E mais um dos melhores nos deixou... Homenagem a Dirceu Gassen

Revista A Granja Edição OUTUBRO 2018 31/10/2018

 

Recentemente, uma notícia nos arrebatou, e a tristeza tomou conta de todos nós e da agricultura brasileira: nos deixou o nosso grande amigo e ícone, o engenheiro agrônomo Dirceu Gassen. Muitas foram as manifestações em homenagem a ele, e, para a coluna deste mês, gostaríamos de deixar mais uma homenagem, demonstrando nosso imenso respeito, carinho e admiração a Dirceu, com Herbert Bartz contando um pouco da história das circunstâncias de quando eles se conheceram. 

Herbert Bartz: “Em 1976, fui convidado a ser integrante do Conselho Assessor da Embrapa – Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT), em Passo Fundo/RS. O chefe do CNPT, na época, era o Dr. Otoni Rosa, que tinha de superar muitos pontos de vista contrários do staff para implementar os programas de pesquisa, visando dar suporte do plantio direto (PD). Entre os principais pesquisadores com trabalhos com PD estavam Werner Wünsche, e, no início dos anos 1980, Dirceu Gassen se juntou ao time, formando um grupo de entusiastas que apoiavam o Otoni Rosa em prol do plantio direto. Naquela época, a quase monocultura do trigo, no inverno, favorecia as doenças
fúngicas e resultava em médias de produção de trigo muito baixas. O controle biológico dos fungos através da rotação de culturas com aveia preta era visto com muita desconfiança e repulsa. A quebra de paradigmas foi obra de muita visão dessas mentes privilegiadas, com destaque ao trabalho fenomenal de Werner Wünsche e os apoiadores, entre eles se destacando Dirceu Gassen.

A minha posição era muito difícil, também para o mentor Otoni Rosa, que tinha apoio do senhor Éloi Gomes, chefe da Comissão de Trigo do Banco do Brasil (Cetrin), o qual retinha o monopólio do financiamento, da produção e da comercialização do trigo. Pesava ao meu favor que um agrônomo do Banco do Brasil, Rubens Stresser, que
tinha feito, em 1972, um documentário acompanhado, com fotos e textos, o início do PD na Fazenda Rhenânia e que foi enviado para avaliação da Escola Superior de Guerra (órgão de planejamento estratégico do Governo Militar) no Rio de Janeiro. Minhas sugestões e propostas, apresentadas verbalmente por mim ao Conselho Assessor, suscitavam muitas discussões e controvérsias, mas eu contava com o apoio incondicional de Gassen, Wünsche, Rosa e Gomes. Admirava-me com o apoio de Dirceu, porque a minha fala pouco acadêmica era objeto de muitas gozações e questionamentos que colocavam em dúvida a minha confiabilidade. Afinal, eu não
era nem técnico, nem agrônomo, apenas um agricultor.

Mas, nas longas conversas que tive com Dirceu, ele sempre me dizia que ele era filho de colonos e conhecia todo o trabalho no campo (físico), destacando, especialmente, o trabalho do plantio, com a famosa matraca. A respeito das constantes gozações das quais era alvo, Dirceu sempre me dizia “Não ligue!”. Dirceu acabou por se desligar do trabalho de pesquisa no CNPT anos depois, e se transferiu para a iniciativa privada. Sempre se manteve antenado e trabalhando com os problemas e entraves que
o sistema PD apresentava. Nos encontros e eventos sobre plantio direto, Gassen fazia parte do seleto grupo de palestrantes qualificados, que possuíam o dom de um linguajar simples que conseguia atrair os agricultores, os pesquisadores e a assistência técnica, abordando os mais complexos temas do mundo invisível do sistema plantio direto.”

Dirceu Gassen é daquelas almas que iluminam os caminhos das pessoas à sua volta. Sempre trazia um sorriso no rosto, transbordando alegria, que era regada por uma humildade inigualável e uma euforia contagiante, compartilhando ensinamentos e informações por onde passava; Dirceu cumpriu seu papel/vocação de maneira esplendorosa, pelo amor e pela paixão que demonstrava por seu trabalho; Dirceu é daqueles que temos um orgulho gigante de bater no peito e dizer tê-lo
conhecido, que era nosso amigo, e dentro do peito se manterá para sempre; e Dirceu se foi repentinamente, pegando todos de surpresa. Justamente no dia
do biólogo. Um indiscutível biólogo de coração, porque lutou por uma agricultura sustentável, que preserva a vida e a biodiversidade. Dirceu foi uma de minhas primeiras referências e inspiração para que eu trilhasse minha carreira de bióloga pelo universo fantástico da vida no solo. Foi nosso superparceiro e entusiasta nato do sistema
plantio direto. Deixará em todos um vazio, mas nos deixa seu legado de conhecimento e ensinamentos, inspirando gerações a fio.

A família Bartz e a família Federação Brasileira do Plantio Direto na Palha e Irrigação (Febrapdp) desejam os mais sinceros sentimentos à família Gassen, com muito amor e conforto. E a Dirceu, com toda a luz que possui, muita paz pelos campos celestes, recebido com imensa alegria.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo