Uma revolução possível

Redação FEBRAPDP 18/04/2019

Um sistema de agricultura limpa. É assim que a equipe da Epagri envolvida com o programa de desenvolvimento e difusão do Sistema Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) se refere ao modelo sustentável que emprega, nos cultivos de hortaliças, os conceitos do SPD para grãos como conhecemos. O SPDH não chega a ser exatamente uma novidade em Santa Catarina, mas o modo consistente como vem sendo construído desde o final da década de 1990, produz resultados cada vez mais sólidos e integrais. O sistema vem modificando — para melhor — a realidade e a consciência dos produtores familiares envolvidos e trazendo benefícios diretos para a sociedade ao seu redor.

À frente deste trabalho está o engenheiro agrônomo e responsável pelo projeto de Hortaliças e Fruticultura na Gerência Regional da Epagri em Florianópolis, Marcelo Zanella.  Em entrevista concedida à Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação – FEBRAPDP, ele falou sobre o trabalho que vem sendo conduzido em terras catarineses, as conquistas e desafios que o SPDH tem pela frente.

Foto: Marcelo Zanella

FEBRAPDP - No que o Sistema Plantio Direto específico para as hortaliças se difere do SPD para grãos?

Marcelo Zanella - Dentro do SPDH tem dois eixos que nos dão uma condição de trabalhar o sistema: o eixo técnico-científico e o eixo político-pedagógico. No primeiro, a gente trabalha, o que é o nosso objetivo central, a promoção de saúde e conforto da planta, dando a ela uma condição nutricional diferenciada por toda as fases de crescimento e produção. Não adubamos por adubar, como a maioria dos produtores trabalha, pois isso gera uma condição de salinidade no solo; com relação à questão da disponibilidade de água permanente, trabalhamos irrigação/fertirrigação; para a redução da temperatura usamos plantas de cobertura, plantas espontâneas; para a questão da luminosidade na planta, que é extremamente importante, reconstruímos arranjos de condução. Outro ponto crucial relacionado diz respeito à nutrição, trabalhamos com taxas diárias de absorção das hortaliças e isso nos dá condição de saber como a planta se alimenta desde a muda até o final da colheita. A partir disso, construímos uma tabela com praticamente todas as hortaliças. Essa tabela, porém, nos serve apenas como uma referência, que nos norteia, não é usada como uma única informação para fazer a nutrição das plantas. O que determina o uso ou o não uso e a quantidade a ser usada de adubo são os sinais que as plantas demonstram. Conseguimos fazer uma boa leitura para saber quando as plantas estão saudáveis e quando têm deficiência ou excesso, levando também em conta as condições climáticas e como a planta se comporta numa semana de chuva ou numa semana de sol. Enfim, buscamos ajustes para todas essas situações no sentido de dar as melhores condições de crescimento mesmo com todas as adversidades climáticas.

Foto: Divulgação Epagri

FEBRAPDP - E com relação à rotação de culturas e ao revolvimento do solo?

Marcelo Zanella - A questão da rotação de cultura é fundamental dentro do SPDH. Trabalhamos sempre intercalando uma planta de cobertura com uma hortaliça e, de preferência, nunca repetindo plantas da mesma espécie. Usamos muita cobertura verde com adubos verdes espontâneos, que no tradicional são chamadas de plantas daninhas. Nós consideramos plantas espontâneas que tem uma alta capacidade de cobertura, proteção e recuperação de solo e que a gente negligenciou até hoje. A adição é superior a 10 toneladas de palhada por ano, podendo chegar tranquilamente a 15 toneladas. O revolvimento do solo é evitado ao máximo também, ficando restrito apenas à linha de plantio. A questão dos equipamentos disponíveis ainda é um desafio para o SPDH, ainda temos que melhorar muito neste ponto. Para o manejo dos adubos verdes, não usamos nenhum tipo de herbicida nas usamos equipamentos mecânicos rolo faca e outros equipamentos adaptados para os agricultores e que dão uma condição de resistência da palhada por um período muito maior sobre o solo. O SPDH abrange a cultura de forma integral e abrange também a propriedade pensando nela e planejamento durante o ano todo durante vários anos. A ideia é que a propriedade entre em uma condição de alta produtividade e baixo custo e redução de uso de produtos químicos. A diminuição dos adubos solúveis e dos agrotóxicos é uma consequência de todo esse processo de promoção de conforto de planta. A questão do custo de produção é fundamental dentro do SPDH. Nesse sentido, já temos conseguido atingir até 60% de redução no custo de produção em algumas situações.

