Soja com pastagem rende mais

Revista A Granja 22/02/2019

A integração lavoura-pecuária promoveu ganhos de 7% a 15% na produtividade da oleaginosa em iniciativas conduzidas pelo lapar. Consequência das fezes/urina dos bovinos que promovem a ciclagem de nutrientes, da otimização do status biológico do solo e do desadensamento do solo pelas raízes das forrageiras

Por Elir de Oliveira, pesquisador em integração lavoura-pecuária do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR)

Nas últimas décadas, a agricultura brasileira passou por um consistente processo de adoção e elevação dos patamares tecnológicos, resultando em aumento de produtividade em todas as culturas. A soja é o exemplo mais evidente dessa evolução. Nos últimos 35 anos, a área cultivada com a leguminosa teve um aumento de 248%, com um crescimento na produção de 506% e incremento de 78% na produtividade. Isso coloca o Brasil como a segunda maior produtividade mundial, com 56,17 sacas por hectare, atrás dos Estados Unidos, com 58,33 sacas. Esse quadro de evolução é fruto de trabalhos multidisciplinares das pesquisas incorporados às plantas e daqueles ligados à ciência do solo, da assistência técnica, das empresas envolvidas no agronegócio e pela profissionalização, dedicação e competência dos produtores.

Entretanto, há outros fatores de produção que escapam da blindagem tecnológica incorporada, ou seja, as irregularidades na distribuição das chuvas e temperaturas extremas durante o ciclo da cultura. Várias lavouras de soja em todo o Brasil amargaram perdas de produtividades, nas quais, em muitos casos, ocorreram excesso de chuvas no período vegetativo e déficit hídrico na fase reprodutiva da planta. Para complicar, junto com a estiagem, houve elevação da temperatura, sendo registrados números de até 68º C no ambiente superficial do solo. O excesso de chuvas na fase vegetativa induziu as plantas a formarem sistemas radiculares apenas superficiais, ocorrendo com maior gravidade em solos mais adensados e com menor taxa de infiltração da água.

Essas plantas, com sistemas radiculares superficiais, ao entrarem na fase vegetativa, após o florescimento, tornaram-se altamente sensíveis ao déficit hídrico, levando ao ponto de murcha permanente na fase de enchimento dos grãos. Os danos foram mais acentuados em cultivares de soja de ciclo precoce e hábito determinado, agravado, ainda, quando cultivadas em solo com pouca palhada. Uma lavoura de soja no período mais quente pode perder até 10 milímetros de água por dia pelo fenômeno da evapotranspiração. Dados do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) mostram a importância da palhada para evitar temperaturas extremas no solo (tabela 1).

Fonte: IAPAR/Estação Experimental de Palotina, PR. Registro de 25/12/1990 15h

Estratégias para atenuar perdas por adversidades climáticas

Como o fenômeno das estiagens, seguidos de altas temperaturas, vem ocorrendo de forma cada vez mais constante nas regiões produtoras de grãos do País, é necessário estabelecer estratégias para atenuar seus impactos negativos na produção. Inúmeras são as estratégias. Não é novidade que a manutenção de boa palhada em sistema de plantio direto e elevação dos teores de matérias orgânica do solo são regras básicas. Há dados disponíveis na literatura que a matéria orgânica pode reter até 20 vezes sua massa em água.

As plantas de cobertura de inverno e de pós-colheita da soja são técnicas viáveis para a melhoria do solo, importantes para favorecer a resiliência das plantas comerciais às adversidades climáticas, além da destacada eficiência no controle de plantas daninhas. Também na otimização do status microbiológico do solo, ciclagem de nutrientes e, ainda, para promover a rotação de sistemas radiculares. Infelizmente, a maioria dos produtores não as adotam por vislumbrarem nelas apenas custos, uma vez que os benefícios são difusos, de difícil mensuração quantitativa nas propriedades.

Por isso mesmo, a recomendação é que o produtor adote as plantas de cobertura em apenas 20% a 25% da área a cada ano, iniciando pelo talhão no qual as culturas apresentam as menores produtividades. A aveia pode deixar cerca de 10 toneladas/hectare de matéria seca sobre o solo, além de seu sistema radicular fasciculado e profundo, que ajuda a desadensar o solo.

O nabo IPR 116 produz cerca de 7 t/ha de matéria seca, descompactando a camada subsuperficial do solo, melhorando a plantabilidade, além de sua eficiência para controle de buva, capim-amargoso e outras plantas daninhas. Dados obtidos no Iapar/ Polo Regional de Pesquisa Oeste, em Santa Tereza do Oeste/PR, demonstram a importância da palhada de plantas de coberturas de inverno na ciclagem de potássio e aumento no teor de matéria orgânica do solo após cinco anos de cultivo. O destaque foi para o tenteio IPR 89 na ciclagem de potássio e elevação do teor de matéria orgânica na camada de 10 a 20 centímetros nas parcelas nas quais a palhada foi mantida sobre o solo (tabela 2).

