii) Sipa com adubação de sistema.

A adubação foi constituída por fósforo (P) e potássio (K), que são macronutrientes importantes para o crescimento das plantas e estão entre os que mais frequentemente limitam a produtividade das culturas em solos do Brasil. A dose de nutrientes aplicada via adubação foi determinada de acordo com análise de solo prévia, que indicava teores acima do crítico, e na exportação desses nutrientes pela soja, sendo aplicado 56 kg de P2O5/ha e 66 kg de K2O/ha usando um formulado químico (5-32-4) e cloreto de potássio (KCl). A adubação nitrogenada foi realizada na pastagem de azevém, aplicando-se 150 kg N/ha, na forma de ureia, em dose única.

Durante a fase pastagem do Sipa, foram utilizados 32 ovinos da raça Corriedale, com aproximadamente 28 quilos de peso vivo e dez meses de idade. A altura do pasto foi mantida em 15 centímetros, com o objetivo de fornecer condições adequadas de estrutura do pasto, que potencializam a ingestão de forragem pelos animais durante todo o período de pastejo. Para isso, foi necessário utilizar animais reguladores para ajustar a taxa de lotação animal e manter a altura do pasto pretendida. Esse ajuste foi realizado semanalmente entre julho e outubro de 2019. Após a finalização da fase pastagem, foram aplicados os herbicidas glifosato e 2,4D, e a soja (cultivar TMG 7063 Ipro) foi semeada sobre a palhada.

 

Biomassa dessecada inferior

O resíduo vegetal, ou seja, a biomassa que foi dessecada ao final do período de utilização da pastagem e que permaneceu para cobertura do solo na semeadura da soja, foi inferior (-24%) no Sipa quando comparado ao sistema especializado, sem diferir entre as estratégias de adubação (Figura 2). A produção de forragem média foi de 8.204 quilos matéria seca/hectare, sendo semelhante entre as estratégias de adubação. No entanto, os Sipa apresentaram 19,2% maior produção de forragem quando comparado aos sistemas especializados (Figura 3).

Os ovinos permaneceram em pastejo durante 113 dias, não sendo observado efeito das diferentes estratégias de adubação no desempenho animal (Figura 4), fato atribuído ao adequado manejo do pasto (em altura de 15 cm). O desempenho individual médio foi de 93,5 gramas/dia, e o ganho de peso vivo por área, de 231,5 kg peso vivo/ha.

 

A adoção de Sipa é, portanto, uma alternativa para aumentar a produção de alimentos na mesma área. Pelo uso de animais em pastejo, é necessário que se minimize a emissão de gases de efeito estufa, como o metano (CH4). Estudos demonstram que a emissão por ovinos pode variar de 12,2 a 37,3 gramas CH4/animal/dia. Os valores encontrados neste estudo – de aproximadamente 21,0 gramas CH4/animal/dia, independentemente da estratégia de adubação (Figura 5) – comprovam que animais em pastagens de alta qualidade, como o azevém, manejadas sob intensidade de pastejo moderada, emitem pouco CH4, o que minimiza o impacto ambiental ao mesmo tempo em que aumenta a eficiência do sistema produtivo.

Pastejo animal não faz mal

Uma preocupação recorrente é que a inclusão do pastejo animal (Sipa) possa prejudicar a produção da cultura de soja em sucessão. No entanto, os resultados demonstram que, mesmo com menor resíduo vegetal após o período de pastejo no Sipa, comparado ao sistema especializado, a produtividade da soja na safra 2019/2020 não diferiu entre os sistemas de produção (Figura 6). Esse resultado demonstra que, quando a pastagem que antecede a cultura de soja é bem manejada, não há efeitos negativos na produtividade da lavoura. Pelo contrário, uma vez que a soma dos efeitos é positiva em termos econômicos, sociais e ambientais. 

A importância da inclusão do animal no sistema torna-se evidente quando abordada a produção de alimentos pela mesma unidade de área (Figura 7). Quando convertida a produção de carne do Sipa em equivalente em grãos de soja, e somada à produção da lavoura, é possível observar um aumento de 43,8% e 49,8% na produção do sistema, em Sipa com adubação tradicional e com adubação de sistema, respectivamente, comparado aos sistemas especializados. A produção de carne na fase pastagem do Sipa pode ser essencial para assegurar alta produtividade ao sistema, mesmo em anos com intempéries climáticas. Nesses casos, a utilização de Sipa pode ser a garantia do retorno econômico ao produtor.

Os resultados demonstram que é possível produzir maior quantidade de alimentos por unidade de área em Sipa, em comparação com um sistema especializado, a partir do incremento da produção animal na fase de pastagem durante o inverno, sem influenciar a produtividade da cultura sucessora (soja). Assim, o uso para a produção animal de áreas que permaneceriam em pousio ou com cultura de cobertura durante o inverno pode beneficiar o produtor rural com a melhor utilização da terra ao longo do ano, tornando-a mais produtiva e incrementando a renda financeira anual.

Paradigmas contestados

Essas informações também quebram paradigmas, como o de que o animal em pastejo compromete a produtividade da lavoura de soja quando em rotação. Além de ser uma inverdade, a presença do animal pode melhorar as condições químico-físicas do solo devido às excretas, aumentando a ciclagem de nutrientes no sistema. Mas cabe ressaltar que o sucesso da produção animal no sistema está diretamente relacionado à intensidade de pastejo. Neste estudo, os ovinos foram mantidos em azevém com altura média de 15 centímetros ao longo do período de pastejo, considerada a altura ótima de manejo.

Com relação à nutrição das plantas, os resultados demonstram que a adubação de sistema no período hibernal pode reduzir os custos operacionais na semeadura da soja, sem afetar sua produtividade. Com a pressão de se produzir cada vez mais, e com o aumento do preço dos fertilizantes, o uso eficiente dos nutrientes torna-se uma questão cada vez mais fundamental.

 

Artigo publicado originalmente na Revista A Granja, edição de outubro/2020