Projeto Arenito: 15 anos de ILP em pequena propriedade no Paraná

Revista A Granja 12/07/2019

Por Fernando Ribeiro Sichieri, engenheiro agrônomo, Universidade Estadual de Maringá (UEM), responsável pelo Projeto Arenito – ILP no Noroeste do Paraná

A aferição da cobertura morta aos 100 dias indicou uma persistência de 35% a 47% da quantidade inicial, o que proporciona grandes benefícios à cultura da soja, como menor evapotranspiração – Foto: Revista A Granja

O Projeto Arenito do Vale é realizado na Estância JAE, no município de Santo Inácio/PR, e, juntamente com o Rally da Safra, compõe os projetos mais antigos da Fundação Agrisus. Nestes mais de 15 anos, foram feitas pesquisas, validações e demonstrações conduzidas pela Universidade Estadual de Maringá/PR e pela Embrapa, com apoio da Fundação Agrisus e de empresas parceiras. Por nove anos consecutivos, vem se produzindo forragem para gado de leite, e por cinco anos, gado de corte no intervalo de duas culturas de soja de verão. É o que se chama de integração lavoura-pecuária (ILP) em pequena propriedade familiar, onde plantação e criação se alternam na mesma área.

O solo, da série Arenito Caiuá, tem de 70% a 80% de areia, tendo sido originalmente recoberto por mata alta de perobal denso, não muito grosso, porém sem os padrões de alta fertilidade da figueira branca, por exemplo. Foi plantado na década de 1950, no limite da fertilidade inicial, com lavoura de café que durou poucos anos em consequência das geadas intensas. Seguiu-se a cultura do algodão, substituído por pastagem devido à erosão. E a braquiária cede lugar, hoje, aos cereais, depois de adotado o plantio direto. Neste artigo vamos demonstrar os resultados dos cinco anos (2013-2018) de validações com produção de carne durante intervalo de duas culturas de soja.

A fertilidade original é média, com baixos teores de bases (2/3 centimol de carga/decímetro cúbico, ou cmol/dm3) e matéria orgânica (1%/2%), compatíveis com a textura arenosa com menos de 30% de argila e silte. O fósforo extraído por resina é baixo, seguindo a regra da maioria dos solos tropicais. A acidez é média (pH 5/6), com toxidez por alumínio inexistente ou muito baixa. A capacidade de troca de cátions (CTC) é de 4/5 cmol/dm3, e a saturação (de 50%/60%) é média, a primeira dentro da faixa das terras com mais de 70% de areia como o solo em questão. A ILP descrita está comprovada tanto na dimensão da pequena propriedade familiar, na qual vem sendo realizada, como em estabelecimentos de qualquer escala, pois os princípios técnico-administrativos envolvidos são universais.

A disseminação das tecnologias validadas pelo Projeto Arenito teve uma abrangência de mais de 7 mil agropecuaristas visitados nos 25 dias de campo que foram realizados nesta década e meia de trabalho. Destacam-se, também, os resultados divulgados nas mais renomadas revistas e sites agropecuários do Brasil, como também nos diversos eventos técnicos que fomos convidados a apresentar nossos resultados e experiências. Nas medições realizadas durante os 15 anos de projeto, as chuvas de abril a outubro somaram de 388 mm a 698 mm, a média das temperaturas máximas ficou entre 24,7 ºC e 32 ºC, enquanto a média das mínimas variou de 10 ºC a 18 ºC, e a mínima absoluta, de -2 ºC a 13 ºC.

Nos períodos de outono-inverno dos cinco anos, houve chuvas irregulares, mas suficientes para produzir forragem de qualidade com volume adequado à alimentação do gado de corte. Comparado com culturas anuais, a pastagem proporciona uma maior segurança, em razão de ter um maior poder de espera pelas condições de umidade para o desenvolvimento. Foi o que aconteceu em alguns anos nos quais pouco choveu no outono, e, assim, as pastagens sofreram um menor desenvolvimento, mas que foi compensado no inverno, visto que, nesses anos, essas vieram a compor a média histórica anual para a região.

