Viver sem coerência e conviver com os seus desequilíbrios

Redação FEBRAPDP 07/06/2019

Por Luciana Bittencourt, coordenadora de marketing da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, e Maurício Oliveira, chefe da divisão de agricultura conservacionista do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento          

A Euromonitor Internacional, empresa de pesquisa de mercado, apresentou dados sobre o consumo de bebidas não alcoólicas em 2018. Segundo o relatório, o Brasil perdeu sua posição como terceiro maior consumidor de refrigerantes para a China. O resultado acompanha o ritmo de queda no consumo de carbonatados no País.*

Em 2018, o consumo dessas bebidas sofreu uma queda de 2,6% em relação ao ano anterior. O contrário aconteceu na China, onde o consumo cresceu 2% no mesmo período. Apesar disso, o Brasil continua na frente em consumo per capita. Ao todo, os brasileiros ingerem cerca de 14 latas por mês, enquanto os chineses consomem duas. A pesquisa apontou também que a cada sete litros de refrigerantes vendidos no Brasil, apenas um de suco pronto é consumido por cada brasileiro por ano.

Apesar de vivermos uma tendência de estilo de vida mais saudável como indica, por exemplo, o aumento do consumo de produtos orgânicos (livres de agrotóxicos) e do uso de cosméticos livres de sulfatos, petrolatos e parabenos, ainda somos um dos maiores consumidores de refrigerantes no mundo. Apesar de tentarmos nos livrar da química, que permite o desenvolvimento do mundo como nós o conhecemos, ignoramos pesquisas e aceitamos sem questionar notícias alarmantes, sem dados demonstrativos científicos, sobre a contaminação da água que consumimos em nossas residências ou a contaminação de alimentos, por exemplo.

Aceitamos, de forma cada vez mais conivente, os efeitos colaterais que certas indústrias provocam no meio ambiente e ignoramos os impactos ambientais de suas atividades para, assim, podermos consumir sem peso na consciência: bebidas açucaradas, bebidas alcóolicas, carros, fumo, fraldas descartáveis, e mais uma infinidade de outros produtos indispensáveis para alguns. Afinal, investimentos na preservação do meio ambiente para o empresário, que visa prioritariamente à maximização do lucro, custam caro. Sem dúvida, esse “custo meio ambiente” seria repassado para o cliente final, o que resulta sempre em elevação dos preços dos produtos. Sem contar o custo social, se exigirmos melhores condições de trabalho no chão de fábrica, por exemplo.

Enquanto isso, a alguns quilômetros das cidades, os agricultores estão preocupados em manter um diálogo constante com a natureza, a exemplo de Johann Bartz. Para gerar superávit, o produtor rural precisa estar, cada vez mais, em harmonia com o meio ambiente, que responde em produtividade. Eles buscam desenvolver o seu trabalho com base em insumos seguros, com propósitos específicos como os defensivos agrícolas, sem que a maioria dos brasileiros desse vasto universo urbano entenda as nuances da produção agrícola e sua importância para a saúde e para a paz da sociedade e do mundo.

Os últimos anos mostraram a busca do agricultor por essa harmonia citada acima. Um dos indicadores é o aumento da produção de produtos biológicos para controle de pragas e doenças agrícolas. No Brasil, essa produção cresceu mais de 70% no último ano, movimentando R$ 464,5 milhões ante R$ 262,4 milhões em 2017. O resultado brasileiro é considerado o mais expressivo da história do setor e supera o percentual apresentado pelo mercado internacional. O controle biológico faz parte do chamado Manejo Integrado de Pragas (MIP) e permite o uso de organismos vivos ou obtidos por manipulação genética para combater pragas e doenças provocadas por lagartas comuns, mosca, nematoides (vermes microscópicos), cigarrinha das raízes, broca da cana, ácaros e fungos e outros agentes nocivos para a agricultura. É uma alternativa a adoção dos químicos**.

Sem nos darmos conta, abraçamos as fake news (traduzido para o nosso idioma: notícias falsas) como se fossem “The real news” e afundamos na era dos extremos. Deixamos nos envolver na guerra de narrativas na grande mídia e na internet, principalmente nas redes sociais. Por exemplo, qual o intuito de um veículo de comunicação em divulgar a notícia sobre a reavaliação do glifosato (um dos herbicidas mais usados no mundo) sem a fala dos principais consumidores, os agricultores? Ou ainda, dos órgãos internacionais de saúde? Na notícia, aparecem depoimentos de representantes do Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde e do Greenpeace, mas nenhum agricultor ou funcionário de fazenda, pessoas que têm contato frequente com o produto, é ouvido. Ou seja, mostram apenas um lado da moeda.

Sem perceber, a cada dia que passa, nossas escolhas de consumo são cada vez mais manipuladas por estratégias de marketing, que envolvem desde bombardeamento de propagandas e embalagens atrativas a produtos que surfam na onda da alimentação saudável, mas continuam carregados de componentes químicos maléficos ao ser humano. Afinal, não basta consumirmos Coca Zero, temos que consumir Coca Stevia, ambas com edulcorantes que, em excesso, causam efeitos colaterais como dor de cabeça, mal-estar, alterações de humor e diarreia***.

É preciso ressaltar que o agricultor brasileiro é ambientalmente um dos mais corretos do planeta. Que é parte do seu cotidiano utilizar técnicas e sistemas produtivos cada vez mais seguros, a exemplo dos sistemas integrados de produção e o Sistema Plantio Direto, que protege o solo contra a erosão e contribui para a melhoria da biota do solo.

Esse panorama caótico da comunicação nos dias atuais é ampliado pela construção do discurso por meio de elementos da linguagem. Os estudos sobre linguagem e a forma como nos relacionamos com os conteúdos, principalmente na internet, estão cada vez mais precisos e sofisticados como as ferramentas de business inteligence. Assim sendo, as empresas e agentes políticos também estão cada vez mais eficientes em divulgar o seu discurso e alcançar os seus objetivos, quaisquer que sejam eles.

Nas cidades brasileiras, enfrentamos problemas graves como o alto índice de desemprego, poluição, falta de saneamento básico (em mais da metade dos municípios), excesso de plástico e outros resíduos sólidos, grandes congestionamentos, entre outros. Ainda assim, conseguimos sair desse caos diário para direcionar críticas sem fundamentação técnica ou científica àquilo que as pessoas estão fazendo no meio rural. Por fim, quem diria que os maiores consumidores de refrigerante no mundo, também são os maiores críticos da agricultura brasileira que produz alimentos de qualidade e, mais importante ainda, preservam o meio ambiente.

*https://www.meioemensagem.com.br/home/ultimas-noticias/2019/02/28/consumo-de-refrigerantes-no-brasil-cai-e-china-assume-3-lugar.html

** http://www.agricultura.gov.br/noticias/feffmercado-de-biodefensivos-cresce-em-mais-de-50-no-brasil

***https://www.inca.gov.br/alimentacao/adocantes-artificiais