Sistema pode reduzir erosão em canaviais

02/09/2020

Da Redação FEBRAPDP

Palhada entre as linhas de plantio da cana: atuação na redução da erosão – Foto: Denizart Bolonhezi

 

Derivado do Sistema MEIOSI, o Sistema MITOSI chega com a proposta de integrar um viés mais conservacionista às práticas de manejo da cultura da cana-de-açúcar. Para isso, o método que se vale do transplantio sobre palhada de soja e/ou amendoim tem como principal vantagem o combate à erosão do solo. À frente dos trabalhos, o pesquisador Denizart Bolonhezi, pesquisador do Centro Avançado de Pesquisa de Cana do IAC, em Ribeirão Preto, SP, nos fala um pouco sobre o trabalho e suas perspectivas.

 

FEBRAPDP: O que é o Sistema MITOSI?

Deizart Bolonhezi: MITOSI - É a abreviação de Método Intercalar de Transplantio Ocorrendo Simultaneamente. Nada mais é que a adoção do conceito de MEIOSI – Método Inter-Rotacional Ocorrendo Simultaneamente, porém utilizando mudas pré-brotadas (MPB) de cana para implantar as linhas mães. Por isso, o transplantio é sugerido, pois a operação correta de plantar uma muda é transplantar. A MEIOSI foi criada pelo Professor Dr. José Emílio Barcellos, aposentado da Universidade Federal de Uberlândia e que no início dos anos 80, criou essa proposta que ficou anos sem adoção em virtude da dificuldade em manter o paralelismo entre os sulcos de plantio, problema solucionado com o advento dos GPS nos tratores. Portanto, estou parafraseando o Dr. Barcellos e sugerindo um conceito moderno da MEIOSI. Mas vai além, no passado — e isso ainda predomina —, no espaço entre as linhas mães de cana adota-se o preparo convencional para o cultivo das culturas durante a reforma, soja, amendoim ou adubos verdes. Na MITOSI, incluo a adoção do manejo conservacionista, uma evolução no caminho da sustentabilidade.

 

FEBRAPDP: Quando e como surgiu e por que ele se fez necessário?

Deizart Bolonhezi: A ideia surgiu há três anos, quando começou a ser difundido o uso das MPBs de cana para a implantação da MEIOSI. Foi quando tive esse insight . Mas na safra 2019/20 instalei um projeto na cidade de Planalto, SP, em parceria com a família do Eng. Agr. Rodrigo Valochi (FLA Operações Agrícolas) com a cultura do amendoim em MEIOSI utilizando quatro diferentes manejos de solo (Preparo Convencional, Rip Stip, Escarificador e Semeadura Direta). Na fase do amendoim, verificamos que na semeadura direta e escarificador a produtividade de vagens foi 96 sc/alq superior ao preparo convencional. Na sequência, plantamos o canavial com as mudas já presentes na área e oriundas de MPB. Nessa fase tivemos apoio e financiamento da FUNDAÇÃO AGRISUS (PA 2937/20). Então esse é o primeiro estudo que visa demonstrar de forma científica, os benefícios da proposta que chamo de Sistema Mitosi com amendoim na palha.

 

FEBRAPDP: O sistema chega a ser uma alternativa a rotação de culturas em plantios de cana?

Deizart Bolonhezi: Sim. É uma alternativa para reforma de canaviais, que permite redução de custos de forma expressiva, evita a ocorrência de erosão, o mais importante na minha opinião. A adoção da MEIOSI clássica com MPB é crescente. No ano 2019/2020 foram 200 mil hectares na região Centro-Sul, considerando uma amostra de 700 mil hectares reformados. Portanto, é um caminho que não tem volta. O que queremos é incluir os princípios da agricultura conservacionista, por isso propusemos um outro nome, MITOSI, a fim de diferenciar do convencional. Então, acredito que hoje essa área seria o potencial de adoção da MITOSI num curto espaço de tempo.

 

FEBRAPDP: O senhor já falou em "zero erosão, baixo custo, baixa emissão de CO² e mais renda ao produtor". Pode explicar mais a respeito? Quais as principais vantagens diretas sob os pontos de vista agronômico e produtivo?

Deizart Bolonhezi: A erosão em reforma de canaviais acontece sobretudo na reforma. As perdas de solo em cana são estimadas em 16t/ha/ano e para o amendoim chega a 34 t/ha/ano. Para cada 1,0 kg de amendoim produzido são estimadas perdas de 5,0 kg de terra. Então, associar semeadura direta de amendoim na reforma de canavial é permitir zerar o risco de erosão hídrica. Na questão dos gases do efeito estufa, temos resultados que manter a palha de cana na reforma, semear soja ou amendoim direto e retornar com a cana em plantio direto, a taxa de sequestro de carbono chega a 1,63 t de C/ha/ano, enquanto no preparo convencional é 0,67 t/ha/ano. Portanto, é o caminho para aumentar carbono no solo e por consequência mitigar CO². Redução de custo é certeza, na medida em que as cinco operações de preparo do solo equivalem a pelo menos R$ 1.000,00 de economia em diesel. Aumenta a renda, pois reduz os custos e às vezes pode produzir mais como foi o caso do projeto mencionado.

