Sistema Plantio Direto: os pilares do equilíbrio

Revista A Granja 21/06/2019

Prática que revolucionou a agricultura brasileira, o plantio direto é adotado em mais de 30 milhões de hectares no País. No entanto, o autêntico sistema plantio direto está presente em menos da metade dessa área. Isso significa que a maior parte dos produtores não adota os três princípios fundamentais que amparam o método: o não revolvimento do solo (restrito à linha de semeadura ou covas para mudas), a cobertura permanente do solo com plantas vivas ou palhada e a diversificação de plantas na rotação de cultivos. Especialistas e produtores ouvidos pela reportagem d’AGranja alertam para o risco da simplificação dos processos e ressaltam a importância de cada um dos pilares para o equilíbrio e a sustentabilidade do ambiente produtivo

Por Denise Saueressig

Produtor Jônadan Ma: SPD proporciona aspectos de restauração da capacidade natural que todo organismo tem quando está em equilíbrio - Foto: Firmino Leal

Na época em que o produtor Jônadan Hsuan Min Ma era estudante de Engenharia Agronômica, pouco se ouvia falar sobre plantio direto (PD) no meio acadêmico. Era o final dos anos 1970, apenas alguns anos depois da prática ser iniciada no Brasil pelo precursor Herbert Bartz, em lavouras no Paraná. Formado em 1981 pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Jônadan Ma iniciou os primeiros testes com a nova prática de cultivo dois anos depois. Em 1988, adotou definitivamente o PD nas suas lavouras, mas garante que a revolução mais importante veio mesmo a partir de 2003, quando o trabalho passou a ser voltado para o sistema plantio direto (SPD). A expressão pressupõe os três princípios básicos que sustentam a prática: o mínimo revolvimento do solo, a cobertura permanente do solo e a rotação de culturas.

Na Fazenda Boa Fé, em Conquista, na região do Triângulo Mineiro, 1,6 mil hectares são cultivados na safra de verão. Entre 1,3 mil e 1,4 mil hectares são plantados com soja, e entre 200 e 300 hectares, com milho para rotação. Na segunda safra, a área em que anteriormente foi cultivada a soja dá lugar a um esquema diversificado: entre 250 e 300 hectares com milho, entre 600 e 700 hectares com sorgo e 105 hectares irrigados com aveia ou feijão. Já nos talhões que receberam o milho no verão, agora é a vez de um mix de cobertura. “Adotamos também essas plantas em blends ou isoladas, conforme o caso, no restante da área que foi da soja no verão”, descreve Ma, que ainda trabalha com a pecuária leiteira. Dos 73 hectares destinados à criação do gado, 38 estão em integração lavoura- -pecuária-floresta (ILPF).

Restauração e equilíbrio — A adoção rigorosa das práticas do SPD resultou em melhorias na produtividade, mas a evolução mais significativa, segundo o produtor, foi a redução de custos. “Em um cultivo de 3 mil hectares, utilizava, em média, 1,5 mil toneladas de fertilizantes químicos por ano. Hoje, consigo usar um terço dessa quantidade e ainda produzo mais e melhor”, destaca. Ele também revela que o volume de defensivos aplicados diminuiu entre 20% e 30%. “São contas que têm reflexos sobre as margens de rentabilidade. Produzir gastando mais é fácil. Então, não basta falar que a produção foi maior, mas sim, pensar no quanto sobrou dessa produção”, acrescenta.

Arte: Daniela de Oliveira

Empolgado com os benefícios do autêntico SPD, Ma identifica nas plantas aspectos de restauração da capacidade natural que todo organismo tem quando está em equilíbrio. “Isso vale para uma pessoa, planta, animal. Claro que temos que proteger a lavoura, mas o excesso de defensivos faz com que a planta não consiga mais responder com seu próprio sistema de defesa. Isso não é filosófico, é cientificamente provado”, ressalta.

