Um incansável servidor da ciência

18/06/2020

Por João Carlos de Moraes Sá, Presidente da Comissão Técnico-Científica da FEBRAPDP

 

O Dr. Rattan Lal, nascido em uma pequena vila agrícola de Karyal, no oeste de Punjab, na Índia, e cidadão dos Estados Unidos, receberá o World Food Prize 2020 por desenvolver e integrar uma abordagem focada no manejo do solo, cuja premissa é aumentar a produção de alimentos visando a restauração, a conservação dos recursos naturais e a mitigação das mudanças climáticas. Ao longo de sua carreira de mais de cinco décadas em quatro continentes, o Dr. Lal promoveu técnicas inovadoras beneficiando os meios de subsistência de mais de milhões de pequenos agricultores, melhorando a segurança alimentar e preservando milhões de hectares de ecossistemas tropicais naturais.

A partir de 1970, no Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) na Nigéria, Dr. Lal iniciou a abordagem sobre a erosão e degradação dos solos na África Sub-Saariana. Ele mostrou que o desmatamento e o cultivo agrícola sem a proteção da cobertura do solo sob clima tropical severo expuseram o solo à severa erosão. Além disso, a remoção dos resíduos culturais roubava do solo nutrientes e matéria orgânica, tornando cada vez mais difícil para os agricultores o cultivo de uma colheita viável.

Dr. Lal liderou pesquisas que demonstram que a matéria orgânica do solo são cruciais para sustentar e melhorar a quantidade e a qualidade da produção de alimentos. Suas descobertas são especialmente relevantes em regiões tropicais do mundo em desenvolvimento, onde a degradação do solo contribuiu para uma espiral descendente de problemas de saúde do solo, baixo rendimento agrícola, ambiente enervado e, em última análise, fraca resiliência dos meios de subsistência rurais.

Dr. Lal atua como Distinguished University Professor of Soil Science e Diretor fundador do Carbon Management and Sequestration Center da The Ohio State Universty (OSU), Columbus, OH. Desde o seu humilde começo como refugiado e crescendo em uma pequena fazenda de subsistência na Índia, sua determinação em aprender e ter sucesso na escola o levou a se tornar um dos principais cientistas do solo do mundo. Sua pesquisa pioneira sobre a restauração da qualidade do solo na África, Ásia e América Latina levou a revelações que impactaram os rendimentos agrícolas, a conservação de recursos naturais e a mitigação das mudanças climáticas. As práticas agrícolas que Dr. Lal defendeu estão agora no centro dos esforços para melhorar os sistemas agrícolas nos trópicos e no mundo.

O fundamento da abordagem focada no solo que ele tem difundido baseia-se na premissa de que "a saúde do solo, plantas, animais, pessoas e meio ambiente é única e indivisível". Suas pesquisas mostram que o cultivo de solos saudáveis ​​produz mais com menos: mais comida em menos área de terra, menos uso de agroquímicos, menos preparo do solo, menos água e menos energia.

“Acredito que o solo é um corpo vivo e vida é o que a saúde do solo significa. Todo ser vivo tem direitos. Portanto, o solo também tem direitos”, afirmou Dr. Lal. "Enquanto você estiver consumindo os recursos naturais – comida, água, elementos – provenientes do solo, você deve isso ao solo, e precisa devolver o que puder ele".

O Dr. Rattan Lal publicou 2437 artigos científicos, editou/escreveu 98 livros, 543 capítulos de livro, orientou 112 estudantes de pós-graduação, supervisionou 54 Pós-Doc’s e 180 estudantes e Pós-Doc’s internacionais. É uma lenda da ciência do solo. Clique aqui para conhecer o seu extenso currículo

 

No Brasil

Dr. Lal teve uma passagem pelo Brasil em 2005, onde fez a conferência de abertura do Simpósio sobre Plantio Direto e Meio Ambiente - Sequestro de Carbono e Qualidade da Água, promovido pela FEBRAPDP em Foz do Iguaçu, PR, em maio daquele ano. Na ocasião, ele falou sobre o tema O Plantio Direto e o Meio Ambiente - Impacto na qualidade do solo, da água e da atmosfera. Um dos quadros desta apresentação (abaixo) causou forte impressão em Herbert Bartz, um dos pioneiros do Sistema Plantio Direto no Brasil. Mostrava os 7 pecados da humanidade, segundo Gandhi. Bartz comentou tanto sobre a importância daquelas palavras que sua filha, Marie Bartz, traz o quadro na lembrança até hoje.

Lutecia Canalli, diretora da FEBRAPDP e pesquisadora do IAPAR, também tem na lembrança registros da vinda de Dr. Lal naquela ocasião. Segundo ela, que trabalhou na organização do evento, “uma coisa pitoresca foi que eu estava na organização do evento e tratei da vinda dos palestrantes e das providências de passagens, datas e horários de voos. Numa conversa prévia com Dr. Lal, ele me falou que sua estada no Brasil precisaria ser rápida, pois ele deveria estar em Oslo, Noruega, logo na sequencia ao nosso evento. Precisamos fazer uns encaixes meio complexos, que tinham horários de voos, digamos, não muito tranquilos. Foi engraçado porque ele entrou em contato comigo e disse: ‘minha filha você não sabe a minha idade? Eu não vou conseguir fazer esses horários, preciso de algo um pouco mais suave’. Achei engraçado o jeito como ele falou, pedi desculpas e, enfim, conseguimos ajustar e fazer com tudo desse certo para todos. É uma pessoa muito agradável, muito simples e com um conhecimento enorme, trouxe muita informação e discutiu profundamente o tema”, conta Lutecia.