FEBRAPDP - Sobre ao eixo político-pedagógico?

Marcelo Zanella - Trata-se da prática de tentar desenvolver no agricultor uma decisão de ele ter consciência em praticar o SPD em hortaliças. Porém, essa prática e esse dia a dia dele envolvem toda uma questão de organização, uma nova visão da parceria entre agricultores. A gente vem tentando trabalhar com eles a percepção do parceiro de trabalho, do vizinho ou dos componentes da comunidade como parceiros e não como competidores. É a questão da construção coletiva da transição. O que a gente defende muito é que não existe um único sabedor. O saber vem de uma construção coletiva entre o agricultor, entre os jovens rurais, entre as universidades, as empresas de extensão e de pesquisa. Defendemos essa questão de que a transição tem que ser conjunta e não pode ser única, e que não venha nem de um lado e nem do outro esse é o nosso eixo político-pedagógico. Tem pessoas que não gostam muito do trabalho que a gente faz e usam esse processo como se fosse político-partidário, mas a gente não trabalha nessa linha. O que há de político é o posicionamento com relação à produção de alimentos limpos, de qualidade, valorizando tanto o produtor quanto o consumidor.

FEBRAPDP - O SPDH não chega a ser uma novidade, mas ultimamente vem ganhando força em várias regiões do país. A que se deve essa crescente busca pela técnica? Quais as percepções (agronômicas e/ou econômicas) e interesses que têm movido os produtores nessa direção?

Marcelo Zanella - Está em Santa Catarina desde 1998. Vários motivos têm atraído um número cada vez maior de produtores interessados no sistema. Entre eles, destaco a diminuição de custos de produção, que é rápido e visível já no primeiro ano; o conforto que é para o produtor trabalhar numa condição de palhada e com fertirrigação, o que facilita bastante o trabalho; a redução do uso de produtos químicos que também já é visível a partir do primeiro ano; a maior exigência por parte da sociedade de alimentos limpos. Trabalhamos hoje com alimentação escolar e os produtos do sistema já são percebidos como diferenciados pelas grandes redes de supermercado, que estão excluindo os produtores do plantio convencional. Outro ponto importante é que as lavouras do SPDH têm uma alta capacidade de resistência às intempéries climáticas, uma vez que as condições de saúde e conforto dadas à planta elevam sua capacidade de resistir a variações de excesso ou de falta de umidade, ou de alta e de baixa de temperatura.

Foto: Divulgação Epagri

FEBRAPDP - Quando e onde começaram os cultivos mais antigos dentro do SPDH em SC e que culturas abrangem atualmente?

Os cultivos tiveram início na região de Caçador com a cultura do tomate, nas estações de pesquisa da Epagri, e evoluíram através das pesquisas das equipes de extensão a campo nas propriedades. Anos depois, se estendeu para a região do Vale do Itajaí, principalmente no município de Ituporanga com a cebola, por volta dos anos de 2004 e 2005. Em 2010, o SPDH veio para região da Grande Florianópolis, onde está a principal região produtora de hortaliças de Santa Catarina. E, de 2010 a 2018, passou a ser empregado em todos os tipos de hortaliças. Talvez as únicas culturas que não contam ainda com o sistema são cenoura, beterraba e batatinha inglesa.

FEBRAPDP - Qual a realidade atual no que diz respeito à sua sustentabilidade ambiental, técnica e econômica dos produtores?

