De carona no corona

26/08/2020

Por Ondino Cleante Bataglia, engenheiro agrônomo, consultor na Conplant Consultoria, secretário-executivo da Fundação Agrisus e ex-diretor geral do IAC

Foto: Google

 

Nos tempos de menino, lá em Itajobi, SP, conheci o Joaquinzinho, um senhor gordinho e muito simpático. Não era muito chegado ao trabalho, vivia com um mínimo e não se importava em ter nada a mais do que o essencial. Quando era cobrado, mudava de fazenda. Não usava calçados e, um dia, com a matraca ao plantar feijão, num descuido, ceifou o próprio dedão do pé e viveu o resto da vida sem ele. Esse é um singelo exemplo da índole de muitos brasileiros, que não se restringe à agricultura.

Na agricultura, desde o Brasil Colonial, sempre houve grande descuido com o trabalhador. Hoje, as grandes fazendas têm máquinas sofisticadas, onde o operador se isola numa cabine de ar condicionado com sistemas eletrônicos, verdadeiros escritórios ambulantes, protegido contra intempéries e derivas de agrotóxicos. Mas esse não é o cenário da maioria dos produtores rurais. Existem leis severas, normas rígidas em abundância e fiscalização nenhuma. São milhões de trabalhadores nas pequenas propriedades, nas produções familiares onde o uso de máquinas sofisticadas é raro, predominam aquelas sem proteção ao operador. Roupas e EPI nem pensar, poucos usam pelo desconforto, mas ninguém se incomoda com isso. E, com tanta negligência, a cada ano cresce o número de intoxicações, cujo total nem estatística correta existe.

Esse é apenas o dano direto ao trabalhador, não contamos aqui com os descuidos em relação à saúde pública. Prazos de carência nem sempre respeitados acabam se refletindo nas inúmeras e repetidas reportagens sobre os excessos de agrotóxicos nos alimentos. Muito difícil avaliar o efeito na saúde da população. Ninguém pode ignorar a necessidade do uso dos defensivos agrícolas ou agrotóxicos, mas não se pode ignorar as consequências do mau uso.

Nas cidades, nada é diferente. Vemos o sofrimento de populações inteiras para enfrentar um vírus. É negligência que vai da acomodação do pobre à má vontade do rico e, principalmente, dos governos. Quando um prédio desaba com os moradores dentro, descobre-se uma construtora de milicianos, sem fiscalização dos órgãos responsáveis. E pior: depois do desastre, tudo continua como antes.

Consequência da ocupação desordenada e dos descuidos ambientais, vemos nas grandes metrópoles esgoto vazando por todos os lados. Sem contar com cidades onde as palafitas são até atrações turísticas. Na verdade, são fábricas de coliformes contaminando crianças e adultos.

É verdade que o corona está fazendo estragos em muitos países. Povos ricos em diversas regiões do mundo estão igualmente sofrendo. Com certeza, todos estão aprendendo e, possivelmente, terão ganhos extraordinários com o desenvolvimento de vacinas, equipamentos de proteção e medicamentos. Nesse campo, nossa pesquisa se arrasta. A SBPC precisou fazer uma live de socorro. As instituições de pesquisa agrícola, principalmente as estaduais, estão morrendo e o que fazemos além de manifestar pena? Negligência de todo lado.

Não vai ser um vírus que mudará o jeito de ser do brasileiro. Mas, certamente, é preciso fazer uma reavaliação das nossas atitudes. Não é possível conviver com tanta tolerância à desigualdade, tanta aceitação da pobreza, tanta acomodação no trato com a natureza, com os animais e com o sofrimento dos outros. É possível mudar para melhor, principalmente preservando o pouco que vimos renascer no ser humano, chamado de solidariedade. Vamos acreditar que a mudança tenha embarcado como carona do corona numa esperança por novos tempos. Desistir jamais.