Declínio das populações de minhocas no Plantio Direto

15/07/2020

Por Rafaela Dudas, Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental, Universidade Positivo; Wilian Demetrio e Herlon Nadolny, Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo, Universidade Federal do Paraná; Amarildo Pasini, Departamento de Agronomia, Universidade Estadual de Londrina/PR; George Brown, Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo, Universidade Federal do Paraná e Laboratório de Ecologia do Solo da Embrapa Florestas; e Marie Bartz, Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental, Universidade Positivo, e Centro de Ecologia Funcional, Departamento de Ciência da Vida, Universidade de Coimbra/Portugal bartzmarie@gmail.com

Figura 1: Espécies de minhocas que ocorrem em áreas sob SPD no Paraná: Pontos-colex corethrurus em Faxinal, Andior-rhinus duseni em Mauá da Serra e Fimoscolex n.sp.24 em Palmeira

Há consenso entre os agricultores de que “terra boa” é um solo com minhocas. É comum escutar que as minhocas “afofam o solo” e que “a bosta dela tem nutrientes”. De fato, a bioturbação das minhocas, ou seja, a construção de túneis e a produção de coprólitos (excrementos) contribuem com importantes serviços ecossistêmicos, como a formação do solo, a ciclagem de nutrientes, o sequestro de carbono, a disponibilidade de água, o controle da erosão e a produtividade vegetal.

No Brasil, as minhocas se tornaram o símbolo do plantio direto (PD) quando, em 1979, os agricultores pioneiros fundaram, no Paraná, o “Clube da Minhoca” – hoje, Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP) – justamente porque a minhoca era abundante nas suas lavouras após alguns anos de adoção do PD. Desde então, o PD evoluiu para o sistema plantio direto (SPD), com três premissas: o mínimo revolvimento do solo, a manutenção de cobertura permanente do solo (viva ou morta) e a rotação e a diversificação de culturas. O SPD é a prática conservacionista de manejo de solo mais adotada no País, considerado um modelo a ser seguido por outros países, com cerca de 33 milhões de hectares, dos quais 15% estão no Paraná.

Considerando a importância do SPD para a conservação do solo, e sua extensão no País, assim como o papel carismático das minhocas, neste artigo, será apresentada uma síntese dos trabalhos sobre minhocas em áreas sob PD no Paraná. No total, ao longo de 41 anos, 17 estudos avaliaram a abundância de minhocas e nove apresentaram dados da riqueza de espécies. Os primeiros trabalhos foram realizados entre 1979 e 1982 pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), por Derpsch e Voss, e relataram, após quatro anos de PD, um aumento nas populações de 0 a 116 indivíduos por metro quadrado (ind/m2) em Carambeí e de 3 a 28 ind/m2em Londrina.

As últimas amostragens foram realizadas em 2018 e 2019, em três áreas referências de pioneirismo na adoção do SPD: Faxinal (32 anos), Mauá da Serra (46 anos) e Palmeira (44 anos). Nesse trabalho, foi encontrada, no máximo, só uma minhoca por m2 (Palmeira) e entre três (Faxinal e Mauá da Serra) e cinco (Palmeira) espécies de minhocas (Figuras 1 e 2). Mas o que significam esses resultados? São bons ou ruins?

 

Resultados pouco animadores

Há quase dez anos, como parte de um trabalho da FEBRAPDP e da Itaipu sobre a qualidade do PD, os autores deste artigo propuseram uma classificação das áreas sob SPD quanto à abundância e à riqueza de minhocas. Em relação à abundância, <25 ind/m2 = pobre, ≥25 a <100 ind/m2 = moderado, ≥100 a <200 ind/m2 = boa e ≥200 ind/m2 = excelente; e quanto à riqueza de espécies, 0 a 1 espécie = pobre, 2 a 3 espécies = moderada, 4 a 5 espécies = boa e ≥ 6 espécies = excelente. As áreas referência de PD foram todas classificadas como pobres quanto à abundância de minhocas e moderadas (Faxinal e Mauá da Serra) e boa (Palmeira) quanto à riqueza de espécies, resultados pouco animadores.

Dos 17 estudos, foram obtidas informações de 138 áreas sob PD para a abundância de minhocas, distribuídas em 27 municípios em sete regiões geopolíticas do Paraná (Figura 3). Destas, 64% foram classificadas como pobres e moderadas quanto às populações de minhocas. As regiões Oeste (80) e Norte Central (43) perfazem 85% das áreas amostradas, e, em ambas, predominaram áreas classificadas como pobres (O = ٪۱۹ e NCe = 28%) e moderadas (O = 43% e NCe = 49%). Mas a região Centro Oriental, com apenas oito áreas, se destacou por ter 75% das áreas classificadas como boas.

Considerando a riqueza de espécies de minhocas, foram encontrados dados para 95 áreas, distribuídas em 16 municípios em três regiões geopolíticas do Paraná (Figura 4). Porém 96% das áreas com registro de espécies estavam nas regiões Oeste e Norte Central. O padrão de classificação para riqueza foi parecido com o da abundância, e 69% das áreas foram classificadas como pobres e moderadas quanto ao número de espécies encontradas.

