Sistema Plantio Direto: o passado mais presente do que nunca!

22/07/2020

 

Por Marie Luise Carolina Bartz ¹, Alex Marcel Melotto ², Jeankleber Bortoluzzi³, Ricardo Ralisch4, Rafael Fuentes Llanillo5, Jônadan Hsuan Min Ma6

Fonte: AIBA Rural, #16, ano VI, 2º trimestre, 2020.

Foto: Acervo FEBRAPDP

O início da década de 1970 se caracterizou pela escalada do processo de erosão do solo nas áreas agrícolas no Brasil, oriundo de um sistema de manejo do solo baseado no modelo de cultivo convencional da época (preparo do solo com arações e gradagens), trazido pelos colonizadores europeus que se estabeleceram por todo o País, em especial na região Sul.

Em meio a este cenário caótico, o agricultor Herbert Bartz, no Norte do estado do Paraná se destaca pela inquietude e necessidade de buscar uma solução para essa situação. Após perder várias vezes, para erosão, sua lavoura de soja recém-plantada para a erosão e a tentativa frustrada de um cultivo em preparo mínimo, no primeiro semestre de 1972, Bartz empregou recursos próprios para realizar uma viagem ao exterior (Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos da América) a fim de buscar alternativas ao preparo do solo, que considerava inviável e inadequado.

E foi nos EUA que conheceu o chamado “No-Tillage”, que Bartz passou a chamar de Plantio Direto (PD). O “No-Tillage” começou a ser adotado por agricultores na década de 60 nos EUA, onde se destaca Harry Young e sua propriedade em Kentucky, sob os olhos do entusiasmado extensionista Shirley Phillips. O objetivo da técnica “No-Tillage” era plantar sobre os restos culturais da safra anterior, reduzindo o número de operações agrícolas, passando a proteger a superfície do solo.

Bartz, ao visitar a propriedade de Young, viu, pela primeira vez, uma lavoura em terreno ondulado sem erosão. Young na ocasião estava em pleno plantio de sua safra de milho e Bartz relata que havia talhões de diferentes tamanhos, mas o solo protegido por rica camada de palha e o mais bonito era o trator puxando a plantadeira morro acima e morro abaixo, sem indícios de solo exposto. Com essa experiência, optou por adquirir e importar, também com recursos próprios, a mesma semeadora que Young utilizava.

Com a compra da máquina para PD efetivada, Bartz retorna ao Brasil determinado iniciar a adoção do PD em uma parcela de 10% de sua propriedade. Inúmeros desafios surgiram, que o atingiram em aspectos financeiros em virtude das inúmeras despesas que teve, incluindo a tributação alfandegária da máquina importada, quanto eventos naturais que causaram a perda da produção de inverno de 1972, a exemplo da geada, e, também a relação com a família e o descrédito do pai, seu avalista, quanto ao uso do PD, por achar isto uma desculpa para Bartz trabalhar menos, e, por fim, a indisponibilidade de acesso aos recursos de custeio para a aquisição de insumos na época.

Tais fatores o levaram a se desfazer de boa parte de seus equipamentos agrícolas, optando a se lançar ao abismo, iniciando 100% de sua safra de verão 1972/1973 com soja sob PD, em 23 de outubro de 1972. O disparate na época era tão grande que Bartz era chamado “o alemão louco de Rolândia que plantava na marmelada”, porque ele dizia preferir perder a soja para o mato ao invés de perder para a chuva e a erosão. Bartz chegou a ter uma safra de soja sob PD embargada pela Polícia Federal, sob a justificativa de causar risco à saúde humana, mas, típico alemão, Bartz, muito teimoso, insistiu naquilo que acreditava ser certo: produzir alimentos usando um manejo do solo menos agressivo através do PD. Sua fama foi se espalhando e a curiosidade entre os agricultores também, e estes começaram a visitar a fazenda de Bartz para conhecer o tal PD e foram aderindo ao sistema.

Em 1979, por falta de informações disponíveis, agricultores, técnicos e profissionais interessados na técnica se uniram e fundaram o Clube da Minhoca, nos Campos Gerais no Paraná, com o objetivo de trocarem experiências, discutindo as problemáticas e soluções que o PD apresentava. E o chamaram de Clube da Minhoca porque justamente com o advento desse manejo de solo esses organismos voltaram a colonizar os solos agrícolas. Depois de muito tempo os agricultores perceberam seus solos vivos novamente.

Nessa época já haviam aderido à causa do PD junto com Bartz, Nonô Pereira (in memoriam), Franke Dijkstra e a comunidade nissei de Mauá da Serra. Mas foi o trio, Bartz, Nonô e Franke que não mediu esforços para difundir e ampliar a adoção do PD no Brasil e países vizinhos nas décadas que se sucederam. E o lema era certo: “PALHA, PALHA e PALHA!”, este era e é, até hoje, o grito de guerra de John Landers, um dos maiores responsáveis pela expansão do PD no Cerrado. Tanto que o termo Plantio Direto na Palha foi usado por muito tempo e hoje ainda o evento bianual nacional carrega como história em seu nome “Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha”, sendo sua primeira edição nos anos 80.

