Conservação do solo: com ou sem terraços?

19/03/2020

Por Engenheiros-agrônomos Leandro do Prado Wildner, pesquisador da Epagri/Cepaf, Chapecó/SC; Marcelo Henrique Bassani, extensionista rural, gerência Regional Epagri, Xanxerê/SC; e Juliano Gonçalves Garcez, extensionista rural, Epagri de Caxambu do Sul/SC

Com o PD e os novos maquinários e tecnologias, muitos agricultores passaram a acreditar que o terraceamento era dispensável e que o PD era suficiente para manter a erosão sob controle – Foto: Juliano Gonçalves Garcez

Qual deve ser a estratégia adequada para controlar a erosão do solo? Bem, a estratégia é uma só: não permitir a ação do principal agente da erosão (hídrica), ou seja, da água. Estabelecida a estratégia, deve-se definir quais serão as práticas agrícolas (práticas conservacionistas: vegetativas, edáficas e mecânicas) que deverão ser implantadas na lavoura para inibir a ação dessa água. Para escolher ou definir tais práticas, é necessário entender que a água presente na natureza se move, no ciclo hidrológico, de duas maneiras: verticalmente, caindo na forma de chuva (ou subindo na forma de vapor); e horizontalmente, escoando sobre o solo na forma de enxurrada (água + sólidos).

Nessas duas formas, a água carrega consigo muita energia que é repassada para outros corpos, como, por exemplo, “o solo”, causando impacto. O impacto pelo deslocamento vertical da água (gotas de chuva) provoca destruição da estrutura do solo pela desagregação de suas partículas (areia, silte, argila e matéria orgânica). Por outro lado, o deslocamento horizontal da água provoca também a destruição da estrutura, mas por cisalhamento (atrito do fluxo de água com os agregados).

Descobertos os tipos de ação da água, quais devem ser, então, as práticas para evitar o impacto direto das gotas de chuva sobre o solo descoberto? E quais as práticas para diminuir a quantidade e a velocidade do fluxo de água que escoa sobre o solo? Podem ser as mesmas? Devem ser várias? Complementares? A resposta é “não”! Não podem ser as mesmas! Ou, então, “sim”! Devem ser várias e que são complementares. Tomando por base a primeira ação “impacto das gotas de chuva”, a prática recomendada é a cobertura de solo. Essa cobertura (viva ou morta) é obtida pelo cultivo sequenciado (sucessão), alternado (rotação) e/ou consorciado de várias espécies de plantas (culturas econômicas ou não) e, portanto, a manutenção dos resíduos de culturas (palha) na superfície do solo que formam uma camada amortecedora/isolante sobre o solo e não permite o impacto das gotas de chuva. No campo, essa eficiência pode chegar a até 70%/80%. O restante necessário para controlar a erosão deverá vir pela adoção de outras práticas conservacionistas.

A importância da infiltração

Para diminuir o volume e a velocidade do escoamento da água sobre a superfície do solo, é necessário pensar, inicialmente, na infiltração da água no solo. Quanto maior a infiltração, menor será o escoamento de água. Assim sendo, devem ser adotadas práticas que favoreçam a manutenção ou a recuperação da estrutura capaz de permitir a máxima infiltração possível. Isso significa incorporar muita matéria orgânica ao solo, promover intensa atividade biológica dentro do solo e permitir o crescimento de “muita raiz”. Quando o solo fica saturado e a quantidade de chuva é maior que a taxa de infiltração, o excesso de água passa a se movimentar horizontalmente sobre o solo.

A partir desse momento, é necessária a adoção de práticas capazes de dividir a encosta do terreno em porções (seções) que não permitem o acúmulo de grandes volumes de água nem que essa água adquira velocidade capaz de causar abertura de sulcos no solo. Normalmente, são construídas estruturas artificiais com o próprio solo (terraços) que recolhem o volume de água e promovem a sua infiltração (quando em nível) ou a sua retirada ordenada e gradual (quando em desnível).

A história da conservação do solo no Brasil – mais especificamente no Sul – registra que, até os anos 1980, o terraceamento era tido como prática necessária e suficiente para o controle da erosão. Tal conclusão era embasada a partir de uma constatação de campo errônea e pela falta de conhecimento do fenômeno erosão do solo. A erosão era sinônimo de sulcos (pequenos, médios, grandes ou voçorocas) cortando, morro abaixo, as áreas de cultivo. Os sulcos eram o resultado da ação apenas do escoamento superficial. A falta de conhecimento quase que generalizado na época não levava em consideração o impacto das gotas de chuva sobre o solo descoberto, recém-preparado e pulverizado pela ação dos implementos agrícolas para o preparo do solo e tratos culturais.

