Momento de dessecação das braquiárias em soja sob SPD

Revista A Granja 07/02/2019
Alvadi Antonio Balbinot Junior - Foto: Acervo Coamo

Por Alvadi Antonio Balbinot Junior, Julio Cezar Franchini, Henrique Debiasi, pesquisadores da Embrapa Soja, e Flavia Werner, professora da Universidade Estadual de Londrina/PR

Sistemas integrados de produção têm se tornado cada vez mais frequentes e importantes para o alcance de maior competitividade e sustentabilidade do agronegócio brasileiro. A integração lavoura-pecuária (ILP), que alterna na mesma área o cultivo de pastagens anuais ou perenes para alimentação animal e culturas destinadas à produção de grãos, é um sistema relevante para o incremento da diversificação das atividades agropecuárias. Diversos benefícios podem ser obtidos pela adoção da ILP, entre os quais se destacam a diversificação da renda, a redução de riscos, o aumento da renda por área e a redução de custos de produção, em função, principalmente, da melhoria da qualidade do solo manejado em sistema plantio direto (SPD). Outro possível benefício da ILP é a redução do uso de agroquímicos, em razão da quebra do ciclo de algumas pragas, doenças e plantas daninhas.

Espécies do gênero Urochloa (braquiária) têm sido amplamente utilizadas em sistema ILP conduzido em regiões tropicais, principalmente pela grande capacidade de produção de biomassa – mesmo em solos com baixa fertilidade – proporcionando boa cobertura do solo, abundante crescimento de raízes e alta ciclagem de nutrientes. Além do grande potencial de produção de forragem, gramíneas desse gênero formam biomassa com alta relação carbono/nitrogênio (C/N) e lignina/N, o que confere maior persistência da palha, característica desejável, principalmente em ambientes quentes, nos quais ocorre rápida decomposição da cobertura do solo em SPD. No Brasil, as braquiárias brizanta e ruziziensis são espécies amplamente utilizadas em sistemas de produção animal com base no pasto e em sistemas integrados com lavouras, especialmente soja e milho.

Em sistema ILP, o intervalo entre a dessecação da pastagem e a semeadura da soja pode influenciar expressivamente a plantabilidade e o desempenho agronômico da cultura. Dependendo da quantidade e das características da palha, a semeadura da soja pode ser dificultada quando realizada logo após a dessecação da pastagem – sistema desseque/plante. Grande quantidade de palha na superfície do solo tende a elevar os índices de patinagem do trator ao realizar a semeadura, assim como provocar embuchamento com palha acumulada entre as linhas da semeadora.

Um intervalo pequeno entre a dessecação e a semeadura pode resultar em menor crescimento inicial da soja em razão do sombreamento promovido pela palha e pela imobilização temporária do nitrogênio (N) para a decomposição da palha. Por outro lado, dessecações antecipadas – superiores a 30 dias antes da semeadura – podem reduzir a quantidade de palha, além de permitir a emergência de plantas daninhas antes da semeadura, por vezes fazendo-se necessária dessecação adicional. Além disso, a época de dessecação das braquiárias mais favorável à cultura da soja em sucessão pode variar de acordo com a adubação nitrogenada e a altura da pastagem, já que essas práticas podem alterar a quantidade e a qualidade da palha, sobretudo a relação C/N. A indicação do melhor momento de dessecação das braquiárias, em relação à semeadura da soja em SPD, é fundamental para o sucesso dessa modalidade de ILP.

Experimentos

Em Londrina/PR, com apoio da Fundação Agrisus, foram desenvolvidos trabalhos de pesquisa com intervalos entre a dessecação de pastagem perene de braquiárias e a semeadura da soja. O primeiro experimento foi elaborado com a braquiária ruziziensis manejada em três alturas de pastejo (15, 35 e 50 cm), e o segundo, com pastagem de braquiária brizanta adubada com três doses anuais de nitrogênio (0, 150 e 300 kg de N/ha).

Independentemente da espécie de braquiária, da altura de pastejo e da adubação nitrogenada, verificou-se que intervalos menores do que 15 dias dificultam a operação de semeadura e a emergência de plantas de soja (Figura1), além de reduzir o crescimento inicial das plantas. Em função do clima favorável reinante nas safras avaliadas, a redução da emergência e o crescimento inicial da soja nas dessecações próximas da semeadura não influenciaram a produtividade de grãos. No entanto, é necessário salientar que as dessecações próximas da semeadura da soja conferem risco de redução de produtividade, sobretudo se as condições climáticas não forem favoráveis ao crescimento das plantas da oleaginosa. Outro ponto que merece destaque é o aumento do risco de ataque de algumas pragas à soja, quando a braquiária é dessecada com antecedência menor do que 20 dias em relação à semeadura da cultura, em decorrência da ausência de período sem plantas verdes na lavoura.

Por outro lado, os resultados obtidos em Londrina indicaram que dessecações realizadas com antecedência superior a 30 dias da semeadura da soja não proporcionaram aumento de produtividade, comparativamente às dessecações realizadas mais próximas da semeadura. Nesses ensaios, as produtividades da soja foram superiores a 4.700 kg/ha, indicando o bom potencial de rendimento da soja em sucessão às pastagens perenes de brizanta e ruziziensis, desde que bem manejadas. Esse resultado é relevante, uma vez que indica que as pastagens perenes de ruziziensis e brizanta não necessitam de dessecações muito antecipadas, possibilitando período mais longo de uso da pastagem para a produção animal.

Nesse contexto, nas condições de solo e clima presentes nos experimentos, intervalos de 25 a 30 dias entre a dessecação de pastagens perenes de braquiárias (brizanta e ruziziensis) e a semeadura da soja conciliam adequada condição para a semeadura da soja, boa emergência e crescimento inicial das plantas e altas produtividades da soja. Adicionalmente, com esse intervalo, não há necessidade de dessecação adicional antes da semeadura da soja e há maximização do aproveitamento da pastagem para a produção animal em relação à dessecação realizada com antecedência superior a 30 dias.

Outro fator estudado nesses experimentos foi a aplicação de N mineral(30 kg/ha) na semeadura da soja, uma vez que há questionamentos quanto ao possível benefício do N mineral no estímulo do crescimento inicial da soja quando há presença de grande quantidade de palha com alta relação C/N. Em todos os tratamentos, o N mineral aplicado na soja não conferiu aumento de produtividade em relação à ausência de aplicação. Isso corrobora os inúmeros resultados de pesquisa que indicam ausência de benefícios da adubação nitrogenada mineral na soja, mesmo em sistema ILP com quantidade de palha de braquiária superior a 6 t/ha.

Artigo originalmente publicado na Revista A Granja (jan/2019)