Como evitar a compactação em integração lavoura-pecuária

Revista A Granja 13/05/2019

Por Alvadi Antonio Balbinot Junior, da Embrapa Soja

No Brasil, em geral, a produção de grãos vem sendo realizada em  sistemas  de  produção pouco diversificados, como, por exemplo, as sucessões soja/milho segunda safra, soja/milheto e soja/trigo. Os sistemas integrados de produção, especialmente a integração lavoura-pecuária (ILP), se constituem na principal estratégia para aumentar a diversificação, focando na redução de impactos ambientais e no aumento da produtividade, estabilidade e rentabilidade – intensificação sustentável. Para tanto, o sistema deve ser conduzido seguindo as indicações técnicas, a fim de obter a sinergia entre as culturas de grãos e as pastagens que compõem o sistema de produção. Uma das preocupações de produtores que utilizam a ILP é a compactação superficial do solo manejado em sistema plantio direto (SPD), em razão do pisoteio imposto pelos animais em pastejo direto. A compactação altera a estrutura do solo, aumenta a resistência mecânica ao crescimento de raízes e reduz a porosidade total, a macroporosidade, a disponibilidade de água e de nutrientes, a infiltração de água e a difusão de gases no perfil do solo, podendo reduzir significativamente a produtividade das culturas.

Inicialmente, é importante esclarecer alguns pontos em relação à compactação que pode ser gerada pelo pisoteio de bovinos:

  • O aumento da resistência à penetração (compactação) devido ao pisoteio geralmente ocorre de 0 a 10 cm de profundidade. Esse padrão pode ser verificado na Figura 1. Como os bovinos apresentam patas com aproximadamente 10 cm de diâmetro e 60 a 100 cm2 de área superficial, não é esperado observar compactação por pisoteio abaixo de 10 cm de profundidade, exceto quando o solo se encontra muito solto ou com umidade muito alta. Nessa condição, o solo apresenta baixa resistência e as forças aplicadas na superfície penetram em profundidades um pouco superiores a 10 cm.
  • A compactação superficial devido ao pisoteio pode ser revertida naturalmente, principalmente em razão de ciclos de secagem e umedecimento. Além disso, o crescimento de raízes das culturas e pastagens é maior na camada superficial, auxiliando na descompactação biológica do solo. Esse comportamento pode ser visualizado nos resultados de pesquisa apresentados na Figura 2, em que, no final do ciclo da pastagem a resistência à penetração na camada superficial foi maior nos tratamentos com pastejo, mas, ao final do ciclo da soja semeada em sucessão essa diferença não foi mais observada.

Formas para reduzir a compactação superficial

A principal forma para reduzir o efeito do pisoteio sobre a compactação do solo em ILP é o adequado manejo da pastagem (adequada oferta de forragem), pois essa prática afeta vários fatores ligados à compactação do solo (Figura 3). Na prática, o produtor rural deve regular a lotação animal para manter a pastagem na faixa indicada de altura de plantas, evitando tanto o subpastejo (sobra/desperdício de forragem) quanto o superpastejo (pastagem rapada). Cada espécie forrageira tem uma indicação de altura adequada de pastejo, a qual varia em função das características morfofisiológicas de cada espécie. Um problema bastante comum em áreas de ILP é o superpastejo, principalmente em épocas com condições climáticas desfavoráveis, que reduzem a produção forrageira.

Numa situação de adequada oferta de forragem, os animais precisam se deslocar menos para consumir a quantidade de forragem necessária à sua mantença e produção, reduzindo a frequência de carga sobre o solo e, consequentemente, a compactação e diminuindo a quantidade de energia gasta pelos animais em deslocamento. Uma pastagem manejada corretamente permite que parte da pressão exercida pelo pisoteio seja dissipada pela parte aérea das plantas, que funciona como uma espécie de amortecedor, minimizando a compactação. Além disso, pastagens bem manejadas permitem aumento da macrofauna do solo, como corós e minhocas, agentes importantes para manter a qualidade do solo.

No entanto, a consequência mais relevante do adequando manejo da pastagem sobre a redução da compactação diz respeito ao maior crescimento das raízes das pastagens quando mantidas em alturas indicadas de plantas. Isso ocorre porque o pastejo moderado estimula  o crescimento radicular em relação à ausência de pastejo ou superpastejo. O processo de crescimento e senescência de raízes – que é natural na pastagem – promove descompactação biológica relevante, melhorando a qualidade do solo como um todo.

Quando a pastagem é manejada seguindo a altura indicada de plantas há crescimento vigoroso de raízes, com formação de agregados grumosos com tamanhos que variam de 1 a 4 cm, com baixa coesão e alta atividade biológica, o que indica uma boa estrutura e ausência de compactação limitante ao crescimento das culturas semeadas em sucessão. Por outro lado, quando há superpastejo – excesso de lotação – há pouco crescimento de raízes, com predomínio de agregados maiores que 7 cm e poucos indícios de atividade biológica, indicando compactação excessiva.

Adicionalmente, outras práticas também são relevantes para minimizar a compactação decorrente do pisoteio em sistema ILP, quais sejam:

  • Implantação das pastagens, anuais ou perenes, com uso de semeadoras ou via sobressemeadura nas culturas de grãos, sem uso de grades. Isso é importante porque o solo mobilizado por grades possui menor resistência às pressões mecânicas exercidas, aumentando a compactação. Salienta-se que um dos fundamentos do SPD é a mínima mobilização do solo.
  • Uso de fertilização nas pastagens. Pastagens fertilizadas possuem maior capacidade de crescimento de raízes e parte aérea, aumentando a descompactação biológica pelo crescimento radicular e dissipando parte da energia do pisoteio na parte aérea das plantas. Esse é um dos principais pontos a serem melhorados em sistema ILP no Brasil, uma vez que a maioria das pastagens é conduzida sem fertilização de manutenção, o que limita a produtividade e a qualidade da forragem, além de reduzir a persistência.
  • Na implantação das culturas de grãos, usar semeadoras equipadas com hastes em detrimento de discos. Essa prática é importante para romper a camada superficial do solo (0 a 10 cm) que pode apresentar alta densidade em decorrência do pisoteio.
  • Uso de consórcios de espécies forrageiras complementares, com alto potencial de produção de raízes e parte aérea. Essa estratégia é relevante para aumentar a produção de forragem durante a fase de pastagem e, ao mesmo tempo, incrementar a produção de raízes e a descompactação biológica do solo. Na região subtropical do Brasil, um exemplo de consórcio entre espécies forrageiras é aveia-preta + azevém, muito usado no outono/inverno, antecedendo as culturas de grãos de verão. Na região tropical, um exemplo é o consórcio de espécies de braquiária com variedades de Panicum maximum.

A associação das práticas apresentadas promove a manutenção ou melhoria das condições físicas do solo manejado em SPD e ILP, que permitem a obtenção de altas produtividades, com adequada conservação do solo e da água.

 

Artigo originalmente publicado na Revista A Granja maio/2019