Acostumado com médias de produtividade entre 63 e 65 sacas na lavoura de soja, o produtor enfrentou queda na última safra devido a um total de 40 dias de veranico em dezembro e em janeiro. A média recuou para 52 sacas por hectare, mas ele tem certeza que a redução só não foi maior devido ao plantio direto que, entre tantos benefícios, ajuda a reter a umidade no solo.

Propósito de aprimorar o sistema — Jônadan Ma também é diretor-presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp). Num mandato que vai até fevereiro de 2020, ele tem como uma das missões justamente trabalhar pela conscientização a respeito das práticas conservacionistas. “É um grande desafio. Boa parte dos produtores trabalha com o plantio direto fazendo o revolvimento mínimo, mas deixando de desenvolver e aperfeiçoar os outros dois aspectos”, considera.

Em parceria com a Itaipu Binacional, a federação mantém, entre suas iniciativas, o Índice de Qualidade do Participativo do Plantio Direto (IQP), que é definido como uma ferramenta de gestão e de promoção do SPD. Por meio de um questionário aplicado junto a produtores, são atribuídas notas aos indicadores avaliados e sugeridas alternativas para a implementação de melhorias nas áreas. Entre os itens considerados no IQP, estão a intensidade e a diversidade das rotações de culturas, a persistência dos resíduos na superfície do solo, o terraceamento e o tempo de adoção do SPD. “Com plantio direto, podemos dizer que o Brasil tem hoje em torno de 35 milhões de hectares, mas no sistema, é um número bem menor. Atrevo-me a dizer que é cerca de um terço dessa área, ou 12 a 15 milhões de hectares”, cita Ma.

Um dos gargalos para o efetivo cumprimento das diretrizes do SPD está relacionado à questão econômica. Com o predomínio da soja nas lavouras de verão estimulado pelo retorno financeiro da cultura e pela instabilidade do mercado de milho, muitos produtores abrem mão de manter um esquema rotacionado. Ao mesmo tempo, o milho cresceu em importância na segunda safra na maior parte do Brasil. “Claro que o ideal seria fazer uma rotação de 50% e 50%, mas como nem sempre isso é possível, o produtor pode iniciar, por exemplo, com 80% e 20%. Assim, o conceito já está sendo criado. Cada um deve entender o que é melhor para a sua área, de acordo com a sua necessidade, características e potencialidades”, orienta o dirigente.

Pesquisador Gessí Ceccon: mesmo depois do PD estabelecido, a passagem de máquinas com solo em alta umidade pode provocar compactação. Crédito da foto: Suelma Pires da Silva Bonatto

Mecanização — O primeiro princípio do sistema plantio direto, que é o não revolvimento ou revolvimento mínimo do solo, é o mais empregado no Brasil devido à grande vantagem econômica da prática, constata o pesquisador Rafael Fuentes Llanillo, diretor de Pesquisa do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). “Hoje, se tivéssemos que revolver o solo para plantar, gastaríamos entre US$ 300 e US$ 400 por hectare nessa operação”, calcula.

Mas ainda que a maioria dos produtores adote a regra, algumas práticas podem prejudicar o processo, alerta o analista da Embrapa Agropecuária Oeste Gessí Ceccon. É o caso da necessidade da aplicação de corretivos e adubos que requerem o revolvimento e a semeadura com solo em umidade excessiva ou em velocidade alta. “Mesmo depois do plantio direto estabelecido, a passagem de máquinas como colheitadeiras e carretas transportadoras, que por vezes acontece com solo em alta umidade, pode provocar compactação, o que dificulta ou impede o crescimento das raízes das próximas culturas, então há um novo revolvimento da camada compactada”, explica.

Nas condições tropicais e subtropicais, com elevada radiação solar, chuvas intensas e grandes variações de temperatura, preparar o solo se torna uma atitude extremamente perniciosa para a vida neste meio, acrescenta o pesquisador Luís Carlos Hernani, da Embrapa Solos. “A ação danifica a estrutura do solo, expõe as suas partículas minerais e orgânicas e os seres vivos ali presentes aos fatores intempéricos, levando a processos de degradação”, reforça.

