Sistema Gravataí beneficia a química, a física e a biologia do solo

Redação FEBRAPDP 04/04/2019

Consórcio integra braquiárias com feijão-caupi - Foto: Gabriel Faria/Embrapa

Solos de textura média argilosa são, normalmente, uma lacuna quando se pensa em alternativas de consórcio entre gramíneas e leguminosas em ambiente de Cerrado. A proposta do Sistema Gravataí, lançado pela Embrapa Agrissilvipastoril em parceria com a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) ano passado, vem apresentando resultados promissores para essas regiões. Trata-se de um consórcio de braquiárias com feijão-caupi pensado para auxiliar na Integração Lavoura-Pecuária (ILP) na modalidade boi safrinha, no qual, logo após a soja, entra o pasto para a produção de corte, cria ou leite. O modelo, no entanto, serve também para os produtores que dispensam a pecuária e estão interessados em melhorar a qualidade de seu Plantio Direto.

De acordo com Flávio Wruck, pesquisador da unidade da Embrapa em Sinop, MT, é possível classificar o Sistema Gravataí como uma ferramenta tanto da ILP quanto do Sistema Plantio Direto (SPD). “Para quem não quer fazer a ILP, pois necessita apenas fazer uma palhada de qualidade, o Gravataí tem se mostrado uma boa alternativa. Após a soja, o produtor entra com o consórcio da braquiária ruziziensis ou braquiária brizantha (cultivares Piatã e Paiaguás) com o feijão-caupi. Ele ganha tanto em quantidade como em qualidade”, observa.

Os números de Wruck atestam os resultados positivos acerca da qualidade do solo. No aspecto químico, as áreas com o consórcio registraram um incremento de quase 100% no carbono orgânico e no nitrogênio total do solo quando comparado a outros consórcios com a braquiária solteira. “Sob o ponto de vista físico, houve uma melhoria acentuada da redução na resistência à penetração. Já no que diz respeito à parte microbiológica, eu diria tratar-se de nosso melhor desempenho. Praticamente, triplicamos a quantidade de microrganismos no solo quando comparamos o novo sistema a consórcios com a braquiária solteira. Além disso, conseguimos resultados muito interessantes na qualidade das condições para essa microbiota. Os resultados mostraram que com o consórcio Gravataí o estresse do meio para microbiota do solo reduziu acentuadamente, o que pode ter favorecido (os próximos anos confirmarão), por exemplo, a fixação biológica de nitrogênio na soja do ano seguinte”, afirma o pesquisador, que também ressalta que a qualidade do solo para microbiota é refletida pelo coeficiente metabólico.

Resultados

Lançado oficialmente no final do primeiro semestre de 2018, o sistema está tendo na safrinha de 2019 seu primeiro ano de avaliação em escala comercial. Segundo Wruck, nos anos anteriores, as avaliações foram realizadas em uma área superior a 1000 hectares com a participação de produtores que acompanharam os trabalhos, mas só agora está disponível para a maioria dos produtores. Ele lembra ainda que mesmo tendo sido pensado para o Cerrado, nada impede que o sistema seja utilizado também em outros ambientes.

Para adotar o Gravataí, o produtor precisa saber se o feijão-caupi se desenvolve bem em sua região, assim com as braquiárias. Testamos a braquiária ruziziensis, braquiária brizantha (cultivares BRS Piatã e BRS Paiaguás), ainda testamos as BRS Massai e BRS Tamani, ambas cultivares de Panicum maximum. Em todos os testes, o sistema funcionou muito bem, com destaque para as braquiárias ruziziensis, Paiaguás e Piatã. Flávio Wruck faz questão de destacar que a implementação do Sistema Gravataí deve ser feita sem revolvimento do solo, obedecendo aos princípios do SPD.

“Além das alterações positivas nos atributos físicos, químicos e microbiológicos dos solos, observamos resultados diretos na produção da pecuária e também na produção da soja. No desempenho animal, por exemplo, tivemos ganhos de até 100g por cabeça ao dia nos animais submetidos ao Sistema Gravataí quando comparados a animais mantidos em sistemas somente com braquiárias. O que significa uma diferença de uma a duas arrobas no período de 90 dias”, contabiliza o pesquisador.

Ele prossegue: “já para a soja cultivada sobre a palhada dos consórcios do sistema, no acumulado de três anos de experimentos, a produtividade da cultura plantada no consórcio, quando comparada com as braquiárias solteiras, sempre registrou incrementos produtivos, variando de 10 até 20 sacas por hectares na soja.

Clique aqui e baixe o folder do Sistema Gravataí, produzido pela Embrapa

Estruturação do solo

Entre os benefícios do Gravataí para a construção do perfil do solo, está a melhoria da qualidade da matéria orgânica produzida. Wruck explica que uma maior diversidade da matéria-prima que vai originar a matéria orgânica permite a produção dos ácidos húmicos e fúlvicos também em maior quantidade, isso melhora a qualidade dessa matéria orgânica, e, consequentemente, melhora a estruturação do solo.

“Além disso, temos ainda a própria fixação biológica nitrogênio como um fator importante para melhorar a disponibilidade de nitrogênio total. Temos a descompactação do solo e também a produção de exsudados diferentes ao longo do perfil do solo. Tudo isso auxilia proporcionando uma maior diversidade da microbiologia, dos microrganismos do solo”, enumera o pesquisador.

Com relação à melhoria da capacidade de retenção de água, ainda não há dados consolidados, mesmo assim, os pesquisadores acreditam, pelo que já observam, que o Sistema Gravataí vai permitir o melhor armazenamento e aumento da disponibilidade de água no solo, principalmente, para os momentos de veranicos muito comuns no mês de dezembro na região.

Um importante aliado

Quando se fala em adubação verde, um dos principais fatores limitantes é a disponibilidade da semente das culturas. Com o feijão-caupi, isso não acontece em Mato Grosso. A cultura hoje é bastante difundida no estado, que possui área plantada de cerca de 200 mil hectares, facilitando a aquisição das sementes em volume e boa qualidade.