Até 2003, quando a primeira síntese sobre minhocas em PD foi publicada, os dados mostravam uma correlação significativa e positiva entre a abundância de minhocas e a idade do PD. Ou seja, quanto mais velho o PD, mais minhocas ocorriam, e o inverso foi destacado para áreas sob plantio convencional. Porém, usando os dados compilados até 2019 (128 áreas), foi encontrada uma relação baixa, mas negativa e significativa (r = -0,24, p < 0,0007) entre a abundância de minhocas e a idade do PD. Para a riqueza de espécies (93 áreas), não houve relação com a idade do PD.

Ao agrupar as áreas de acordo com as fases de implantação, desenvolvimento e estabelecimento do PD – ou seja, 0 a 5 anos = inicial, 6 a 10 anos = transição, 11 a 20 anos = consolidação e >21 anos = manutenção –, a abundância de minhocas mostrou um aumento nos primeiros 10 anos, mas, depois, um decréscimo significativo (p < 0,03), nas fases mais antigas do PD (Figura 5a). Ou seja, as áreas sob PD/SPD mais velhas apresentam um declínio nas populações de minhocas, ao contrário do esperado. Para a riqueza, não houve variação significativa, mas, mesmo assim, o número médio de espécies foi menor nas fases de PD maiores que seis anos (Figura 5b).

 

Razões do declínio

Quais seriam algumas possíveis causas desse declínio? Em primeiro lugar, a qualidade do PD é determinante. Infelizmente, mais de 90% das áreas com PD no Brasil não atendem aos três princípios que regem o SPD de qualidade (não mexer, manter cobertura, usar rotação). Sabe-se que, quando um desses itens não é cumprido, problemas aparecem.

No que se refere às minhocas, e à biologia do solo em geral, a qualidade e a diversidade do alimento fornecido (matéria orgânica por meio da rotação e da diversificação de culturas) regem o desenvolvimento da vida no solo. Além disso, a movimentação do solo e a ausência de cobertura são sentenças de morte para as minhocas, já que o solo é sua casa e elas precisam tanto de proteção quanto de alimento para sobreviverem nos solos sob PD.

Finalmente, outro fator importante é o uso intensivo e contínuo de pesticidas tóxicos para as minhocas e persistentes no solo. A grande superfície dedicada a culturas anuais como soja, milho e trigo, as principais culturas usadas no PD e o aparecimento de surtos de doenças, principalmente fúngicas (como a ferrugem asiática), nos últimos 20 anos, têm aumentado consideravelmente as aplicações de fungicidas no Brasil.

Infelizmente, a maioria dos fungicidas e também inseticidas usados para controle de doenças e pragas nas lavouras sob PD possuem moderada a alta toxicidade para minhocas e moderada a alta persistência no solo, de acordo com a base de dados das propriedades dos pesticidas (Pesticide Properties Database – PPDB). A busca por cultivares resistentes e por agrotóxicos alternativos menos tóxicos, além da adoção do manejo integrado de pragas e doenças, são importantes desafios atuais e futuros, visando proteger a vida no solo.

Por outro lado, há boas notícias: foram encontradas 32 espécies de minhocas em áreas sob PD no Paraná, de um total de 91 espécies no estado. Ou seja, as áreas sob PD/SPD comportam um terço da biodiversidade de minhocas no estado. Destas, 13 são espécies exóticas, introduzidas com a colonização, que se adaptaram muito bem às condições ambientais paranaenses. As outras 19 são espécies nativas de minhocas, das quais 10 são novas espécies para a ciência que ainda precisam ser formalmente descritas. As espécies nativas são bastante sensíveis ao manejo do solo, e sua presença em áreas agrícolas mostra que o manejo adotado em algumas áreas sob SPD pode preservar esses animais (Figura 1).

 

Alerta aos produtores

Esse artigo é um alerta, especialmente para os agricultores com áreas sob PD. É necessário reverter esse declínio da vida nos solos sob PD. Os solos são o lar de quase 25% de toda a biodiversidade no planeta, e, neles, as minhocas realizam, silenciosamente, abaixo dos nossos pés, um trabalho muito importante, que contribui para o funcionamento de todo um sistema produtivo.

Neste momento, em que diversos setores passam por imensas dificuldades, a importância da agricultura para a sustentação da economia e da vida no planeta tem sido amplamente reconhecida pela sociedade. Com isso, práticas que minimizem os impactos ambientais, sem que ocorra a perda de produção, são necessárias, para garantir a sustentabilidade ambiental e econômica da agricultura.

As minhocas são importantes indicadoras da qualidade biológica dos solos brasileiros, e é necessário monitorar suas populações ao longo do tempo, numa parceria entre agricultores e as instituições de pesquisa, visando gerar as informações necessárias para a tomada de decisões futuras, sempre buscando a melhoria contínua dos sistemas de produção. Parte dos resultados apresentados neste artigo é proveniente da dissertação de mestrado de Rafaela Dudas.

 

Artigo originalmente publicado na Revista A Granja, edição de julho de 2020.