Marcelo Zanella - A questão econômica e sustentável é completamente diferenciada do sistema convencional. Vemos que a condição de infiltração de água melhora muito, assim como a qualidade do solo. As condições de vida das famílias que trabalham no campo também são beneficiadas com a redução do trabalho. Há melhoria da qualidade dos alimentos produzidos para o mercado. Há redução nas perdas de hortaliças. Trabalhamos a questão de que se colha praticamente 100% do que se plante, enquanto no convencional as perdas, em geral, são significativas. E vale destacar que colher e comercializar praticamente tudo o que se plantou dá uma condição de diminuição de custos e melhora a competitividade do produtor. Na ponta do lápis, isso viabiliza uma questão econômica bacana para o produtor, sem falar no aumento da produtividade.

FEBRAPDP - Há dados sobre o tamanho da área já ocupada hoje com o SPDH?

Em Santa Catarina, temos aproximadamente 3.500 hectares acompanhados pela Epagri em SPDH. Se tivéssemos mais profissionais no campo para levar essa tecnologia, teríamos tranquilamente 8 mil ou 10 mil hectares no sistema. O número de profissionais em condições para levar essa informação ao campo é a nossa principal limitação hoje em dia. Acredito que essa demanda não deverá ser suprida tão cedo pelo setor público, já que nós estamos numa fase redução dos números de servidores públicos ao invés de aumento. Em Santa Catarina, de 85 a 90% das propriedades são agricultura familiar e o SPDH foi desenhado para esse tipo de agricultura, que é facilitado pelo fato de as propriedades serem interligadas pelos corredores ecológicos, áreas de preservação permanente e rios, o que traz um ambiente diferenciado para o processo produtivo. Quando você aumenta a biodiversidade, cria condições de microclima e todo esse processo facilita o desenvolvimento do sistema. Já para as grandes propriedades, eu acredito que funcionaria com certeza, mas a questão da transição de um modelo para o outro seja mais difícil, uma vez que o uso de produtos químicos em maior escala compromete a biodiversidade no sistema simplificado.

FEBRAPDP - Nos comparativos de performance produtiva com os sistemas convencionais, o que se vê?

Marcelo Zanella - No SPDH a gente cria condições para que as plantas expressem o seu máximo potencial genético, reduzindo o estresse. A média de produtividade que a gente tem nas culturas trabalha são todas superiores ao convencional. É óbvio que precisa de muito mais conhecimento e experiência da parte de extensão e pesquisa e do próprio agricultor, mas o que a gente vem percebendo é que o produtor se apropria rápido do conhecimento e muitas vezes ele avança dentro do processo e até nos surpreende com tecnologias que ele mesmo constrói e cria no campo. Posso dar como exemplo alguns produtores que trabalham com berinjela e estão tirando em torno de 1800 a 2200 caixas de berinjela em 1200 pés. São propriedades pequenas, mas que têm uma alta rentabilidade. Nessas propriedades conseguimos trabalhar com a planta de berinjela nove meses, enquanto, no convencional, dificilmente, a colheita é feita depois dos seis meses. São 30% a mais de tempo de colheita e com uma produtividade muito maior, tendo praticamente o mesmo custo. Isso traz uma condição competitiva para agricultura familiar bem superior a uma condição de propriedades maiores.

Foto: Divulgação Epagri

FEBRAPDP - Quais as principais culturas trabalhadas no sistema?