Cobertura — A permanente cobertura do solo, seja com palhada ou plantas vivas, tem mais facilidade para ser seguida no Sul do Brasil devido às condições climáticas. Já em áreas do Centro-Oeste e do Matopiba, o esforço precisa ser maior para a produção de biomassa. “Em um ambiente com 15 a 17 toneladas de palha, entre dez e 12 toneladas serão decompostas pelo clima quente e pela degradação natural. Mas para conseguir essas cinco toneladas ao final do ciclo, além da soja e do milho safrinha, é necessário pensar, pelo menos uma vez a cada três anos, em uma diversificação com milheto, braquiária ou um mix de plantas de cobertura”, recomenda Llanillo.

Arte: Daniela de Oliveira

Manter permanentemente a cobertura viva (preferencialmente) ou morta sobre o solo tem importante papel na supressão de plantas indesejáveis. Também colabora na dissipação da energia da chuva, na diminuição do escoamento superficial hídrico, no aumento da infiltração da água e na manutenção de temperatura mais amena do solo, enumera o pesquisador da Embrapa Solos. “Já a ausência ou a pobre cobertura sobre o solo favorece o surgimento de plantas daninhas, expõe a superfície do solo ao impacto de gotas de chuva, incrementa o escoamento superficial hídrico e as perdas por erosão. Na enxurrada, são levadas partes do solo, sementes, nutrientes e matéria orgânica, o que vai ocasionar a degradação”, ilustra Hernani.

Variedade faz a diferença — A diversificação de culturas vai afetar a qualidade do solo e, consequentemente, a produtividade, atesta a professora Marie Bartz, do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade Positivo. “O problema é que a maioria dos produtores ressalta que muitas culturas para essa diversificação não são as comerciais”, conclui a especialista em biologia do solo que também é vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da Febrapdp. “Mesmo no caso de rotação com culturas comerciais, vi um sistema de integração lavoura-pecuária no Piauí com mais de dez anos com soja, milho e braquiária. Para mim, isso depois de algum tempo virou uma sucessão de três culturas, com o solo morto biologicamente”, aponta.

Manter o manejo voltado à diversificação é uma forma de tentar imitar o que a natureza nos ensina, salienta Marie, lembrando que, em uma floresta densa, por exemplo, a diversidade da flora e da fauna é imensa e representa um conjunto de trabalho responsável por manter o ecossistema em equilíbrio. “É nesse sentido que a diversificação tem um papel crucial no equilíbrio do solo e ambiente, pois é responsável pelo aporte de diferentes fontes de matéria orgânica. Essa matéria orgânica é fonte de alimento e é processada pelos organismos. Quanto mais diversificado o ‘cardápio’, maior a possibilidade de haver diversidade biológica trabalhando nesse solo e em prol do agricultor”, justifica. Já a boa estruturação do solo será responsável pela retenção de água, acúmulo e disponibilização de nutrientes, além do crescimento do sistema radicular das plantas, num processo que possibilita a redução do uso de fertilizantes químicos.

Em regiões de clima tropical, cultivo simultâneo de milho com braquiária tem sido alternativa para cobertura do solo. Crédito da foto: Gessí Ceccon

A permanente cobertura do solo e a diversificação de culturas também estão diretamente ligados à diminuição do uso de defensivos. Segundo Marie, o solo coberto, por si só, já reduz em muito o crescimento de invasoras, devido ao efeito de sombreamento, especialmente usando equipamentos como o rolo-faca, para tombamento da cultura de cobertura ou de adubação verde. “E existem ainda opções de culturas que têm efeito alelopático sobre outras plantas e que podem ajudar no controle das invasoras. Da mesma forma, a adoção do manejo integrado de pragas (MIP) vai favorecer o menor uso de pesticidas”, prossegue.

