Plantio Direto em terras baixas

Redação FEBRAPDP 08/02/2019

Da Redação FEBRAPDP

Mais 250 mil hectares passíveis de exploração em Sistema Plantio Direto pleno. Esta é a área que a adaptação de uma técnica – já usada na Roma Antiga – permite agregar ao mapa da agricultura no Rio Grande do Sul. Um estudo da Embrapa que será apresentado no final do mês de fevereiro em Pelotas, RS, durante o evento de abertura oficial da colheita de arroz no estado, mostrará aos produtores os camalhões de base larga. Uma técnica relativamente simples e barata que é capaz de drenar solos de terras baixas com altos níveis de encharcamento.

De tão eficiente, a drenagem do solo de terra baixa torna viável também o plantio de culturas de sequeiro (onde o arroz não estiver sendo cultivado) como soja e milho, no verão, e culturas de inverno como aveia, aveia preta, azevém, ervilhaca, nabo forrageiro, entre outras. Desta forma, abre-se a também possibilidade da rotação de culturas com produção de palhada; pilares do SPD que sempre foram impeditivos para uso do sistema em terras baixas.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Clima Temperado Geovani Theisen, nas terras baixas, sempre se trabalhou na tentativa de fazer cultivo mínimo atrelado à cultura do arroz, porém, a adoção do SPD sempre esbarrou na impossibilidade de rotação entre o arroz e culturas como soja, milho e sorgo, por exemplo, que não toleram o encharcamento do solo. O Plantio Direto tem vantagens na melhoria da qualidade do solo largamente comprovadas, como a matéria orgânica elevada, que melhora a retenção e umidade e a fertilidade natural do solo. No entanto, em solos alagados, o excesso de biomassa acaba elevando ainda mais a retenção de água, o que é indesejável.

“Nas terras baixas, é um desafio manter o solo sempre coberto com algum tipo de cobertura de palhada. De um modo geral, são solos planos, difíceis de secar pelo escorrimento da água e, para semear, precisa-se de solo seco. Nesse contexto de terras baixas, quando se tem muita palha é difícil ter esse solo seco para a semeadura. Para contornar, adaptamos a tecnologia dos camalhões de base larga ao contexto das terras baixas gaúchas, que cria ondulações no terreno, variando de 4 a 8 metros de largura. O camalhão garante que o solo esteja sempre seco, para colocar culturas de inverno que produzam palha. Chegando a primavera, o agricultor pode dessecar ou passar o rolo faca e, assim, consegue fazer o SPD com bastante palha e aumentando a matéria orgânica do solo. Este aumento de biomassa chegou a quintuplicar no sistema”, detalha o pesquisador.

Os chamados planossolos são áreas, como o nome já indica, extremamente planas. Em geral, possuem uma camada de 30 centímetros de solos agricultáveis e, logo abaixo, uma estrutura praticamente impermeável, onde a água dificilmente se infiltra. Sem declividade e pouco permeável, essas áreas, após as chuvas, só secam através da evaporação natural; um processo demorado.

Incremento produtivo

Mais do que a técnica em si, o estudo apresenta resultados bastante positivos no que diz respeito à produtividade. Numa comparação com áreas da região de Pelotas e entorno (considerando terras baixas e altas), a soja produzida teve, em média um incremento de 20%. Mas o milho chegou a um aumento de surpreendentes 170% em sua produtividade na comparação. Segundo Theisen, que está à frente das pesquisas desde 2007, o milho sofre muito com os solos alagados. E, uma vez drenados e enriquecidos em matéria orgânica, tendem a responder muito positivamente.

O incremento de matéria orgânica é outro benefício importante da tecnologia. “A variação de matéria orgânica é algo que acontece de forma lenta no solo. Vários fatores interferem. Dois afetam em especial: um é a baixa quantidade de biomassa produzida por ano e o outro é a alternância constante entre seco e molhado típica das terras baixas. Isso prejudica a incorporação da biomassa e sua transformação em matéria orgânica, além de não ser favorável à mineralização do carbono. Com o uso dos camalhões conjugado com o SPD, o que vimos foi um aumento de 1,4 para 2,5 no de teor de matéria orgânica. Pode parecer pequeno, mas trata-se de uma mudança bem significativa”, explica Theisen.

