Sem cobertura e raízes a erosão é uma constante nos agroecossistemas

28/05/2020

Por Afonso Peche Filho, Pesquisador Cientifico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC

Analisando os tipos, formas e ocorrências da erosão nas áreas agrícolas brasileiras, incluindo áreas de plantio direto, é fácil perceber que o processo erosivo é uma resultante de uma desagregação intensa que tem origem nos primeiros anos de ocupação e permanece ativa continuamente. Podemos dizer que toda área agrícola que foi desmatada tem como herança um risco de sofrer erosão ou perder progressivamente a sua capacidade produtiva. Principalmente com práticas conservacionistas mal construídas e com um manejo deficitário em cobertura e enraizamento.

A desagregação pode ser definida como uma ruptura de uma estrutura formada pelas atividades biológicas do solo envolvendo areia, silte e argila e agentes cimentantes orgânicos e minerais. Nos ecossistemas só existe agregação ativa e contínua, ou seja, não ocorre rupturas, as atividades naturais produzem agregados eternamente. Nos agroecossistemas existe agregação, mas também há desagregação mais forte ainda. Nos agroecossistemas que tem o solo exposto todo ano aumenta a quantidade de minerais livres oriundos do processo de desagregação. Essa produção contínua de minerais finos (silte, argila e areia muito fina) associada às operações de mobilização promove uma metamorfose no perfil do solo criando camadas adensadas e linhas compactadas restringindo desenvolvimento das plantas e aumentando a erodibilidade ao longo do tempo. Na natureza o processo de agregação do solo ocorre numa combinação de atividades física, química e biológica protegidas pela cobertura ecossistêmica. A atividade física promove agregação pelo efeito da expansão (hidratação) e retração (secagem) dos minerais do solo nas diferentes estações do ano. A atividade química promove agregação por reações entre moléculas orgânicas, cátions polivalentes (Fe, Al, Ca) e partículas de argila. A atividade biológica promove agregação pela atuação de microrganismos associados às raízes construindo núcleos de formação de agregados durante todo seu crescimento e atividade fisiológica.

Além do papel fundamental na formação de agregados o enraizamento participa ativamente na sustentação de toda comunidade biodiversa do solo contribuindo para aeração, hidratação, nutrição e estabilidade produtiva do perfil. A dinâmica do enraizamento permite a fertilização biológica dos solos em benefícios da cultura de sucessão. Onde passa uma raiz morta passa outra viva com facilidades de crescimento e desempenho produtivo. O objetivo do manejo de enraizamento é eliminar toda metamorfose física negativa que o perfil do solo sofreu, reconstruindo as funcionalidades de agregação, de aeração, de sustentação ecológica e principalmente adequar o agroecossistema para as condições tropicais normais e enfrentamento das mudanças climáticas.

Melhorar o enraizamento contínuo e cessar o processo erosivo é com certeza o maior desafio do sistema plantio direto na agricultura brasileira.