Para os produtores que pretendem iniciar um manejo mais sustentável via SPD, o recomendável é fazer o levantamento da fertilidade no talhão e realizar todas as correções do solo necessárias para que depois não seja preciso mexer no sistema, aconselha Marie. “É importante que o produtor, com a ajuda de profissionais, faça um planejamento de como conseguir atrelar o plantio das culturas comerciais com culturas de cobertura e consórcios para sempre buscar a melhoria da qualidade química, física e biológica do solo. Todo esse cuidado também deve ser estendido aos equipamentos que são usados no campo nas operações de plantio, pulverização e colheita”, complementa.

Risco climático — Entre 172 produtores que dizem praticar o PD em oito municípios do Noroeste gaúcho, 40% afirmaram realizar a rotação da soja com o milho na safra de verão. As entrevistas, realizadas entre dezembro de 2017 e março de 2018, consideraram como rotação o cultivo do cereal em, pelo menos, 25% da área. “Podemos pensar que, dessa forma, a totalidade da área será alternada em quatro anos, mas sabemos que o ideal seria um número de respostas afirmativas próximo a 90% ou a 100%”, menciona o pesquisador responsável pela pesquisa, Cristian Rogério Foguesatto, doutorando em Agronegócios na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

A menor rentabilidade do milho em relação à soja e a maior sensibilidade do cereal a períodos de estiagem, situação climática bastante frequente no verão gaúcho, estão entre as razões para que menos da metade dos respondentes tenham declarado realizar a rotação. Por outro lado, os produtores que adotam a rotação relatam os benefícios da prática para a produtividade da lavoura. “É um consenso que nas áreas onde é feita a rotação, que a produtividade da soja é mais elevada. Em safras ‘cheias’, com clima bom, o rendimento médio é de cinco a sete sacas a mais por hectare”, aponta Foguesatto. Na opinião do pesquisador, o estímulo ao incremento do cultivo de milho deve partir de políticas públicas, como garantia de preços e redução da burocracia para projetos de irrigação.

Além da rotação, o estudo abordou outras práticas conservacionistas, como integração lavoura-pecuária, adubação verde e reflorestamento. É possível perceber, segundo Foguesatto, que produtores mais jovens, com média de idade de 40 anos, e com maiores níveis de escolaridade, são os mais preocupados com questões relacionadas à preservação ambiental.

Na propriedade do produtor Daniel Strobel, em Panambi/RS, a soja tem a companhia do milho em um quarto da área de safra de verão. Foto: Divulgação

Resultado no bolso — Em Panambi, também no Noroeste do Rio Grande do Sul, o produtor Daniel Strobel trabalha com o plantio direto desde 1989. No entanto, ele conta que o sistema passou a ser cumprido mais à risca especialmente nos últimos dez anos, com o respeito a todas as práticas. O esquema na lavoura de 1.150 hectares é manejado com um quarto da área recebendo o cultivo de milho na safra de verão. “No inverno, faço um mix com quatro espécies: capim sudão, ervilhaca, aveia preta de ciclo longo e centeio, sendo que a única cultura econômica é o centeio, plantado em um quarto da área”, detalha. “Pra mim, é rotina manter a cobertura. Quando as máquinas estão colhendo, outras já estão atrás plantando. O solo nunca fica descoberto”, continua.

Strobel enumera as muitas consequências positivas que vem observando na lavoura nos últimos anos. “Consigo produzir cada vez mais com a mesma quantidade de fertilizantes”, diz. A produtividade também deixou de oscilar tanto quanto antigamente devido aos veranicos. Nesta safra, períodos de estiagem em dezembro e em fevereiro fizeram com que a média da soja ficasse em 76,4 sacas por hectare, volume cinco sacas abaixo do que foi colhido no ciclo anterior. “Houve um recuo, mas foi inferior às dez sacas de média que observamos na região”, comenta. O milho, Na propriedade do produtor Daniel Strobel, em Panambi/ RS, a soja tem a companhia do milho em um quarto da área na safra de verão cultivado em sequeiro, também tem altas produtividades, com uma média de 166 sacas por hectare nos últimos cinco anos.