Simplicidade e baixo investimento

O camalhão dá um formato arredondado ao terreno a cada 6 ou 8 metros e a água escorre por esses canais entre um camalhão e outro, permitindo que uma boa parte da área fique seca. Tecnicamente, ele gera uma pequena declividade, mas suficiente para que a água escorra. Existem também camalhões estreitos, onde se cultiva uma ou duas linhas de soja ou milho.

“Nosso trabalho tem sido focado no camalhão largo para que se possa fazer o plantio direto em cima e não necessite de maquinário específico para sua construção. Nos ensaios da Embrapa, usamos talhões entre 8 e 19 hectares, que representam bem a realidade das propriedades comerciais da região. Fizemos a rotação com um ou dois anos de soja e, na sequência, um ano de milho verão. No inverno, cultivamos aveia preta, azevém, ervilhaca, nabo forrageira; enfim, todas as culturas usados nas áreas altas, todas com adaptação muito boa. Quando tínhamos as pastagens aveia preta e azevém, colocamos o gado”, relata.

O camalhão de base larga é indicado para áreas de terras baixas, onde o produtor tem dificuldade de fazer a drenagem. Em alguns casos, é possível fazer essa drenagem com o sistema de valetas, mas em algumas áreas, onde as valetas não dão conta, entra o camalhão. Geralmente são áreas em que o produtor de arroz precisa fazer a rotação em 1/3 da área e deixar os outros 2/3 em pousio. Serve também para grandes áreas onde, apesar do encharcamento, nunca plantou-se arroz ou produz-se pouca pastagem e pouca soja.

Em termos de investimento, requer apenas o custo equivalente a um preparo de solo. Theisen conta que nos experimentos da Embrapa, os camalhões foram feitos com arado e grade, apenas direcionando a leiva (sentido da aração). Numa passada de trator jogando a terra para a esquerda e na volta jogando para a direita. E assim vai formando a estrutura, depois passa uma grade leve para dar uma arredondada e está pronto. O pesquisador destaca que a construção da estrutura dos camalhões é o único momento em que ocorre a entrada de máquinas no sistema, além das plantadeiras. “O custo total é de uma aração e duas gradagens, ou duas arações e uma gradagem. Limita-se ao custo do diesel basicamente. A área fica ali por três ou quatro anos sem precisar mexer”.

Redução da emissão de metano

No resumo do trabalho de pesquisa apresentado durante o Encontro Nacional de Plantio Direto, em agosto de 2018, na cidade de Sorriso, MT, ressaltou ainda a importância da tecnologia para a diminuição do impacto ambiental gerado pela irrigação por inundação como fonte de emissão de metano, gás que promove o aquecimento global em taxas 28 vezes acima do CO2 .

De acordo com o trabalho, “um dos desafios, nesse contexto, é modelar a agricultura em terras baixas visando aumentar e diversificar a produção de alimentos, mas reduzindo o impacto ambiental, tanto local, quanto global. Desenvolveu-se um sistema de produção baseado na agricultura conservacionista (plantio direto, solo sempre coberto e ILP) em solo hidromórfico, no qual modificou-se a macro-estrura do terreno para garantir drenagem permanente, utilizando-se camalhões de base larga. Os experimentos foram conduzidos durante nove anos pela Embrapa Clima Temperado no sul do RS. Comparado a 3 modelos com arroz irrigado, o novo sistema produziu mais energia e proteína, gerou 4,4 t/ha/ano a mais de biomassa e armazenou no solo o equivalente a 160 kg/ha/ano de CO2 , contrastando com a emissão de 5.430 kg/ha/ano dos sistemas tradicionais. A integração lavoura-pecuária foi decisiva no alcance dos melhores resultados. O sistema é adequado para ampliar a produção de alimentos em terras baixas, diversificando e otimizando o uso da terra em áreas com solos hidromórficos”.

Para mais informações, o telefone da Embrapa Clima Temperado é 53 3275-8400.