Ainda nos anos 80, os agricultores e profissionais perceberam que os benefícios para quem adotava o PD eram mais amplos do que apenas a palha proteger o solo contra a erosão. Em termos de lavoura é possível apontar tais benefícios como acúmulo de matéria orgânica; estruturação do solo; aumento da biodiversidade; menor temperatura do solo; maior infiltração de água; aumento de fertilidade química; menor uso de máquinas e equipamentos, diminuindo o desgaste dos implementos; menor uso de combustíveis fósseis; menos custos de produção; aumento da produtividade; maior rentabilidade; menos trabalho e maior bem estar familiar. Além de tudo isso, a melhoria na qualidade da água, do ar, do solo, o sequestro de carbono e, principalmente, a qualidade dos alimentos são reflexos que beneficiam toda a sociedade.

No entanto, para que esses benefícios possam ser atingidos, três princípios devem ser atendidos: i. o revolvimento mínimo do solo, somente para a implantação das culturas; ii. a manutenção da cobertura permanente do solo, preferencialmente com plantas vivas e iii. a rotação de culturas atreladas ao uso de culturas de cobertura, passando a ser chamado de Sistema Plantio Direto (SPD).

Na década de 90 ocorre uma adoção expressiva no país, passando de pouco mais de 1 milhão de hectares para mais de 15 milhões na virada do milênio. Nesta década, o Clube da Minhoca se torna a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP), que é presidida por agricultores e representa até hoje a categoria que utiliza o SPD no Brasil, tendo em sua diretoria um corpo técnico composto por professores, pesquisadores, técnicos, extensionistas e profissionais de diversas instituições e entidades apoiadoras dos trabalhos da FEBRAPDP.

Também nos anos 90 surge a Confederação da Associações Americanas para uma Agricultura Sustentável (CAAPAS) que visa reunir as entidades de toda a América que representam agricultores e o SPD. Da virada do milênio até os dias atuais a área duplicou, mas ainda há potencial de ampliação do uso, pois o SPD ocupa em torno de 60% da área de nossas culturas de cereais atualmente. Em 2001, o modelo de agricultura baseado no SPD, praticado no Brasil, foi considerado pela FAO/ONU (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) o exemplo a ser seguido pelo mundo e que hoje rege os princípios da Agricultura Conservacionista.

O SPD se tornou esse sucesso e exemplo pois, rigorosamente atendendo aos seus princípios adequados às condições locais e regionais, é um sistema que pode ser adotado desde a agricultura familiar (onde os benefícios são mais evidentes) aos grandes produtores e empresas agrícolas, assim como praticamente em todas os tipos de produção agrícola (horticultura, culturas perenes e anuais). Na virada do milênio, a preocupação maior deixou de ser com a adoção ou não do SPD, mas, sim, de como ele é feito, se seus princípios são seguidos ou não.

Por volta de 2010, problemas que nossos agricultores tinham lá nos anos 70 (erosão e compactação do solo, falta de cobertura, etc.) retomaram nas nossas lavouras. Entre as diversas ações adotadas pela FEBRAPDP a mais significativa foi a proposição do Índice de Qualidade Participativo (IQP) do Sistema Plantio Direto, com o auxílio da Itaipu Binacional. O IQP é uma ferramenta de gestão, que é composto por um questionário com 26 perguntas fundamentado por um sistema de indicadores regionalizado do manejo solo, apresentando limites e interpretações de acordo com as condições locais associadas a uma série de indicadores ambientais. A participação dos agricultores é obrigatória e a chave para a calibração do IQP às condições regionais, se tornando também uma ferramenta de conscientização dos agricultores para a conservação do solo e a preservação ambiental.

A busca da qualidade é nosso principal desafio para consolidar todos os ganhos obtidos, até agora, e deixa-se como conclusão as principais recomendações para avançar no SPD. São elas: monitoramento da qualidade, principalmente, da matéria orgânica e respeito aos princípios do sistema (IQP); estímulos econômicos às culturas de rotação e diversificação; estímulos de taxa de juros e prêmios de seguro para quem faz bem feito (Plano ABC); subsídios para adubação verde e recuperação de solos; pagamento por serviços ambientais; expansão do sistema para cana-de-açúcar, mandioca e arroz irrigado, dentre outras.

Logo, completaremos 50 anos. Meio século em que o SPD é adotado no País. Ainda existem muitos desafios, em especial nas regiões mais quentes, onde a expansão agrícola ainda ocorre. No entanto, os princípios do SPD são incorruptíveis. Prevalece, desta forma, o consenso de que o sucesso de uma produção sustentável, contínua e resiliente, depende de mantermos o solo vivo, e é isto que o SPD promove.   

 

Mais informações: www.febrapdp.org.br

Fotos: Sistema Plantio Direto na Fazenda Boa Fé, propriedade do presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação Jônadan Ma, em Conquista, MG.

1 Bióloga, PhD, Pesquisadora, Centro de Ecologia Funcional, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra, Portugal, Brasil; Diretora Secretária, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil; 2 Biólogo, Msc, Diretor Excecutivo, Fundação MS para Pesquisa e Difusão de Tecnologias Agropecuárias, Maracaju, Brasil; Diretor Secretário, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil; 3 Engenheiro Agrônomo, Gerente Administrativo e Coordenador de Projetos, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil; 4 Engenheiro Agrônomo, PhD, Professor, Departamento de Agronomia, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Brasil; Diretor Conselho Fiscal, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil; 5 Engenheiro Agrônomo, PhD, Diretor de Integração Institucional, Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná IAPAR EMATER, Londrina, Brasil; Diretor Conselho Fiscal, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil; 6 Engenheiro Agrônomo, Agricultor, Grupo Araunah, Uberaba, Brasil; Diretor Presidente, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Foz do Iguaçu, Brasil.