Morre o cientista do solo Humberto Gonçalves dos Santos

Embrapa Solos 01/11/2018

 

Pesquisador fez parte dessa equipe de pioneiros, que viabilizaria o nascimento de uma agropecuária tropical que, anos mais tarde, se tornaria a mais importante do mundo

Por Fernando Gregio, Embrapa Solos

Humberto Gonçalves dos Santos

A Ciência do Solo no Brasil está de luto. Faleceu na manhã desta quarta-feira (31/10), no Rio de Janeiro (RJ), aos 79 anos, o pesquisador da Embrapa Solos, RJ, Humberto Gonçalves dos Santos, cujo trabalho foi fundamental para a formulação da Carta de Solos do Brasil e do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS). Ele estava afastado de suas atividades desde junho, por problemas de saúde. Era casado com Lygia Bretas Rebello dos Santos e não deixou filhos. O velório será realizado nesta quinta-feira (1/11), no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, das 8 horas ao meio dia. O sepultamento acontecerá na cidade mineira de Carangola, na sexta-feira (2/11).

Muito do que se conhece sobre os solos do Brasil e de toda a região tropical do planeta deve-se à atuação desse engenheiro agrônomo graduado em 1964 pela Escola Nacional de Agronomia, atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com mestrado em Ciência do Solo pela Cornell University, nos Estados Unidos (1977), e doutorado em Agronomia e Ciência do Solo pela UFRRJ (1987). Sua atuação incluiu atividades na gênese, morfologia, classificação, distribuição e ocorrência de solos no Brasil, os procedimentos que normatizam a execução de levantamentos de solos, a avaliação da aptidão agrícola e os zoneamentos agroecológicos e pedoclimáticos, chegando ao desenvolvimento da metodologia de mapeamento digital de solos, que incorpora técnicas inovadoras para o aumento da informação de solos, vital para o desenvolvimento brasileiro.

Humberto teve uma longa folha de serviços prestados à Ciência do Solo e à agropecuária brasileira. Ingressou no serviço público em 1965, no Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agrícola (DNPEA), onde permaneceu até 1975, quando ingressou na equipe de pioneiros do Centro de Pesquisas Pedológicas (CPP), no Rio de Janeiro (RJ), posteriormente Serviço Nacional de Levantamento e Conservação de Solos (SNLCS), atual Centro Nacional de Pesquisa de Solos (Embrapa Solos). Ao longo da carreira, foi colaborador de diversas universidades brasileiras e de institutos internacionais como United Nations Environmental Programe (Unep), no Quênia; International Institute For Aerospace Survey And Earth Sciences (ITC) e International Soil Reference and Information Centre (ISRIC), ambos na Holanda.

Além de ser um dos principais colaboradores da formulação do mapa de solos do Brasil (escala 1:5.000.000), participou ativamente, desde a década de 1960, da estruturação de sistemas de classificação de solos, que foram a base para a transferência de conhecimentos pedológicos – estudo do solo no seu ambiente natural – e para o uso e manejo de solos para a sustentabilidade da agricultura nacional.

O trabalho de Humberto e sua equipe ao longo de décadas foi fundamental para a elaboração do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS), cuja primeira versão foi lançada em 1997. O pesquisador teve atuação decisiva à frente do Comitê Executivo do SiBCS, responsável pelo trabalho de avaliação, consolidação e organização de todo o Sistema, que é referência para pesquisadores, estudantes e produtores agrícolas. A obra, reconhecida como a mais importante do mundo em se tratando de solos tropicais, teve sua 5ª edição revista e ampliada lançada recentemente, no último mês de agosto, durante o XXI Congresso Mundial de Ciência do Solo, no Rio de Janeiro (RJ), ganhando também uma inédita versão em inglês. Humberto participou ativamente do projeto da nova edição.

Reconhecimento

Em 2015, ano em que completou 50 anos no serviço público, o pesquisador recebeu o prêmio Johanna Dobereiner, entregue anualmente pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ) para expressar o reconhecimento às personalidades que tenham se distinguido por suas posições, ações, trabalhos, estudos e projetos na área da agronomia.

Na época, mesmo já com cinco décadas de serviços prestados ao Governo Brasileiro, à Ciência do Solo e à agropecuária, Humberto demonstrava motivação para continuar trabalhando. "Fico muito honrado com essa homenagem, me dá muita satisfação. E é um grande estímulo para prosseguir na carreira", disse à época. Ele continuaria ligado à Embrapa Solos até o seu falecimento.

O pesquisador Eliseu Alves, um dos fundadores da Embrapa, lamentou a morte do colega e ressaltou a sua importância para o Brasil. "Quando entrei para a Embrapa, em 1973, a área de solos era a mais importante de pesquisa do então DNPEA, órgão que antecedeu a Embrapa. Essa área continuou sendo muito relevante com a Embrapa, instituição que ajudou a conhecer os solos brasileiros e suas diversas vocações. Humberto Gonçalves dos Santos teve um papel muito importante, pois além de estudar os solos e ajudar a transformá-los em algo significativo para a agricultura brasileira, também tinha uma preocupação com a preservação e a sustentabilidade.”

Desbravadores

Em 2013, por ocasião do aniversário de 40 anos da Embrapa, o pesquisador Humberto Gonçalves dos Santos foi convidado a gravar um depoimento sobre o trabalho desbravador dos cientistas do solo nas décadas de 1960 e 1970, responsáveis pela ampliação do conhecimento sobre os solos do Brasil. O pesquisador fez parte dessa equipe de pioneiros, que viabilizaria o nascimento de uma agropecuária tropical que, anos mais tarde, se tornaria a mais importante do mundo. Assista aqui ao vídeo.