Marcelo Zanella - As maiores áreas que nós temos hoje são de brássicas (couve-flor, repolho, brócolis, couve, rúcula, entre outras), que ocupam cerca de 800 hectares; temos também maracujá em aproximadamente 600 hectares, chuchu 250 hectares, depois vem cebola e tomate. Todas essas culturas já estão consolidadas. Acho que vale destacar que, dentro do SPDH procuramos respeitar a questão da velocidade do entendimento do produtor. Eles têm as limitações deles e precisam de um processo de compreensão de como funciona o sistema. A questão da redução do uso de químicos, por exemplo, se for feita seguindo os princípios de forma correta e precisa, é apenas uma consequência natural e o produtor percebe isso ao longo da transição. Nós temos os produtores, por exemplo de chuchu na iniciamos o processo da SPDH com eles em 2010 com uma média de aplicação por safra de em torno de 40 aplicações de inseticida e nós chegamos em 2018 com essas mesmas lavouras com aplicação de uma ou nenhuma ou duas anualmente. Então é só nisso teve uma redução de 95% no uso de aplicação e não foi por imposição ou por prejudicar a lavoura. A gente tem todo um processo de identificação de sinais de identificação de, por exemplo, de possíveis insetos ou pragas que estão atacando a lavoura, a gente estuda o processo, estuda o que está causando isso, qual é o comportamento do inseto para atacar a lavoura e a gente vai fazendo adaptações ao meio do processo para que ele consiga tirar esses produtos químicos sem perder produtividade. O SPDH não proíbe de forma alguma que produtor use produto químico, mas o que a gente exige que ele use as quantidades corretas indicadas para a cultura. Então esse processo de retirada dos produtos químicos é pelo próprio produtor pelo conhecimento que ele vai adquirindo, pela condição da propriedade que vai criando e isso torna a lavoura menos suscetível aos problemas tanto ambientais como de competição com plantas espontâneas de ataque de pragas e doenças. A condição vai sendo construída com o tempo. Temos produtores que em três anos atingem um nível altíssimo e produtores que levam até dez anos. Depende muito da vontade da capacidade do produtor de entender o processo.

FEBRAPDP - Qual o perfil dos produtores que a adotam a técnica?

Marcelo Zanella - Hoje trabalhamos com produtores de todos os tamanhos e, principalmente produtores jovens. A Epagri tem um projeto estadual que forma aproximadamente de 400 a 500 jovens por ano dentro das estações de pesquisa e treinamento. A ideia é que todos esses jovens novos que estão vindo para os cursos e que tenham atividade de hortaliças e de fruticultura na propriedade, já sejam capacitados em SPDH e à medida que eles voltam para as propriedades, recebem um acompanhamento de cinco anos para que o projeto de vida deles dentro do sistema produtivo da família seja viabilizado. Todo esse conhecimento é sempre baseado em cima do SPDH.  Aqui na Grande Florianópolis estamos trabalhando até com hortaliças em gado leiteiro. E as melhores lavouras de tomate são as lavouras conduzidas dentro de piquetes de pastoreio rotacionado Voisin. Cria-se uma condição biológica fantástica e que traz altíssima produtividade para tomate. Exemplos como esse, têm permitido uma nova condição de produção e um novo arranjo produtivo para as propriedades aqui de Santa Catarina.

No que diz respeito à transferência, como 99% dos nossos produtores são convencionais, toda a tecnologia que a gente desenvolveu do SPDH foi para fazer a transição dos convencionais, que tem toda uma condição de entendimento de agricultura solteira com o uso intensivo de produtos químicos e adubos solúveis. É uma forma diferenciada de pensar a propriedade agricultura e isso leva tempo. Atualmente, trabalhamos com propriedades com dois hectares até 40 hectares de hortaliça. Não existe uma limitação da questão de tamanho. A maior barreira é a limitação da questão do entendimento do processo.

FEBRAPDP - Como tem sido trabalhada a questão do pousio?

Marcelo Zanella - Alguns produtores se adaptam melhor com alguns adubos verdes e outros com outros adubos verdes e temos, inclusive, produtores que incorporaram a questão do pousio, realizando o cultivo durante três ou quatro meses com uma hortaliça e o resto do ano na área fica em pousio com plantas espontâneas e, após oito meses, eles voltam para eles realizar o cultivo. Muitos pesquisadores dizem que isso não é rotação de cultura, mas a gente está percebendo que é uma condição espetacular de construção de solo porque nesse período de oito meses você consegue fazer dois ciclos de plantas espontâneas, com sistemas radiculares dos mais diversos possíveis, com ciclagem de nutriente durante todo o período e com atividade biológica fantástica, então a gente precisa estudar e trabalhar melhor essa questão do comportamento e do uso dessas plantas espontâneas para usar em favor agricultura e não contra, como a gente trabalhou até hoje.

Foto: Divulgação Epagri