Inovar é preciso

Redação FEBRAPDP 09/11/2018

Fórum de Inovação em Agronegócio vai oferecer soluções para principais desafios da agricultura conservacionista em Mato Grosso do Sul

Da Redação FEBRAPDP

Área em Sistema Plantio Direto no Mato Grosso do Sul. Foto: Alex Melotto

“O principal objetivo do Fórum de Inovação é trazer para a realidade dos produtores de Mato Grosso do Sul propostas de soluções para os principais problemas e demandas que ainda são gargalos para o crescimento do Sistema Plantio Direto e também para consolidar a agricultura sustentável”.

As palavras de Jônadan Ma, presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, FEBRAPDP, resumem a proposta da iniciativa que une, além da própria Federação, a Fundação MS, o Grupo Plantio na Palha de Dourados (GPP) e o Grupo para Intercâmbio em Agrotecnologia (Giatec) na realização do Fórum de Inovação em Agronegócio, que acontece no próximo dia 21 de novembro, em Maracaju, MS, no Tatersal do Sindicato Rural, a partir das 7h30. Para ver a programação completa, clique aqui.

Segundo Ma, atualmente, existem dois grandes gargalos para o emprego do Sistema Plantio Direto da forma correta, respeitando as bases da agricultura conservacionista. São eles: a falta de rotação de culturas, freada pelo binômio soja-milho safrinha, e a questão do manejo e conservação do solo, que carrega consigo também a consequente conservação das águas.

“Os princípios básicos não estão sendo cumpridos em ocorrências como rebaixamento de terraços na região e o plantio sem uma base técnica. Essa será uma das questões abordadas no evento, apresentando um projeto de linhas bases de plantio e como manejar bem os terraços. A proposta deste fórum é mostrar soluções que, hoje, não apenas Federação, mas todas instituições ali presentes podem passar para os produtores”, revela o presidente da FEBRAPDP.

A importância da inovação

Gleyciano Vasconcellos, vice-presidente da FEBRAPDP no MS, também destaca a rotação de culturas como o grande desafio para a agricultura conservacionista hoje nas regiões produtoras de Mato Grosso do Sul. “É necessário buscar opções de rotação de culturas para a realização de um Plantio Direto de qualidade. Precisamos de alternativas que possibilitem a rotação de culturas com garantia de receita. Como, por exemplo, o milho consorciado com plantas de cobertura. Em nossa região, o milho verão não é uma opção por situações climáticas diversas”, observa.

Alex Melotto, diretor da Fundação MS, também enxerga as mesmas dificuldades. “Hoje, nosso maior desafio é implantar o verdadeiro Sistema Plantio Direto, trabalhando com rotações de culturas que representem a importância agronômica e econômica para o sistema de produção, reduzindo a mecanização do solo, trabalhando mais com descompactação biológica e menos com descompactação química, de maneira que essas culturas permaneçam no solo durante todo o ano agrícola. O segundo maior desafio é o Manejo Integrado de Pragas (MIP), que envolve desde o monitoramento das pragas agrícolas, rotação de biotecnologias, rotação de princípios ativos, controle biológico e todo o tripé do manejo Integrado de pragas”.

Para Vasconcellos, tecnologias que unam o “útil ao agradável”; ou seja, possibilitem maior rendimento operacional aliado a técnicas conservacionistas também fazem parte dos desafios atuais.  Neste sentido, inovações tais como “tecnologia embarcada nas máquinas agrícolas como, por exemplo, piloto automático, mapeamento com drones, máquinas maiores com terraciador para preparar terraços de base larga que comportem as grandes máquinas hoje no campo, tem um papel importante. Além disso, há também a inovação biotecnológica de baixo custo: rochagem, homeopatia na agricultura, enfim, temos uma variedade de inovações”, diz.

Melotto destaca ainda que, para os problemas específicos da região, a pesquisa e a inovação tecnológica podem propor sistemas mais eficazes de produção. Todavia, para chegar lá, tudo deve ser feito através de análises que diagnostiquem e, a partir daí, sejam feitas as intervenções necessárias. “Em suma, a importância das soluções advindas da inovação é gerar informações que permitam ao produtor tomar a decisão correta e com segurança no sistema de produção agrícola”, resume.

SoloVivo

Representando a Embrapa no Fórum, estará o pesquisador Luís Carlos Hernani, da Embrapa Solos. Ele vai dar detalhes sobre o Convênio Embrapa-Itaipu Binacional estabelecido em 2012 e cujos trabalhos deram origem à Rede de Pesquisa SoloVivo (RPSV). O foco do projeto é o desenvolvimento de ferramentas ou indicadores capazes de avaliar a qualidade do manejo adotado em áreas sob Plantio Direto na região Centro-Sul do Brasil.

“Além dos índices para avaliar a qualidade do manejo de solo e água, a RPSV abrange também outros objetivos fundamentais, como: definir arranjos produtivos que garantam rentabilidade, justiça social e preservação da qualidade de biodiversidade, água, solo e atmosfera e, gerar protocolos que auxiliem a sociedade em geral, a estabelecer formas de compensação pelos serviços ambientais proporcionados por agricultores conscientes, preenchendo os requisitos da Agricultura de Baixo Carbono”, explica Hernani.