A pastagem
Após mais experimentos de 25 combinações de gramíneas com forrageiras perenes, anuais, temperadas, tropicais, leguminosas etc., adotamos comercialmente o melhor resultado: a Brachiaria ruziziensis, utilizando sempre sementes revestidas na proporção de 600 pontos de valor cultural por hectare. Essa tecnologia foi iniciada em 2005 e, nos 13 anos, apresentou uma produção em qualidade e quantidade com poucas oscilações, ou seja, os animais precisam se alimentar, e o produtor necessita ganhar dinheiro, independentemente do clima, e essa forma de integração vem atendendo a essas demandas.

Visto o surgimento de variedades da soja de ciclo mais curto (precoces), da colheita antecipada da oleaginosa, se possibilitou substituir, desde 2008, o sobressemeio da braquiária pelo plantio direto, com melhor germinação e maior densidade de touceiras. O pasto formado recebeu 60 quilos/hectare de nitrogênio por ano na sequência dos cinco anos (de abril a setembro). Calculando uma ingestão diária de 2,3% de matéria seca (MS) sobre o peso vivo, somada à matéria seca aferida no final do pastoreio, pode-se estimar a produção de forragem em 3,6 a 7,4 toneladas/hectare durante 150 dias, a partir da colheita da soja até o fim do pastoreio.

A produção de carne
O pastoreio de garrotes Nelore (de 320 a 360 quilos) em regime exclusivo de pasto perdurou na média de 96 dias nos meses de abril a agosto, com 125 a 234 diárias e uma pressão de 2 a 4,3 cabeças/hectare, proporcional à duração do pastoreio. O ganho médio diário durante o período de pastoreio foi de 705 gramas/cabeça/dia, correspondentes, respectivamente, a 0,7 arroba/mês por animal de carcaça. Findo o pastoreio, a área teve um período médio de 28 dias para regeneração do capim, que, após dessecação, mostrou uma fitomassa de 4,1 a 6,9 toneladas/hectare, sobre a qual foi semeada nova cultura de soja em novembro e início de dezembro.

A aferição da cobertura morta aos 100 dias indicou uma persistência de 35% a 47% da quantidade inicial, o que proporciona grandes benefícios à cultura da soja, como menor evapotranspiração, menor temperatura do solo, menos infestação de plantas daninhas etc. A produção de soja após a produção indicada de carne e de fitomassa foi de 38 a 62 sacas/hectare durante o período de cinco anos consecutivos, sendo que, em média, a produção foi de 46,2 sacas/hectare. Comparativamente às produções médias da região, conforme o Departamento de Economia Rural, vinculado à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Paraná, o Projeto Arenito apresentou uma produção 16% acima da média da região.

Desempenho econômico no inverno
Os custos obtidos pelas diárias (de R$ 1,30 a R$ 3,5/dia), com média de R$ 2,08 por quilo de matéria seca (de R$ 0,10 a R$ 0,27/quilo/matéria seca), resultando em R$ 0,17 quilo de matéria seca consumida pelos animais, se comparam favoravelmente com os preços vigentes no mercado para confinamento ou para feno. A elevada produtividade da soja comprova que está sendo mantida a alta fertilidade do solo e, consequentemente, a sustentabilidade da produção e do sistema.

A ILP descrita está comprovada tanto na dimensão da pequena propriedade familiar, na qual vem sendo realizada, como em estabelecimentos de qualquer escala, pois os princípios técnico-administrativos envolvidos são universais. A viabilidade econômica da pecuária, seja ela de corte ou de leite, comparada à agricultura, está voltando a preocupar a todos, mas a diferença é que, hoje, há mais ferramentas e tecnologias disponíveis, assim como mais conhecimento e conscientização dos benefícios das possíveis sinergias e segurança que os resultados da ILP oferecem. Esta atividade pode ajudar a enfrentar o desafio do futuro de melhorar a cada dia o bem que apenas se toma emprestado de nossos sucessores: a terra.

Artigo originalmente publicado na Revista A Granja, julho de 2019