Zap-zap agronômico

Jornal do Engenheiro Agrônomo 21/12/2018

Por Ondino Cleante Bataglia, engenheiro agrônomo da Conplant Consultoria, secretário-executivo da Fundação Agrisus, pesquisador e ex-diretor-geral do IAC

Há algum tempo, fui convidado para acompanhar uma comitiva técnica em visita a seringais no Estado de Goiás. Na noite anterior à visita às fazendas, nos reunimos e, durante a conversa, eu me sentia um tanto à parte porque todos falavam de um novo meio de comunicação que poderia ser muito útil no relacionamento daquele grupo e no trato dos problemas a serem discutidos e resolvidos para melhorar a atividade e o desempenho daqueles seringais.

Foi meu primeiro contato com o hoje famoso WhatsApp e, conforme me lembro muito bem, um dos nossos anfitriões informou aos demais que eu não estava participando da conversa naquele momento porque estava sendo treinado para aprender e integrar o zap-zap do grupo.

De lá para cá, não é preciso falar sobre o que vem acontecendo nos meios de comunicação, nas famosas redes sociais, dentre as quais o WhatsApp teve um avanço imensurável principalmente no Brasil. Todos conhecem o seu papel nas últimas eleições presidenciais, onde praticamente o pleito foi decidido com o uso desse meio de comunicação.

Mas voltando aos meios agronômicos, o zap vem se transformando num eficiente sistema de compartilhamento técnico por meio dos diversos grupos formados. O grande desafio é a administração. Se o administrador não for duro o suficiente, o grupo descamba e em pouco tempo perde totalmente a atração e a eficácia.

Para citar um caso positivo, nossa empresa já ministrou 25 cursos sobre o manejo de nutrientes em cultivo protegido. Cada um desses cursos tem pelo menos 40 participantes e, ao final de cada curso, forma-se um grupo. Acompanho os diversos grupos e percebo quanto tem sido útil, pois a troca de experiência entre eles é forte e generosa. Aparentemente, cada um passa a ser apoiador dos demais. Sempre alguém tem uma experiência para colaborar.

Vindo de uma geração do olho no olho, fico sempre me perguntando: esses modismos são realmente eficientes na construção do conhecimento agronômico a ser transferido para o produtor?

As plantas no campo estão totalmente expostas aos bons e maus tempos climáticos, edáficos e bióticos, quer dizer, expostas ao ambiente. Elas sofrem as consequências e reagem rapidamente aos tratamentos. Por isso, os técnicos que apoiam o produtor precisam de conhecimentos sólidos para interpretar o que está acontecendo e recomendar rapidamente as correções necessárias.

Para ter um desempenho técnico consistente, o engenheiro agrônomo precisa ter uma boa formação. E esse parece ser um ponto vulnerável. Fora das escolas de boa qualidade, o que tenho visto é muita participação em cursos, treinamentos, eventos, onde o que menos existe em termos de preocupação é um aprofundamento na leitura e nos manuais. Revistas e panfletos com tratamentos superficiais dos temas são abundantes, mas nem sempre lidos, às vezes, apenas “vistos de passagem”.

O livro técnico tem muita dificuldade de ser vendido e, quando comprado, nem sempre é usado, a não ser em casos de extrema necessidade. Convivemos com uma geração que parece dispensar o uso da própria memória para acumular conhecimentos técnicos. O que mais se confia é no Google, no copiar e colar de aulas e textos que ficarão acumulados nas memórias dos possantes celulares e, finalmente, no mais contundente pedido ao palestrante ou professor: “Me passa um zap”.

Artigo publicado originalmente no Jornal do Engenheiro Agrônomo