 

FEBRAPDP: O manejo mais conservacionista do solo é uma realidade nesse novo sistema, então, certo? Quais os ganhos no curto, médio e longo prazo para as lavouras que optarem por ele em relação ao modelo que hoje predomina?

Deizart Bolonhezi: O manejo conservacionista ainda não é adotado na reforma de canaviais como deveria. Predominam as operações de preparo convencional. A soja pela facilidade e disponibilidade de know-how em semeadura direta é uma exceção, mas amendoim ainda é incipiente e para cana, normalmente, consideram o preparo somente na implantação das culturas de sucessão e depois sulcam direto para plantar a cana. A proposta da MITOSI é possível transplantar direto as linhas mães e manter a palha para semear direto a soja, amendoim ou adubos verde e após a colheita pode-se entrar sulcando diretamente e "desdobrando" as linhas mães nesses sulcos. Mas vamos aguardar os resultados no ano que vem quando formos colher a cana. Não temos resultados ainda do MITOSI na fase da cana, somente do amendoim, conforme mencionado.

 

FEBRAPDP: Partindo do zero — incluindo aí a decisão de adotar o sistema — o que é preciso e como deve ser feita essa "conversão"?

Deizart Bolonhezi: Há muitas situações que não é possível adotar o conceito associado aos princípios da agricultura conservacionista. Para isso, primeiro deve-se fazer as correções necessárias, fazer manutenção ao longo das soqueiras de forma a proporcionar condições de fertilidade que permitam a adoção da semeadura direta, do transplantio direto das mudas de cana e do plantio direto dessas mudas nas faixas cultivadas com grãos. Sugiro que os interessados comecem por módulos e pouco a pouco vão ampliando a adoção. Os ganhos em aumento de matéria orgânica compensam outros desafios que acontecem. Quem quiser saber mais, pode entrar em contato direto comigo pelo e-mail: denizart@iac.sp.gov.br.

 

FEBRAPDP: Existe um perfil ideal de lavoura que comporta o sistema? Ou ele pode ser replicado desde propriedades menores até nas áreas das grandes usinas?

Deizart Bolonhezi: Não há restrição do tamanho da propriedade. Mas ter trator com tecnologia de GPS é imprescindível.

 

FEBRAPDP: Há empecilhos para esse avanço? Como por exemplo, custo de implantação, dificuldade de manejo, entre outros.

Deizart Bolonhezi: Como qualquer proposta de mudança no sistema de produção há desafios. Talvez, os três maiores sejam; compactação excessiva decorrente da colheita mecanizada da cana, necessidade de aplicação de corretivos em profundidade e ocorrências de pragas de solo, principalmente o Sphenoforus levis. Mas todas são passíveis de solução, ao menos parcialmente. O impacto da compactação pode ser diminuído pelo controle de tráfego. A correção em profundidade pode ser resolvida pelo uso de corretivos de maior solubilidade, tais como os óxidos e silicatos. As pragas presentes podem ser controladas com produtos biológicos ao longo das soqueiras e aumentando a diversidade dos canaviais através do cultivo de leguminosas e adubos verdes na entrelinha ao longo das soqueiras.

 

FEBRAPDP: Falando especificamente do Sistema Plantio Direto e do MITOSI, como, na prática essa parceria pode funcionar e do que precisa para dar certo?

Deizart Bolonhezi: A proposta da MITOSI com Plantio Direto para funcionar na prática requer planejamento e uma boa dose de convicção. Os produtores estão acostumados com pacotes tecnológicos baseados nos insumos. Hoje precisamos sair da Agricultura de Produtos para uma Agricultura de Processos, na qual são priorizados os princípios básicos da sustentabilidade. Produzir mais não significa ganhar mais dinheiro em muitas situações nas quais os custos não foram bem administrados.

 

FEBRAPDP: Quem está por trás desses trabalhos?

Deizart Bolonhezi: Essa linha de pesquisa, que pode ser resumida na Aplicação dos Princípios da Agricultura Conservacionista no Sistema de Produção Canavieiro, iniciei há 22 anos aqui no Centro de Cana do IAC, em Ribeirão Preto. Nesses anos, tivemos muito apoio da FUNDAÇÃO AGRISUS e do CNPq na condução dos projetos, alguns deles que foram iniciados em 1998 e continuam existindo. A interação com as três universidades paulistas (UNESP, USP e UNICAMP) também permitem ampliar os resultados e ofertar esses projetos para treinamentos de estudante de pós-graduação. Se tivéssemos mais apoio do setor produtivo, as informações geradas poderiam ser mais abrangentes. São poucas usinas que começam e continuam com a proposta. O mais difícil não é começar, mas sim persistir nessa estrada.