O controle de insetos deixou de ser um problema, segundo o produtor. “Vamos começar a usar a propagação de bactérias para controlar pragas, mas nos últimos anos, o inseticida é de pouquíssimo uso. Há um equilíbrio muito grande que é percebido no solo. Quando trabalhamos no plantio, conseguimos ver uma grande quantidade de minhocas na terra, o que é um ótimo sinal”, relata Strobel, que pretende avançar no uso de biológicos para em um prazo de até quatro anos não precisar mais aplicar inseticidas químicos.

A utilização de fertilizantes químicos também reduziu bastante nas últimas safras, e a cama de aviário vem sendo usada como fonte de adubo orgânico. Todo o processo, garante o produtor, redundou em queda de 20% nos custos e em aumento de 50% na produtividade. “O resultado dos últimos anos foi tão positivo que conseguimos não depender mais de recursos externos para a formação da lavoura”, frisa.

Produtor Gleyciano Vasconcellos: mudanças no ambiente produtivo incluem diversificação na segunda safra e redução no uso de defensivos químicos. Foto: Gerson Ribeiro

Busca por adequação — A mais de mil quilômetros do Rio Grande do Sul, em um ambiente produtivo bem diferente, o desafio é encontrar as adaptações necessárias para que o SPD se mantenha eficiente e economicamente viável. É justamente o que vem procurando fazer o produtor Gleyciano Vasconcellos nas lavouras arrendadas em Sidrolândia e Nova Alvorada do Sul, no Mato Grosso do Sul. Entre as lembranças da infância, ele conta que está bem presente a imagem da poeira densa que levantava da terra quando o vento indicava a chegada da chuva nos meses de agosto e setembro. “Eram tempos de plantio convencional na lavoura, quando a grade passava e levantava o poeirão”, recorda.

Ao lado do pai, Sebastião Vasconcellos, Gleyciano acompanhou diferentes fases da agricultura brasileira e, em 1993, trabalhou na transição das lavouras da família para o plantio direto. Já na safra 1999/2000, quando passou a administrar as suas áreas, experimentou o cultivo do milho no verão para adotar a rotação. “Não deu certo pelas condições climáticas e, assim, foram alguns anos sem seguir à risca o sistema. Foi por falta de opções e por não saber como fazer. Como arrendatário, sempre precisei da receita de uma cultura econômica, o que gerou a sucessão soja-milho safrinha”, alega.

Quase duas décadas depois, o produtor considera que agora está “aprendendo a plantar”, como ele mesmo diz. Há quatro anos, teve início uma nova etapa na história das suas áreas. “Comecei a multiplicação de microrganismos, busquei a bioativação do sistema com um coquetel de plantas de cobertura, busquei conhecimento e o processo todo foi como um despertar. Agora, estou alimentando o solo para que ele alimente as minhas plantas”, define.

A aproximação com a Febrapdp (Vasconcellos é vice-presidente no Mato Grosso do Sul) e a participação em cursos e eventos específicos da área ajudaram o produtor a ter uma percepção mais ampla e concreta não apenas sobre os pilares do SPD, mas também da sustentabilidade da agricultura, que está amparada pelo social, pelo ambiental e pelo econômico. “Precisamos projetar de que forma o plantio direto pode acontecer em cada região, adequando o sistema às características de cada local. No meu caso, encontrei como alternativa a diversificação na segunda safra”, observa.

Projeto em evolução — No verão, 1,5 mil hectares são cultivados com soja. Área que, a partir deste ano, foi dividida em três no segundo ciclo: 370 hectares de milho consorciado com um coquetel de plantas de cobertura, onde o milho é a cultura econômica; 130 hectares apenas com um mix de plantas de cobertura; e mil hectares de milho com brachiaria brizantha. No coquetel que divide espaço com o milho, o cardápio é vasto: crotalária-ochroleuca, trigo mourisco, nabo forrageiro, brachiaria ruziziensis e brachiaria brizantha. Para diminuir a velocidade de escoamento da água, Vasconcellos adota o plantio em nível, que, assim como o plantio em curvas de nível, é prática conservacionista que ajuda a combater a erosão.