A cobertura do solo como alternativa para evitar o impacto das gotas de chuva sobre o solo e controlar significativamente a erosão só foi viabilizada a partir dos anos 1970, pela iniciativa de Herbert Bartz, Manoel “Nonô” Pereira e Franke Dikjstra, os pioneiros do plantio direto no Brasil. Com a consolidação do plantio direto e a disponibilização de novos maquinários e tecnologias, muitos agricultores passaram a acreditar que o terraceamento era dispensável e que o plantio direto era suficiente para manter a erosão sob controle. Dessa forma, o terraço foi praticamente eliminado das lavouras e somente permaneceu o plantio direto para controlar a erosão.

Com o passar do tempo e com a perda da qualidade da cobertura, o manejo inadequado do solo, das máquinas e dos animais (em sistemas de integração lavoura-pecuária), sérios problemas de baixas taxas de infiltração, compactação do solo e ocorrência de sulcos de erosão começaram a aparecer em áreas de plantio direto.

Mobilização pela volta dos terraços

Percebendo que o plantio direto estava sendo erroneamente considerado uma prática conservacionista suficiente para controle da erosão, o Núcleo Regional Sul da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, em 1996, emitiu um documento denunciando o retorno da erosão e recomendando a adoção (ou o retorno) do terraceamento para o plantio direto. A partir de então, outros tantos alertas foram publicados em rádios, jornais de ampla circulação, revistas técnicas e até em eventos técnico-científicos dos três estados do Sul. Com isso, o terraço voltou a ser discutido. Mas não mais com a metodologia tradicional, e sim com o uso de metodologias adaptadas às condições do plantio direto. No Paraná, o Iapar desenvolveu uma metodologia própria para o estado. E, no Rio Grande do Sul, a metodologia Terraço for Windows, da Universidade Federal de Viçosa/MG (UFV), foi validada a campo, pela primeira vez, na Fazenda Falcão, em Pontão, em parceria com a Embrapa Trigo e a Emater/RS Regional Passo Fundo.

A partir do projeto da Fazenda Falcão apresentado no VI Encontro Estadual de Plantio Direto, realizado em Xanxerê/SC, em 2017, a Epagri tomou a iniciativa de, também, utilizar essa metodologia em Santa Catarina. E, através do Programa Estadual de Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental (DAS), implantou, na região Oeste Catarinense, algumas Unidades de Referência Técnica (URT) sobre terraceamento. Destaque especial foi a URT de Caxambu do Sul/SC, viabilizada em 2019 pela parceria com a Secretaria Municipal da Agricultura e Cooperalfa, na organização, e da Embrapa-Trigo, na orientação e na implantação dos terraços em propriedade de agricultor do município.

Nessa metodologia, são considerados, além dos parâmetros tradicionais de textura do solo e declividade do terreno, também a taxa de infiltração básica (TIB) do solo e a chuva máxima intensa em 24 horas. A infiltração de água é influenciada tanto pela textura quanto pelo declive, mas em se tratando de plantio direto, é influenciada pela cobertura do solo (quantidade e qualidade), manejo de máquinas e animais. É bom lembrar que a distância entre terraços foi, também, uma das razões pelas quais muitos agricultores abandonaram o terraceamento. Mas, agora, para uma mesma textura e uma mesma declividade, a distância entre terraços poderá ser aumentada se a área entre um terraço e outro tiver boas taxas de infiltração de água no solo. Isso significa dizer que “bons manejos de solo, máquinas e animais” podem viabilizar a construção de terraços mais espaçados.

Para o uso pleno da metodologia Terraço for Windows em Santa Catarina, a Epagri, através da Estação Experimental de Urussanga/SC, está desenvolvendo dois projetos importantes: um diz respeito ao estudo das chuvas intensas em todo o território catarinense, mas que trará informações também para os principais estados produtores agrícolas do País; e outro que diz respeito ao desenvolvimento de uma versão do Terraço for Windows totalmente adaptada e ampliada para as condições do estado.

Com base no anteriormente exposto e em resposta ao título deste artigo, fica muito claro que é necessário o uso de várias práticas para o controle da erosão do solo. Práticas de manejo do solo, para manter ou recuperar as taxas de infiltração de água no solo entre os terraços, e práticas mecânicas para o manejo da água de escoamento (terraços).

 

Artigo publicado originalmente na Revista A Granja (março/2020)