É hora de planejar a gestão da água na propriedade

Redação FEBRAPDP 03/12/2018

Guardar a água que sobra nos meses chuvosos é vital para a manutenção do sistema nos meses de seca

Barraginha - Foto: Acervo Embrapa

A chegada do período das chuvas é um momento estratégico para o planejamento de gestão da água na propriedade. Sobretudo, no Cerrado, onde a partir de abril/maio a chuva para, mas o sistema não, é necessário usar o período de maior oferta de água para retê-la no sistema. Para quem ainda não tem um planejamento, uma notícia ruim: pouco vai ser possível ser feito esse ano. Mas, há também uma notícia boa: é a oportunidade para começar a observar e planejar como fazer para o próximo ano.

De acordo com Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados, objetivamente falando, não há outra estratégia mais interessante para o agricultor que a construção de barragens. “E não precisa, necessariamente, ser barragens de grande porte, mas precisam, sim, ser estrategicamente localizadas para que ele possa armazenar o excedente de água no período de chuva para utilizá-la no período de seca, que é quando mais precisa”.

Também fazem parte do “pacote” de gestão da água na propriedade práticas diretamente relacionadas à conservação de solo, como o terraceamento e o próprio Sistema Plantio Direto, que são fundamentais para que as águas possam infiltrar e recarregar nossa principal “caixa d'água”, que é o solo e aparecer nos rios, mais tarde na estação seca.

“É fundamental combinar as duas; ou seja, estratégias de reservação e estratégias de conservação de solo de água e solo. Já na esfera pública, é necessário que os agentes melhorem a integração entre as instituições públicas e também entre as políticas públicas. É difícil imaginar, por exemplo, uma política de segurança alimentar dissociada da política de segurança energética e segurança hídrica”.

Na prática

Para a elaboração de um plano de gestão estratégica, Lineu Rodrigues explica que há ações de curto, médio e longo prazo que precisam ser adotadas. No curto prazo, o agricultor precisa avaliar a qualidade da sua irrigação e o quão eficiente ele está sendo em utilizar essa água na irrigação, fazendo avaliações, ouvindo técnicos; enfim, fazendo uma avaliação mais detalhada de suas efetivas demandas. A partir daí, ele pode então estabelecer estratégicas para otimizar sua produtividade de uso da água, que é a quantidade produzida por unidade de água utilizada. No médio prazo, deve começar urgentemente como estratégias de conservação de solo, que são importantes para a questão da infiltração. No longo prazo, há que se pensar nas estratégias de reservação de água e pensar na questão da outorga e da outorga coletiva.

“Nesse momento do ano, em que as chuvas já começaram não tem muito o que fazer para obter resultados ainda nesta safra. Mas o agricultor pode começar a pensar nas estratégias de conservação de água e solo, nas estratégias para reter essa água que vai embora de uma forma rápida do sistema, ficando indisponível na época em que a gente mais precisa dela.

As estratégias de gestão geralmente são mais de médio e longo prazo. Como agora o produtor utiliza pouca água, a demanda tende a ser pequena, então ele pode começar a pensar nessas estratégias já mencionadas ou mesmo em alguma estratégia de revegetação da mata ripária, com o intuito de trazer impacto positivo não só ambiental, mas também para revelar uma proatividade para a sociedade, mostrando que a atividade rural também é amiga do meio ambiente”.

Perdas para todos

Perceber-se como parte integrante de uma bacia hidrográfica é fundamental para que o agricultor tenha um entendimento mais amplo de seu papel nesse contexto. “Em seu plano de gestão estratégica é importante não pensar só na propriedade. Nós temos que pensar na bacia hidrográfica. A unidade de gestão é bacia hidrográfica. O produtor tem que começar a se ver e a entender que ele faz parte no sistema hídrico integrado. Se ele usa água de forma errada, alguém mais abaixo estará sofrendo em função desse uso errado da água. Então, a visão de bacia hidrográfica traz uma outra concepção de gestão e no entendimento sobre a importância do uso compartilhado e da gestão compartilhada de água”, ressalta.

Não poder manejar bem a água ao longo do ano gera perdas para o produtor na medida em que redunda em perda direta de produtividade e, consequentemente, na queda da produção e de receita. Segundo o pesquisador, ao abrir mão da reserva de água, o produtor perde a oportunidade de, por exemplo, manejar bem a sua irrigação ou mesmo passar de uma agricultura de sequeiro para uma irrigada. “Essas perdas vão além da propriedade e atingem a sociedade como um todo através de prejuízos econômicos e sociais. Algo que o armazenamento de água no período de maior oferta de águas pode enfrentar”, explica ele.

Plano nacional

No mês de outubro, houve uma reunião no Governo, envolvendo um grupo interministerial do qual, Lineu Rodrigues é o coordenador. O objetivo foi definir estratégias para uso eficiente da água no meio rural. Participaram representantes da indústria, da pesquisa, da capacitação e das áreas de recursos hídricos a fim de debater os diversos temas. Como resultado desse esforço, em breve será lançado um documento técnico com proposição de tópicos estratégicos para a elaboração de um plano nacional para uso eficiente da água na agricultura.