Em regiões de clima tropical, ratifica o pesquisador Gessí Ceccon, o cultivo simultâneo de milho com braquiária, que é perene, tem sido a principal alternativa de cultivo que proporciona cobertura permanente do solo, sem perder o retorno econômico do milho safrinha. “A semeadura de braquiária solteira é uma das grandes oportunidades para o agricultor cobrir o solo com palha e colocar raízes no perfil desse solo. Já a semeadura de crotalária é interessante para desinfestar o solo e incorporar nitrogênio da atmosfera”, aconselha.

Utilizar áreas da propriedade e épocas de semeadura marginais ao cultivo de milho safrinha também é um bom caminho para a diversificação, com o cultivo de uma espécie de cobertura como crotalária, aveia e/ou braquiária. “A integração lavoura-pecuária é outra alternativa, mas ainda representa uma tecnologia para poucos devido à complexidade e à maior necessidade de aprendizado”, completa.

Para os próximos anos, o produtor Gleyciano Vasconcellos espera ampliação de produtividade e ainda uma maior redução de custos. Nas últimas safras, devido ao uso de defensivos biológicos, houve um recuo de 30% nos gastos com fungicidas e inseticidas. Já o rendimento médio da soja, que foi de 55 sacas por hectare nos últimos cinco anos, tem potencial para crescer 20%, segundo ele projeta. “Esse ano tivemos problema com o clima, e a média baixou para 45,65 sacas também pela abertura de novas áreas. Mesmo assim, consegui ter rentabilidade em função da queda nos custos”, assinala.

Entusiasmado com a nova fase estabelecida nas suas lavouras, o produtor lista, entre seus objetivos, a redução drástica no uso de defensivos químicos. “A partir do momento em que o sistema apresenta resultados, que faz sobrar dinheiro, também posso dinamizar o processo, reduzir a área com o milho e aumentar a rotação”, enfatiza.

Atenção aos terraços — No Paraná, berço do plantio direto no Brasil, além da escassez de rotação e a cobertura insuficiente devido ao aumento das áreas em sucessão soja-milho, a retirada de terraços vem favorecendo o processo de erosão e de perdas de solo. No passado, o estado era exemplo de manutenção de barreiras mecânicas contra a erosão, mas nos últimos anos, alguns fatores colaboraram para mudar o cenário. Primeiro, o produtor confiou exageradamente na capacidade do plantio direto de controlar a erosão. “O sistema é bom, mas sozinho não aguenta o controle de enxurrada, principalmente com o aumento da intensidade das chuvas que acompanha as mudanças climáticas nos últimos anos”, analisa Llanillo.

Ao mesmo tempo, mudanças no perfil da mecanização, com a oferta crescente de máquinas grandes, fez com que muitos produtores desistissem dos terraços. “Também acredito que o setor técnico muitas vezes se omitiu, especialmente o segmento privado, que abandonou a mensagem da conservação do solo, assim como as organizações públicas perderam peso na formação de opinião dos produtores”, afirma.

Pesquisador Rafael Fuentes Llanillo: melhorias no sistema podem partir de políticas de incentivo ao cultivo de cereais de inverno e de plantas que auxiliam na recuperação do solo. Foto: Arquivo Iapar

Expansão nos números e necessidade de aprimorar a qualidade

No mundo todo, a área estimada com plantio direto foi de cerca de 180 milhões de hectares no ciclo 2015/2016, representando apenas 12,5% do total da área de culturas anuais. “Quase metade disso está nos países do Cone Sul, e se somarmos os Estados Unidos e o Canadá, quase 60% da área com PD está nas Américas”, informa o pesquisador Rafael Fuentes Llanillo, do Iapar.

No Brasil, segundo dados do IBGE, a área com plantio direto na palha teve incremento de 84% entre os anos de 2006 e 2017 passando de 17,9 milhões de hectares para 32,9 milhões de hectares. Já o número de produtores foi ampliado em 10,1% no mesmo período, chegando a 557 mil estabelecimentos.

