Trabalhando com vida

Da Redação FEBRAPDP 17/12/2018

 

Associando a consciência mais ampla do processo com o respeito a premissas básicas de qualidade, o controle biológico é sucesso garantido

Foto: Gleyciano Vasconcellos

Um crescimento exponencial. É assim que Gleyciano Vasconcellos, produtor rural e vice-presidente da FEBRAPDP no Mato Grosso do Sul, resume a procura pelo controle biológico entre os produtores rurais nos dias atuais. O motivo principal para este aumento é que o produtor, segundo ele, perdeu o equilíbrio de seu sistema produtivo e precisa resgatá-lo agronômica e economicamente.

“Entramos numa fase de muita comodidade, com calendários agrícolas, sem manejo integrado de pragas e onde o produtor abre a tampinha do produto, coloca lá e vai embora. Ele esqueceu o controle biológico e foi para o químico. Agora, vem a percepção de que o químico não está dando conta sozinho, pois o meio foi desequilibrado com cargas excessivas de produtos químicos. Não é que não se possa usar juntos o químico com o biológico; podemos, sim, mas a carga tem sido muito alta e cada vez mais cedo. A partir daí uma coisa puxa outra: mais fungicida, mais inseticida tudo é mais. O produtor está se vendo numa situação econômica um pouco mais difícil e a busca do controle biológico é para restabelecer o equilíbrio”, expõe.

Atuando também como consultor em agricultura sustentável, Vasconcellos assiste um total de 12 mil hectares distribuídos em 26 propriedades nos municípios de Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul, Sidrolândia, Maracaju, Dourados, Caarapó e Três Lagoas. Tem sido procurado por produtores que buscam técnicas para resolver os problemas que estão fora de controle e visando também baixar custos. Nesse quesito, ele defende a multiplicação on farm (produção das bactérias na própria fazenda) para reduzir gastos e obter resultados de alta eficiência no controle da maioria das doenças.

Apesar da busca exponencial, o principal obstáculo a uma adoção ainda maior é o receio que os produtores têm da mudança. Vasconcellos explica que a mudança deve ser feita de forma gradual, adaptando e integrando o químico ao biológico. “Não adianta virar a chave de uma vez, pois a chance de insucesso é muito alta. O recomendado é trabalhar os dois de forma conjunta”, destaca.

Primeiros passos

Para começar no controle biológico, a primeira coisa que o produtor precisa ter em mente é que está trabalhando com vida. Vasconcellos ressalta que é necessário ter essa consciência o tempo todo. Desde o processo da fabricação, que sai da indústria, passa pela revenda, vai para a fazenda do produtor, até chegar ao alvo biológico, seja solo, folha ou inseto, é preciso garantir que em todo este percurso o microrganismo esteja vivo. Isso é fundamental e necessário, entendo isso, o produtor começa a adequar todo manejo ao trabalho.

“Caso o produtor vá aplicar, por exemplo, um fungo muito fotossensível. Por saber dessa característica, ele terá de tomar cuidado com o horário de aplicação para evitar a incidência de raios UV e o comprometimento da vida do fungo. A fundamentação dessa consciência de que se está trabalhando com vida desde o início até o final já garante 80% do sucesso do controle biológico”.

Os outros 20% restantes estão ligados à qualidade do produto. Por exemplo, Unidade Formadora de Colônia (UFC) não garante necessariamente que elas sejam viáveis. Ele explica que é parecido com a semente de soja no que diz respeito ao vigor e germinação.  Muitas vezes o fungo está vivo, mas não tem a virulência necessária para predar o outro alvo biológico.

“Tendo a consciência de que se está trabalhando com vida e respeitando premissas básicas de qualidade, o controle biológico funciona bem, sem sombra de dúvida. Nossa experiência pelo trabalho que fazemos nos 1500 hectares de nossa propriedade e nos 12 mil hectares de clientes esparramados pela região mostra que é muito tranquilo obter sucesso. Casos de insucesso são raríssimos”, afirma.

Ferrugem asiática

Em Mato Grosso do Sul, a utilização do controle biológico tem tido grande sucesso em doenças de solos como os nematoides, na antracnose, em doenças de final de ciclo (DFCs), e nas manchas. O controle biológico é usado com indutores de resistência e tem conseguido um controle fitossanitário muito bom, conforme relata Vasconcellos. Outro ponto interessante é também um eficaz controle do percevejo quando associado ao manejo integrado de pragas, que reduz as aplicações se comparado ao manejo químico convencional.

“Tudo por causa de um sistema em que você não agride o meio ambiente. Quando você não atrapalha, já está ajudando muito ao não causar desequilíbrio. A redução dos produtos químicos permite que os inimigos naturais ajudem no controle. Isso é visível em todas as lavouras que a gente olha. É gostoso de ver. Com relação à ferrugem asiática é um pouco mais complicado por ainda haver nenhuma cepa de microrganismo efetivamente eficaz no controle da doença. Mas, apesar de ainda não ser uma comprovação científica, temos observado que uma ocupação melhor do espaço biológico na planta acaba diminuindo a virulência do ataque da ferrugem nas áreas com controle biológico”, revela.

Há quatro anos usando o controle biológico, Vasconcellos, afirma que o maior desafio para quem quer começar ainda é a falta de informação. O mesmo problema que enfrentou quando começou. “Sofri muito por falta de assistência técnica. Se a pessoa for muito imediatista, pensando que vai substituir tudo pelo sistema biológico e ainda por cima não tiver assistência técnica, as chances de fracasso são muito significativas. Informação é fundamental”.