Fungo Trichoderma é aliado no controle biológico de doenças em culturas agrícolas

24/06/2020

Por Lebna Landgraf, Embrapa Soja

Fungo Trichoderma - Foto: Lucas Magalhães de Abreu

 O lançamento oficial da publicação Trichoderma - uso na agricultura, editada pela Embrapa, aconteceu nesta quarta, 24 de junho,  em formato digital, e contou  com a participação dos editores da publicação Maurício Conrado Meyer (Embrapa Soja), Sérgio Miguel Mazaro (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e Juliano Cesar da Silva (Biotrop). “Esta publicação é um marco porque conseguimos reunir um vasto conjunto de conhecimento que estava disperso. Podemos dizer que é o mais completo compêndio já publicado sobre este importante agente de controle biológico no Brasil e esperamos que sirva de incentivo para pesquisas mais aprofundadas no futuro, pois ainda há muito o que estudar", explica o pesquisador da Embrapa Maurício Meyer.

O lançamento virtual, em forma de webinar, abordou o uso atual e perspectivas do Trichoderma no Brasil, tema debatido pelo pesquisador Wagner Bettiol, Embrapa Meio Ambiente, e os mecanismos de ação de Trichoderma no controle de doenças de plantas, que foi apresentado pelo professor Enrique Monte, da Universidade de Salamanca, Espanha.

 

Publicação

Com a integração de diferentes opções de manejo de doenças de plantas, o controle biológico vem conquistando espaço crescente no mercado de defensivos agrícolas. Neste contexto, o fungo Trichoderma spp. é considerado um dos mais importantes agentes biológicos no controle de doenças em diferentes culturas agrícolas.

A publicação Trichoderma - uso na agricultura conta com 538 páginas, divididas em quatro partes: 1) o uso atual e perspectivas do Trichoderma no Brasil e produtos comerciais à base de Trichoderma; 2) caracterização e descrição do fungo Trichoderma e suas inteirações com os patógenos e as plantas; 3) qualidade na produção de produtos à base de Trichoderma e avaliação de eficácia; 4) o uso do Trichoderma no controle biológico de doenças de 14 culturas agrícolas.

Maurício Meyer, pesquisador da Embrapa Soja

 

A publicação reúne desde as aplicações práticas sobre a ação benéfica do fungo Trichoderma spp. no controle de doenças de plantas, as pesquisas básicas e os recentes resultados gerados sobre o tema, além do impacto crescente de biológicos no mercado brasileiro.

De acordo com Juliano Cesar da Silva, gerente de assuntos regulatórios da Biotrop, a ideia de produzir esta publicação sobre Trichoderma surgiu durante um Congresso de Fitopatologia em que especialistas da rede de ensaios de controle biológico de mofo-branco na soja, sentiram necessidade de metodologias mais precisas para realização de ensaios a campo e para entender a utilização e a eficácia do Trichoderma para o controle da doença.

¨Decidimos compilar as informações em um único livro, com redação científica, mas de fácil entendimento e assim atender às necessidades de diferentes públicos, tanto a academia (professores e alunos de graduação e pós-graduação, pesquisadores) quanto os usuários em geral (consultores, revendas e o agricultor)”, comenta.

Silva. “Trabalhamos com a ideia de conhecimento aberto, por isso, toda a publicação é pública e está disponível para download gratuito”. Acesso aqui.

 

Mercado de Biológicos

Há um crescimento anual de 15% no mercado mundial de biopesticidas, de acordo com os autores da publicação, a partir de dados da consultoria Markets & Markets. Só para se ter um exemplo, em 2017, a comercialização global destes produtos ficou em torno de U$ 6,4 bilhões e a expectativa é que até 2024, os valores cheguem a U$ 16,7 bilhões. Hoje existem, pelo menos, 246 produtos biológicos à base de Trichoderma registrados em diferentes países. Dentre as várias espécies presentes na natureza, o Trichoderma harzianum é a mais comumente empregada no controle biológico de doenças de plantas, presente em 38% dos produtos.

No Brasil, o mercado de biológicos também está em expansão. As vendas destes produtos saltaram de R$262,40 milhões, em 2017, para R$ 464,5 milhões, em 2018, o que representou um avanço de 77%, segundo levantamento feito pela CropLife Brasil. “Somente o mercado de biofungicidas teve incremento de 148%, em 2018, quando comparado ao ano anterior. Isso mostra o interesse do agricultor brasileiro na utilização da tecnologia”, explica Silva.