O PD também ocupa 59,5% da área total de lavouras temporárias (incluindo cana-de-açúcar e mandioca) do Brasil, segundo o Censo Agropecuário realizado pelo IBGE em 2017. Em 2006, a área com PD representava 48,8% desse total. “Houve aumento na adoção da prática, ainda que existam fronteiras para avançar, especialmente em áreas do Nordeste e do Sudeste”, examina o especialista do Iapar.

Mas a evolução qualitativa da prática é o mais importante. “A estimativa é que entre 10% e 15% dos produtores sigam o legítimo sistema plantio direto, com o cumprimento dos três princípios básicos. Isso é muito pouco, e a consequência é a perda de matéria orgânica que propicia um ciclo de maior ocorrência de doenças, pragas, nematoides e plantas daninhas resistentes. São os efeitos colaterais de uma sequência pobre de cultivo”, constata Llanillo.

Solo, o bem maior — Embora a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indique que 33% dos solos do mundo apresentam diferentes estágios de degradação, não há uma estimativa confiável e precisa sobre a deterioração dos solos brasileiros. “Mas a causa primária dos processos está relacionada, quase sempre, à má gestão do meio físico ou ao mau manejo adotado nas áreas agrícolas, sendo que a erosão hídrica é o fator preponderante”, declara o pesquisador Luís Carlos Hernani, da Embrapa Solos. O especialista cita que em torno de 27 milhões de hectares cultivados com o plantio direto apresentam pelo menos um dos seguintes problemas: monocultura ou sistema de cultivo de sucessão simples ou rotação com efeitos negativos sobre o solo; plantio em linha reta e não mais em nível; ausência de terraços que foram eliminados ou mantidos sem o devido cuidado; e cobertura vegetal insuficiente ou completamente ausente.

Caminhos para avançar — Alternativas técnicas existem para que os produtores possam estabelecer melhorias em seus processos no SPD. Uma das opções mais óbvias seria o aumento do cultivo do milho em áreas hoje ocupadas pela soja. “No entanto, a mensagem do mercado é muito contundente, com toda uma cadeia preparada para a oleaginosa no verão. Já no inverno, o ideal seria uma maior atenção a cereais como trigo, aveia e centeio, com projetos e políticas públicas de estímulo a essas culturas”, defende o pesquisador do Iapar.

O incentivo ao cultivo de plantas que auxiliam na recuperação do solo, ou os adubos verdes, também é importante, num mercado que vem crescendo com a atuação de empresas no Brasil. “Alguns produtores estão separando um terço ou um quarto das suas áreas para o plantio dessas espécies a cada três ou quatro anos justamente para a melhoria das condições do solo, num processo de bioativação”, descreve Llanillo, que sugere, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, uma forma de subsídio a quem se propõe a trabalhar com esse tipo de manejo.

A professora Marie Bartz é a favor da maior atuação dos governos e da pesquisa na área. “Linhas de financiamento para o plantio de culturas de cobertura e o incentivo à produção de sementes devem ser obrigatórias, assim como o desenvolvimento de opções de variedades de culturas para cobertura e diversificação nas regiões mais quentes do País”, indica. No entanto, ela faz a ressalva de que não adianta a pesquisa lançar novas variedades de culturas comerciais se o solo não estiver saudável. “Nesse caso, não haverá variedade ou produto milagroso que salvará a produção”, sentencia. Para o pesquisador Luís Carlos Hernani, melhorias na condução das práticas que compõem o SPD requerem uma profunda conscientização por parte de técnicos e produtores, avaliando-se o papel e a responsabilidade de cada um em relação à questão ambiental, para além do foco econômico.

O IQP, que é o indicador de qualidade aplicado pela Febrapdp, poderia servir de parâmetro para, de alguma maneira, reconhecer e premiar produtores que adotam boas práticas nas lavouras, propõe Rafael Llanillo. Para o pesquisador, é importante lembrar que, mesmo com as dificuldades do presente e os desafios que existem pela frente, o Brasil tem produtores engajados e que são os responsáveis por uma das agriculturas mais sustentáveis do mundo.