Plano nacional contra a erosão

Redação FEBRAPDP 07/06/2019
Foto: Acervo Embrapa

No mês de maio, os pesquisadores da Embrapa Solos Julia Franco Stuchi, da área de Agricultura familiar/Agroecologia, e Aluísio Andrade, participaram do I Simpósio Global sobre Erosão do Solo, em Roma. Durante o evento, eles apresentaram o Plano Nacional contra a erosão do solo no Brasil, que está sendo desenvolvido pela Embrapa Solos. O plano amplia e aprofunda a abrangência do Plano das Microbacias. Em entrevista concedida à Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP), os pesquisadores falaram sobre o programa e deram um panorama sobre o grave problema da erosão no Brasil, que em áreas agrícolas é estimada atualmente em 1,18 bilhão de toneladas de solo por ano.

FEBRAPDP – Em sua opinião, qual a razão para a árdua assimilação de que práticas insustentáveis de agricultura causam erosão e, consequentemente, perda de produtividade?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Isso depende desde o nível de conhecimento do agricultor sobre o tema, sua resistência a mudanças, a não ter equipamentos e mão de obra qualificada para evitar o problema e recuperar as áreas já degradadas, aos custos necessários para realizar a transição de sistemas degradantes para sistemas de maior sustentabilidade. Também por não relacionar que as perdas de solo e água por erosão causam enormes prejuízos dentro e fora da propriedade.

FEBRAPDP – Não entro nem na questão ambiental em si, mas é um equívoco econômico, não?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Uma vez que se não protegermos o solo da erosão estamos reduzindo cada vez mais a capacidade de produção da área. A implantação de sistemas de produção agropecuários de maior sustentabilidade, que considerem o uso de práticas de conservação de solo e água, aumentam a capacidade de produção da área, gerando mais produtividade das culturas e menor risco de perdas sob eventos de excesso e/ou falta de chuvas do que áreas em que o solo está sendo degradado pela erosão.

FEBRAPDP – Nos dias atuais, como anda o ritmo de expansão da erosão no Brasil?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Considerando a amplitude do território brasileiro com diferentes condições climáticas, tipos, usos e formas de manejo do solo, níveis de tecnologia aplicados na produção agropecuária, o que temos são estimativas baseadas nas classes de uso da terra do país e nas perdas de solo obtidas em alguns sistemas de produção. Dessa forma, a atividade que causa as maiores perdas de solo por erosão são as culturas anuais produzidas através do sistema convencional, chegando a mais de 15 toneladas/ha/ano.

FEBRAPDP – No mundo, segundo a FAO, um campo de futebol desaparece erodido a cada 5 segundos...

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Estas perdas podem ser reduzidas a menos da metade quando se adota o Sistema Plantio Direto, que inclui o preparo mínimo ou até mesmo dependendo da situação a ausência do preparo do solo (aração e gradagem), cobertura permanente do solo com resíduos de culturas e/ou plantas vivas e rotação e/ou consórcio de culturas. Acreditamos que temos grandes lacunas na estimativa das perdas de solo por erosão nas áreas ocupadas com pastagem, que ocupam as maiores áreas sob uso no país, 167,5 milhões de hectares e possuem variados níveis de degradação e erosão do solo. Assim, apesar de termos tecnologias disponíveis para aplicar no controle da erosão em diferentes níveis de degradação, ainda temos muito a fazer para que essas tecnologias e outras que surgirão na medida em que esse assunto seja realmente internalizado pelas pessoas que usam a terra para produção agrícola, implantem práticas para evitar a erosão e recuperar as áreas já degradadas. Foi lançado um Programa para o mapeamento dos solos brasileiros e suas interpretações (PronaSolos) que permitirá, entre outras informações, identificar as áreas mais vulneráveis a erosão do país, assim como as mais aptas para produção agropecuárias em uma escala mais adequada para se implantar sistemas de produção agrícola de maior sustentabilidade. Enfim, considerando a fase atual, mesmo com os avanços proporcionados no controle da erosão pelo Sistema Plantio Direto e outros sistemas conservacionistas, como os sistemas agroflorestais, continuamos a perder a cada ano toneladas de solo que poderiam ser evitadas simplesmente com mudanças e adoção de práticas simples. E se incluirmos ainda as perdas de solo por erosão causadas pelas estradas vicinais e outras obras de engenharia esse processo aumenta bastante de magnitude. Mesmo áreas onde a erosão já havia sido controlada com o Plantio Direto, tem apresentado problemas principalmente devido a retirada dos terraços, prática que infelizmente alguns agricultores estão adotando. Dessa forma necessitamos não só melhorar nossas estimativas das perdas de solo e água por erosão no país, mas também ampliar a as ações para se evitar o avanço da erosão e promover a transformação de sistemas que causam a degradação para sistemas de maior sustentabilidade, possibilitando ao agricultor maior geração de renda e a toda a sociedade maior provisão de serviços ecossistêmicos.