Na última safra de soja, os resultados de que o manejo do solo fez a diferença para atenuar as perdas por estiagens puderam ser observados em muitas propriedades. Na Região Oeste do Paraná há relato de produtor que, após 40 dias sem chuvas, a produção de soja semeada após a sucessão soja/milho safrinha foi de 10 sacas/ha; enquanto que, em talhão ao lado, a produção de soja que foi semeada após o consórcio de nabo com aveia foi de 30 sacas/ha, cobrindo pelo menos os custos.

Benefícios mútuos entre agricultura e pecuária

Os sistemas integrados de produção agropecuária (Sipa), também denominados de sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) ou de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) são adotados em muitas propriedades e têm despertado o interesse de muitos produtores. Na Região Sul há uma perfeita compatibilização entre culturas de verão, como soja e milho, com o cultivo de forrageiras no inverno, como aveia e azevém. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, em áreas com irrigação, o mesmo sistema pode ser adotado. Entretanto, nessas regiões, em áreas de lavoura sequeiro, há tecnologias consolidadas para sistemas integrados através do cultivo de forrageiras tropicais após o cultivo de soja ou milho, ou mesmo semeada intercalada ao milho.

Fonte: Olveira e Zanão 2018 Dados completes ainda não publicados

Apesar dos benefícios já comprovados, ainda há relutância de muitos produtores de grãos em adotar o sistema de integração lavoura-pecuária. A alegação é de que “as patas dos bovinos afetam o rendimento de soja por causar a compactação do solo”. Essa alegação pode ser procedente caso ocorra o mau manejo do sistema como a implantação de lavoura de soja ou milho sem palhada residual, pois ela é necessária para dar sustentabilidade ao sistema de plantio direto. Em trabalho conduzido por Oliveira et al. no oeste do Paraná durante quatro safras (tabela 3), verificou-se que os incrementos na produção de soja atigiram patamares de 7% a 15%, favoráveis para as pastejadas comparadas com a produção de soja em áreas onde não houve pastejo.

Fonte: Olveira et al 2017. Trabalho publicado no I Congresso Brasileiro de Sistemas Integrados de Produção Agropecuária, Cascavel, PR, 2017

Esses resultados apontam que os benefícios surgem da deposição de fezes e urinas dos bovinos que propiciam a ciclagem de nutrientes, a otimização do status biológico do solo e o desadensamento do solo pelas raízes das forrageiras. Nesse experimento, a palhada residual para semeadura da soja foi mantida em um mínimo de 3 t'ha. Para isso, é importante optar por forrageiras de ciclo longo, as quais sua fase vegetativa se estenda até próximo ao período de dessecação para semeadura da cultura de verão. Os sistemas de consórcios de forrageiras de inverno é uma prática que pode auxiliar na oferta de pastagens de qualidade, nas quais se procura o desfrute das características desejáveis e compatíveis de cada espécie ou cultivar. A Tabela 4 mostra o excelente desempenho de novilhas em três tipos de pastagens como consórcio de azevém com triticale (T), aveia-preta de ciclo longo Iapar 61 (T,) e consórcio de aveia Iapar 61 com centeio IPR 89 (T).

Fonte: Olveira et al 2017. Trabalho publicado no I Congresso Brasileiro de Sistemas Integrados de Produção Agropecuária, Cascavel, PR, 2017

Não houve diferença significativa para a produção animal entre as forrageiras de inverno, as quais todas apresentaram ganho médio diário de peso vivo individual acima de um quilo. Observa-se que o ganho de peso vivo por hectare, somente no período de inverno, foi de 601 quilos. Conforme Blaser et al. (1982), tal desempenho permite o abate de animais com 18 a 24 meses, o que enquadra na categoria de superprecoce e precoce. O ganho de 601 kg/ha de peso vivo somente no período de inverno é um resultado altamente positivo para a receita da propriedade. Esse ganho equivale a 22,5 arrobas de carcaça com 56% de rendimento, ou seja, entrada de R$ 3.350,00 por hectare de receita bruta somente no inverno. Considerando que, somente no Paraná, durante o inverno, cerca de 5 milhões de hectares ficam em pousio ou somente com aveia para cobertura, parte dessa poderia ser utilizada em sistema de integração lavoura-pecuária. Haveria maior produção de carne e leite, gerando mais renda aos produtores, dinamizando ainda a economia regional.

Os sistemas integrados entre lavouras de verão e pastagens de inverno requerem áreas com pastagens tropicais perenes, nas quais os animais são manejados durante o cultivo da soja e/ou milho para a produção de grãos ou silagens. Essas áreas de pastagens perenes, especialmente quando se tratar de gramas, deverão ser sobressemeadas com aveia precoce como IPR Esmeralda consorciada com ervilhaca para que sirvam como área de “escape” em períodos chuvosos no inverno. Essa área de “escape” é fundamental para pastejos estratégicos, para onde o gado deve ser conduzido quando da ocorrência de dias chuvosos consecutivos. Isso protege o solo e diminui as perdas de forragens pelo pisoteio e pela formação de barro. A proporção de área da propriedade destinada às lavouras de verão, com pastagens anuais no inverno e área de pastagem perene, é dependente do sistema adotado em cada propriedade, como: tipo de pastagens perenes, níveis de adubação adotada, se a propriedade utiliza forragens conservadas ou sistema de semiconfinamento, entre outros fatores.

Artigo publicado originalmente na Revista A Granja, em fevereiro de 2019