Os produtos à base de agentes de biocontrole, registrados no Ministério da Agricultura, subiu de 27, em 2011, para 200, em 2019. Na avaliação dos editores da publicação, o fato de haver registro de produtos à base de Trichoderma para culturas importantes no Brasil como soja, algodão, milho, café, entre outras, vem colaborando para o crescimento deste mercado, assim como os avanços na legislação brasileira, que favorecem o registro destes produtos.

 

Desafios para o desenvolvimento de biopesticidas no Brasil

Apesar da forte perspectiva de expansão, de acordo com os editores da publicação, há desafios a serem superados. Um deles é o ajuste entre a produção em escala e a logística de distribuição e de transporte deste produto biológico. “O Brasil é um país continental e a necessidade de distribuição dos produtos biológicos, de forma adequada para manter sua qualidade e eficiência, podem ser melhorados¨, defende Silva. Há ainda pesquisas voltadas para melhoria das formulações, visando a estabilidade dos produtos e que favoreçam a aplicabilidade do Trichoderma.

Associado aos cuidados no transporte e armazenamento, a aplicação dos biológicos no campo também merece especial atenção. “Como o produto carrega um ser vivo, é preciso mantê-lo em condições especiais de temperatura e umidade, para que o fungo se mantenha viável. Do ponto de vista prático, o entendimento sobre as condições ideais para aplicar o produto no campo é fundamental para a efetiva realização do controle biológico”, diz Silva.

Dentro do contexto da adoção a campo, o professor Sérgio Mazaro, da UTFPR, entende que os produtos à base de Trichoderma representam relevante alternativa para compor o manejo integrado de doenças. ¨No entanto, esta adoção gera a necessidade de pesquisas aplicadas para definição do posicionamento dos produtos, principalmente quanto à dosagem, formas de aplicação, condições ambientais no momento da aplicação, condição de cobertura de solo, compatibilidade de aplicação com outros produtos, entre outras questões que interferem no campo”, ressalta o professor.

Sérgio Mazaro, professor da UTFPR

 

Trichoderma na natureza

O Trichoderma é um fungo habitante de solo que está presente tanto em regiões de clima temperado quanto tropical. Este fungo pode colonizar madeira em decomposição, cogumelos e orelhas de pau. Também parasita outros fungos que representam ameaça para diferentes espécies de plantas. Os editores explicam que sua singularidade ocorre principalmente pela característica de oportunismo e de facilidade para colonizar vários tipos de substratos em diversos ecossistemas. “O Trichoderma tem importante mecanismo de ação sobre patógenos que atacam culturas agrícolas importantes como Fusarium spp. (podridão vermelha da raiz), Sclerotinia sclerotiorum (mofo branco) e Rhizoctonia solani (podridão radicular)”, explica Maurício Meyer.

 

Aplicação prática do Trichoderma contra mofo-branco em soja

A Embrapa estima que aproximadamente 10 milhões de hectares de cultivo de soja estejam infestados pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, causador do mofo-branco. O fungo atrapalha o desenvolvimento da planta e reduz a produtividade da soja. Anualmente uma rede de ensaios cooperativos apresenta resultados sobre o controle químico e também biológico do mofo-branco. Estes ensaios são realizados em diferentes regiões produtoras do Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul, por instituições de pesquisa públicas e privadas que compõem a Rede de Ensaios Cooperativos para Controle de Doenças na Cultura da Soja.

O pesquisador Maurício Meyer, da Embrapa Soja, ressalta que somente a adoção do controle químico do mofo-branco não é suficiente para um bom manejo da doença na cultura da soja, havendo a necessidade de integração de medidas culturais e do controle biológico. “Temos que considerar que mesmo com a maior eficiência de controle químico, ainda ocorre produção de inóculo da doença. Por isso, as demais medidas de manejo devem ser adotadas em conjunto, para inviabilizar a manutenção do fungo durante a entressafra”, explica.

Meyer reforça a importância do condicionamento de solo pelo sistema de semeadura direta sobre palha de gramíneas. “A palhada funciona como filtro, evitando que os esporos de S. sclerotiorum atinjam as plantas de soja e iniciem a infecção. Outros benefícios da palhada sobre o solo são o aumento da matéria orgânica, que serve de substrato para o Trichoderma, e a manutenção de umidade e redução da temperatura superficial do solo, condições fundamentais para o estabelecimento do agente de controle biológico”, destaca.

Mazaro salienta que o sucesso do controle biológico de mofo-branco em soja depende deste condicionamento de solo para promover o máximo de colonização pelo Trichoderma e, assim, reduzir o potencial da doença na área.