FEBRAPDP – É possível dimensionar a área agrícola erodida no Brasil? Qual a principal causa disso? E quais as práticas mais danosas ao solo e à água?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Atualmente, está estimada em 1,18 bilhão de toneladas/ano. Mas como mencionado, faltam estimativas melhores, principalmente nas áreas sob pastagens com diferentes níveis de degradação. As principais causas são desde a escolha de áreas, tipos de uso e práticas inadequadas, ou seja, a falta de um planejamento de uso que considere as limitações e as potencialidades do solo para a produção, a escolha das culturas e das práticas de manejo de acordo com a aptidão agrícola das terras e as características sociais, econômicas e ambientais de cada região. Além da falta de um planejamento adequado para uso agropecuário em bases sustentáveis o uso de práticas inadequadas continua causando graves problemas dentro e fora da propriedade. A erosão reduz a capacidade de produção vegetal e de armazenamento de água do solo, deixando as culturas menos desenvolvidas e menos resistentes a períodos de stress hídrico e ainda causa o assoreamento dos recursos hídricos, o que contribui para a formação de enchentes e deslizamentos em períodos de chuva, causando graves prejuízos, inclusive com perda de vidas humanas. Dentre estas práticas inadequadas podemos destacar: as queimadas, o preparo excessivo do solo, o monocultivo, a falta e/ou o excesso da aplicação de corretivos, fertilizantes e defensivos, o superpastoreio (número de animais estão acima da capacidade de suporte da área) e o excesso do tráfego de máquinas.

FEBRAPDP – O que acontece, que, mesmo se deparando com o problema e as perdas produtivas decorrentes, os hábitos não mudam a ponto de minorar o problema?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Várias questões interferem nisso. Mas a principal questão está relacionada à falta de assistência técnica adequada e de recursos/insumos disponíveis para fazer a transição de sistemas degradantes de baixa produtividade para sistemas conservacionistas com boa produção e qualidade dos produtos agropecuários. Também é necessário estimular mais o agricultor conservacionista e valorizá-lo como um agente de desenvolvimento rural sustentável.

FEBRAPDP – Onde a situação é mais grave no Brasil?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Em geral as regiões com alta intensidade de chuvas e/ou de uso da terra são as mais problemáticas. Como, por exemplo, regiões de ocupação antiga da Mata Atlântica que geraram muita riqueza com a exploração de cana e café na região sudeste do país. Ou regiões de alta vulnerabilidade ambiental como as que estão em processo de arenização no Rio Grande do Sul e/ou de desertificação na região Nordeste. Áreas com solos de textura arenosa nas regiões Centro-Oeste e Norte que, quando mal manejados, formam enormes voçorocas.

FEBRAPDP – É nesse contexto que surge a necessidade o Plano Nacional contra a erosão do solo?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade - Exatamente. Endossamos a campanha da FAO contra a erosão e acreditamos que toda e qualquer grande mudança deve ser feita de forma participativa. A proposta é fazer com que o Plano Nacional seja legítimo de um empoderamento da sociedade, para que possa promover uma mudança real no planejamento de quem lida com a terra. Serão identificadas as sinergias com outras políticas públicas já vigentes para não repetir os mesmos erros das mesmas.

FEBRAPDP - O que é exatamente?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – O Plano Nacional tem o objetivo de contribuir com informações, diretrizes, estratégias de ação e soluções tecnológicas de abrangência nacional que possibilitem reduzir o avanço da degradação das terras, conservar as áreas agrícolas com boa produção e aumentar sua produtividade em bases sustentáveis e recuperar as terras já degradadas para fins de recuperação ambiental e/ou sua reinserção a produção agropecuária sustentável. Está sendo desenhado para atender a complexidade de nossas diferentes realidades, com o planejamento das ações direcionadas a fim de contemplar a todos os biomas do país, em nível de bacias hidrográficas e microbacias. Está sendo desenhado para funcionar em uma perspectiva ampla, nacional, contando com os órgãos, políticas e atores também em esferas estaduais e municipais. Pretende-se utilizar seis diretrizes estratégicas que se interligam, sendo as duas últimas representadas por processos transversais do Plano Nacional: 1) Prevenção; 2) Conservação; 3) Recuperação; 4) Monitoramento; 5) Legislação; 6) Integração.