"Entre os indicadores em estudo pela RPSV tem-se o Índice de Qualidade do Plantio Direto (IQP) desenvolvido pela Itaipu Binacional e pela FEBRAPDP, publicado por Roloff et al., (2011). Neste caso, a RPSV tem seguido procedimentos metodológicos específicos envolvendo duas etapas denominadas ex ante e ex post. Na etapa ex ante, já concluída, em cada uma das regiões trabalhadas pela RPSV foram realizadas: a) reuniões técnicas preparatórias; b) reuniões participativas com produtores e técnicos para discussão do manejo regionalmente adotado e os problemas eventualmente existentes em face desse manejo; c) aplicação do IQP (versão original) aos produtores parceiros da RPSV; d) discussão e validação dos resultados da avaliação do IQP individualmente com cada um dos produtores parceiros; e, finalmente, e) elaboração de um documento contendo a discussão dos resultados da avaliação e da percepção sobre a validade do IQP original feita pelos produtores e técnicos diretamente envolvidos, em todas as regiões de trabalho da RPSV. Na etapa ex post, em desenvolvimento, em cada uma das regiões trabalhadas pela RPSV: a) reuniões participativas com produtores e técnicos para discussão do método do IQP com vistas a se obter um indicador mais específico ou um IQP adaptado regionalmente; b) elaboração de um documento contendo a proposta do IQP (versão adaptada regionalmente); c) aplicação do IQP adaptado a um grupo (em torno de vinte) de produtores, com avaliações específicas de solo (Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo - DRES, infiltração, etc) nas glebas desses agricultores; d) reunião para discussão e validação dos resultados da avaliação do IQP adaptado com os produtores avaliados; e, por fim, e) elaboração de um documento final contendo os resultados da avaliação e validação do IQP adaptado regionalmente", detalha o pesquisador.

Um dos desdobramentos da RPSV é o Índice de Qualidade Participativo do Sistema Plantio Direto (IQP). Sobre esse tema, Jeankleber Bortoluzzi, da FEBRAPDP, que irá apresentar funcionalidades e benefícios do IQP no âmbito da gestão para assistência técnica e produtores rurais com o uso da ferramenta. Segundo ele, o sistema gera uma série de informações como a visualização geográfica das áreas cadastradas, permitindo ao usuário analisar os principais problemas em diferentes regiões, o que auxilia nas tomadas de decisões. O IQP permite a emissão de um relatório com vários outros parâmetros e dá ao agricultor avaliado e ao técnico que assiste a propriedade a possibilidade de tomar decisões que venham melhorar o manejo empregado e a qualidade do solo.

“Durante o fórum, formaremos um grupo de trabalho regional com pessoas interessadas em participar de futuras discussões para as adaptações regionais e a validação da ferramenta para região”, destaca Bortoluzzi.

Em sua palestra, Marcos Maciel, da GeoMaps vai mostrar que, em se tratando de conservação além da palha, existem outros tipos de maneiras que podem ajudar a parte de conservação de solo e de nutrição de plantas. “Quando você planeja a forma de plantio, principalmente nas áreas com determinada declividade, é possível repetir rastro de plantio, é possível conter a água que estiver correndo dentro das áreas de plantio, é possível planejar quantidade de manobras, é possível entender qual vai ser o seu rendimento operacional baseado nessa tomada de decisão. Tudo isso parte de um estudo planialtimétrico da área, um levantamento geralmente feito com drone, no qual é possível saber como seria o comportamento das curvas de nível na área. Feito isso, é discutido melhor traçado de plantio que hoje, infelizmente com o advento do GPS, a maioria das pessoas só sabe plantar reto e, às vezes, essa não é a melhor opção em termos de conservação”, enumera.

Segundo Rafael Fuentes, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), de um modo geral, todo o Brasil enfrenta uma série de problemas de manejo que vem comprometendo a agricultura conservacionista. Ele cita três exemplos de inovação que já estão contribuindo para reverter os problemas e que vêm ganhando espaço em iniciativas país afora. A primeira delas são as práticas de conservação de solo terraços, canais escoadouros, barraginhas e técnicas de controle de enxurrada para fazer com que a água infiltra dentro das próprias áreas. “Às vezes a gente tem encontrado água correndo mesmo dentro de áreas planas então agricultor não pode acreditar somente no Sistema Plantio Direto como forma de controlar a erosão e as perdas de solo e água tem que usar práticas mecânicas adicionais, onde a declividade ou a condição de solo não permite a infiltração”.  

Outra inovação é a bioativação do solo através da prática de utilização de rotação de culturas como adubos verdes, pelo menos uma vez a cada três anos. “Nesse particular, a utilização de misturas de plantas de cobertura tem sido uma prática muito útil, que aumenta a matéria orgânica, sequestrando o carbono da atmosfera. Um terceiro ponto, é a utilização de práticas de controle biológico, que tem sido considerada uma alternativa de “biologização” dos sistemas, deixando um pouco de lado o sistema químico em favor de práticas biológicas”, lembra Fuentes.