Benefícios comprovados do tráfego controlado

Artigo publicado originalmente na Revista “A Granja” em abril/2019 12/04/2019

Por Tiago De Gregori Teixeira, doutorando no PPGCS da UFSM; Dr. Telmo Jorge Carneiro Amado, professor do Departamento de Solos da UFSM; Marcos Francisco Souilljee, produtor; e Paulo César Pires, prestador de serviços em AP

O dia 5 de dezembro é celebrado como o Dia Mundial do Solo, seguindo proposta da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No ano passado, o tema foi “Seja a solução para a poluição do solo”. De fato, para garantir o abastecimento das novas gerações, deve-se adotar um manejo que contemple ações que visam melhorar a qualidade, ao mesmo tempo em que provam a conservação dos nossos solos. Assim, é necessário ressaltar a importância das práticas agrícolas sustentáveis, como o sistema plantio direto (SPD). Esse sistema, quando manejado de acordo com os três princípios da agricultura conservacionista (mínimo revolvimento, permanente cobertura e rotação de culturas) proporciona diversos benefícios ao solo, como a proteção ao impacto das gotas da chuva, ciclagem de nutrientes, incremento da atividade biológica e recuperação do teor de matéria orgânica, entre outros benefícios.

No entanto, quando o SPD é conduzido sem respeitar os princípios da agricultura conservacionista, muitos dos benefícios não se manifestam. E por que ocorre a compactação dos solos? Por diversos fatores, como: falta de culturas com diferentes sistemas radiculares; pouca ou nenhuma palhada sobre o solo, que tem efeito de amortecimento do peso do maquinário; tráfego frequente, com máquinas cada vez maiores e mais pesadas; pressão elevada dos pneus; e alta umidade do solo. E quais os problemas que a compactação causa? Reduz a infiltração de água no solo, fazendo que aumente o escoamento superficial e, assim, facilitando o processo de erosão do solo. Além da água não ser absorvida e armazenada no solo, as plantas terão o sistema radicular restrito à camada superficial, prejudicando a busca e a absorção de nutrientes móveis, sendo seu impacto no desenvolvimento das plantas nos períodos de déficit hídrico. Com isso, as plantas não irão expressar o potencial produtivo, e o risco de contaminação e assoreamento dos rios e lagos é aumentado. As perdas de solo no Brasil representam um prejuízo anual estimado em R$ 8 bilhões (Minella, 2015), devido, principalmente, à falta de conscientização do manejo que previna a degradação do solo.

As lavouras comerciais modernas demandam cada vez mais atividades mecanizadas, estimando-se que, em apenas uma safra, 55,7% da superfície do solo receba contato dos pneus (Kroulík et al., 2009), sendo a primeira passada que causa a maior influência sobre as propriedades do solo. Esse tipo de tráfego tradicional (TT) que realiza deslocamentos aleatórios se tornou mais prejudicial devido ao aumento do peso do maquinário nas últimas décadas em função do incremento das áreas e da escassez de mão de obra (Sivarajan et al., 2018).

Através do sistema de posicionamento de satélites, receptores, monitor de bordo e sistema de piloto automático, é possível disciplinar o tráfego e confinar a compactação a áreas restritas, configurando o tráfego controlado (TC). Assim, os deslocamentos safra após safra serão repetidos nos mesmos locais. Dessa forma, as condições físicas da maior parte da área são preservadas.

Princípios do Tráfego Controlado (TC)

  • Todo maquinário deve ter a mesma largura de trabalho ou ser modular, e deve ter largura de bitola que permite o estabelecimento de faixas de tráfego permanentes;
  • Todo o maquinário é capaz de fornecer orientação de deslocamento precisa ao longo das faixas de tráfego permanente pelo uso de rede e receptores GNSS (Global Navigation Satellite System, ou Sistema de navegação por satélite) de alta precisão (RTX1 ou RTK2) (ACTFA, 2018). O RTX significa RealTime Extended, que são tecnologias utilizadas para melhorar e corrigir a precisão dos dados de GNSS. E o RTX1 utiliza uma rede de estações fixas de processamento para correção de dados, após retornam a satélites estacionários para enviarem o sinal corrigido aos receptores móveis; já o RTK2 utiliza uma base física fixa para correção do sinal, as correções são enviadas via sinal de rádio para os receptores móveis.

O TC é adotado em áreas na Austrália, na Inglaterra e no Canadá, onde existem associações e consultorias específicas para suportar essa tecnologia, como ACTFA, CTF Europe, CTF Alberta. No Brasil, o TC caminha a passos lentos, restrito a culturas como a cana-de-açúcar, e poucos produtores avaliaram a tecnologia em área de produção de grãos. Devido, principalmente, aos custos para implementação, à carência de conheci mento da tecnologia e à insegurança quanto ao retorno do investimento.

A experiência do Noroeste

No município de Carazinho/RS foi realizado um estudo com TC por três anos, na propriedade da família Souilljee. O solo da área é um Latossolo, e a precipitação média é de 1.856 mm anuais (Embrapa, 2012). Visando implantar o sistema TC, houve necessidade de adaptação do maquinário (Figura 1).

Para orientação do maquinário, foi utilizado o sistema de piloto automático Trimble EZ-Pilot para trator e colhedora. A correção do sinal GNSS foi realizada pelo sistema CenterPoint RTX Trimble, que utiliza sinal pago de satélites estacionários que enviam dados para o monitor realizar a correção da localização. Na Figura 2 quadrante A, a visão geral da área de 89 hectares onde foi desenvolvido o trabalho. Os monitores utilizados para condução do maquinário com piloto automático no projeto de linhas de tráfego foram os seguintes: CFX 750 para o uso na semeadura, pulverização e colheita (Figura 2 quadrante B); FMX 1000 para o uso de fertilizantes taxa variável (Figura 2 quadrante C), ambos os monitores da marca Trimble.

Resultados

Pelos ajustes das máquinas e dos implementos, foi possível restringir a área trafegada para 14,5% da área total. Tullberg (2010), um dos principais pesquisadores de TC da Austrália, considera que projetos bem sucedidos deveriam ter até 15% de área com tráfego. Assim, no projeto implantado no Noroeste do Rio Grande do Sul, a área sem tráfego representa 85,5%. As culturas de cobertura somadas à ausência do tráfego de máquinas mostraram boa recuperação das condições físicas do solo, transcorridos 28 meses da adoção do TC. A infiltração de água no solo apresentou, nos locais livres de tráfego, um expressivo aumento em relação aos demais. Assim, nos locais livres de tráfego, a infiltração acumulada após 90 minutos foi 21,7 vezes superior aos locais com presença de tráfego confinado. Já quando comparados os sistemas TC e TT, ambos em locais sem tráfego, a infiltração no primeiro foi 3,3 vezes superior ao TT (Figura 3).

A produtividade da soja avaliada por três safras, entre 2015/16 a 2017/18, foi positivamente influenciada pela adoção do TC. Dessa forma, a produtividade média do TC foi 10%, ou aproximadamente sete sacas de soja a mais por ano, em relação ao TT. Na Figura 4, é apresentada a produtividade média de três safras para cada tipo de tráfego. O TC proporcionou maior infiltração de água no solo do que o tráfego aleatório, porém a maior diferença foi observada entre a área sem tráfego e as zonas de trânsito intenso. O tráfego controlado pode ser uma das opções para controle da enxurrada em sistema plantio direto, especialmente quando associado a um programa de culturas de cobertura do solo durante a entressafra da soja.