FEBRAPDP – Quem está envolvido?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Considerando que o plano existente, Plano de Microbacias, tem funcionado somente em alguns estados brasileiros (São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), a ideia de atualização de um Plano Nacional, surgiu do Aluísio, com sua experiência em mais de 20 anos de trabalho com o tema. Esta proposta vem ganhando força com o apoio da chefia e de outros colegas da Embrapa Solos que se uniram para a elaboração de um primeiro documento referencial para fomentar a construção inicial do Plano Nacional. A campanha referente aos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODDs) promovida pela ONU, juntamente com o evento promovido recentemente pela FAO também contribuíram para atualizar essa discussão, tendo em vista que muitas das ações previstas para o plano irão contribuir para o cumprimento de metas de muitas das ODSs.

FEBRAPDP – Como está o cronograma de implementação?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Estamos na fase inicial, foi gerado um documento referencial para se iniciar a primeira reunião com especialistas de diferentes regiões e Instituições brasileiras. Estamos programando a realização da primeira oficina no início de julho e pretendemos ter até o fim do ano uma proposta para discussão no dia 5 de dezembro, data do Dia Mundial da Conservação do Solo.

FEBRAPDP – Quais as metas a serem alcançadas?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – A ideia é que as metas do Plano Nacional sejam construídas de forma participativa, considerando as seis diretrizes estratégicas. Em linhas gerais, fazem parte dessas metas:

- Aumentar a conscientização da sociedade sobre a importância do uso dos recursos solo e água com práticas sustentáveis para garantir boa produção de água, alimentos, fibras, energia e outras matérias primas para as gerações presentes e futuras;

- Contribuir para a implantação, em larga escala, de práticas de controle da erosão e promover a redução das perdas de solo é agua por erosão no Brasil;

- Evitar a degradação das terras através de planejamento prévio antes da exploração de novas áreas;

- Substituir práticas degradantes por práticas conservacionistas;

- Melhorar a produtividade das culturas, a qualidade dos produtos agropecuários, a geração de renda para o agricultor e a provisão de outros serviços ecossistêmicos;

- Criar sistema de monitoramento da erosão e de incentivos aos agricultores conservacionistas;

- Inserir estes temas no conteúdo programático do ensino médio e fundamental;

- Estruturar parcerias público-privadas que possam contribuir para o financiamento da recuperação de áreas já degradadas, entre outras.

FEBRAPDP – E os desafios?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Os desafios são muitos e passam por diferentes níveis de governança, condição sócio econômica, estado de degradação das terras, disponibilidade de insumos, assistência técnica adequada, capacidade de empreendedorismo para realizar mudanças e se transformar em um agente de produção sustentável e não mais um agricultor que destrói a natureza. Assim, a ideia é que o Plano Nacional possibilite debater os diferentes desafios e encontrar as soluções tecnológicas através de inovação participativa para as diferentes regiões brasileiras. Para isso pretende-se atuar de forma integrada com a pesquisa, educação, fiscalização e extensão rural.

FEBRAPDP – Para os próximos anos, temos a expansão da demanda mundial por alimentos e, junto com ela, o aumento de pressões externas por modelos de produção mais sustentáveis. Sendo assim, é correto pensar que os holofotes sobre a questão da erosão nas áreas agrícolas ganhará cada vez mais força no mundo e os produtores precisarão olhar mais para isso?

Julia Franco Stuchi e Aluísio Andrade – Cada vez mais não haverá espaço para sistemas de produção que não sejam altamente eficientes do ponto de vista econômico, social e ambiental e a pressão dos consumidores por alimentos e outros produtos produzidos com o mínimo de impacto sobre o meio ambiente vai aumentar, inclusive as suas relações com a qualidade da água e seus reflexos nos custos do tratamento e na geração de energia hidroelétrica. A questão da erosão só não irá perdurar se houver o empoderamento da sociedade com relação à importância do cuidado com o solo, especialmente das pessoas diretamente relacionadas com o uso da terra. Para tal, serão necessários processos de orientação, incentivos, políticas, práticas para conter, conservar, recuperar, monitorar e cuidar do nosso solo. Por isso, acreditamos nesse Plano Nacional como uma estratégia, como fosse uma ampla e permanente campanha com o objetivo de ser internalizada por todas as pessoas relacionadas com o solo.