Adubação verde: agricultura sustentável, eficiente e produtiva

Redação FEBRAPDP 26/10/2018

 

Muitas vantagens diretas são resultado do binômio cobertura de solo/adubação verde, mas para acessar esses benefícios, é necessário “conversar” com o sistema

Da Redação FEBRAPDP

Ademir Calegari em Dia de Campo do 16º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha

A lista de benefícios é extensa: recuperar fertilidade; descompactar o solo; aumentar infiltração de água, e, através dos inimigos naturais e também de efeitos alelopáticos, diminuir plantas daninhas; reequilibrar solo e aumentar o potencial de acúmulo de matéria orgânica e nutrientes, consequentemente produzindo mais e obtendo maiores rendimentos, maiores produtividades com menos insumos e maior equilíbrio. É a agricultura sustentável, eficiente e produtiva acontecendo.

De acordo com o entusiasta e um dos mais importantes divulgadores do binômio cobertura de solo/adubação verde, Ademir Calegari, pesquisador do Iapar, estamos vendo nessas últimas três ou quatro décadas uma verdadeira revolução. Anos sucessivos de trabalhos em diversos lugares do mundo têm, cada dia mais, evidenciado os benefícios possíveis através da promoção do uso adequado de aumento de biodiversidade na agricultura. “Colocando espécies diferentes no mesmo sistema de produção nós temos inúmeras experiências, inúmeras espécies sendo utilizadas nos mais diferentes sistemas de produção, diferentes fertilidades”.

Recém chegado de uma viagem à Suíça, onde participou durante uma semana de uma reunião mundial com 87 especialistas de 38 países no Congresso Mundial de Bioativação de Solo e Plantas, Calegari relata a efervescência desse tema no mundo. Segundo ele, além de serem apresentados produtos biológicos e bioativadores, foi muito discutido o uso de plantas de cobertura e rotação como caminhos para aumentar a presença de microrganismos e inimigos naturais, diminuir ocorrência de doenças e pragas, aumentar a matéria orgânica, solubilizar nutrientes, melhorar o potencial produtivo e, com essa bioativação, reequilibrar a microbiota e aumentar o potencial produtivo das diferentes culturas.

“Na Alemanha, por exemplo, vimos algumas misturas de plantas que os produtores estão utilizando em toda Europa. Culturas como centeio, aveia, phacelia tanacetifolia, linho, mostarda branca, mostarda amarela, ervilhaca, tremoço têm se mostrado bastante eficientes em grandes regiões”, relata o pesquisador.

Ainda segundo ele muitas dessas misturas feitas no Brasil servem também como pastagem e forragem para os animais. Mas é importante notar a necessidade de destinar um percentual máximo de 30 a 40% para os animais, deixando o restante para alimentar o solo, aumentando essa diversificação essa biodiversidade. Ao longo dos anos, tem sido mostrado que é possível recuperar essas áreas, juntamente com produtos biológicos e a bioativação, levando a maior espécie de produtividade na cultura sequencial de soja, milho, feijão ou algodão nas mais diferentes regiões.

Conversa com o solo

Chegar à definição de espécies é fundamental porque passa, necessariamente, pelo bom diagnóstico. No entanto, para chegar a esse bom diagnóstico, Calegari explica que é preciso “saber conversar com o seu solo, conversar com o perfil do solo, com as suas plantas através das análises solos, através do potencial produtivo e fazer uma leitura uma análise”.

Além disso, é fundamental perceber se há problema de doenças radiculares, se tem nematoides, de qual espécie são, se há compactação, se tem boa palhada, se tem plantas daninhas de difícil controle, se a população é alta, etc. “Em cima, disso vai avaliando as condições de clima, precipitação, período que o produtor tem, ainda o sistema de rotação de sequência de culturas, para, enfim, definir quais espécies vai usar”, detalha Calegari.

Como exemplo, ele cita que nas regiões mais frias, de alta altitude no Sudeste e no Sul, o uso de aveia pretas, nabo forrageiro, centeio, ervilhaca comum ou peluda, tremoço. “Em coquetéis, essas plantas são extraordinárias funcionando juntas. São muito melhor que usadas separadamente. Oferecem vários benefícios e cada uma tem a sua especificidade em termo de reciclagem de nutrientes. Algumas são fixadoras de nitrogênio, outras reciclam mais fósforo como as ervilhacas e o tremoço. Há também algumas delas, como o milheto, que é bastante eficiente na reciclagem do potássio. As crucíferas, nabo, crambe e canola são eficientes na reciclagem de enxofre, nitrogênio fósforo. Além disso, todas são formadoras de palhada de qualidade, aumentando ainda a quantidade de ácidos orgânicos, o que incrementa a vida biológica e a microbiota do solo”, detalha.

Um modelo que tem se tornado comum é o uso de plantas de cobertura junto à cultura do milho, em meio às ruas ou às fileiras da lavoura. No Sul, por exemplo, quando as plantas alcançam 40 e 60cm, no caso do milho safrinha, o produtor pode jogar a lanço ou com avião coquetéis com aveia e nabo ou aveia, nabo e ervilhaca. Já nas regiões mais quentes, como o cerrado, os produtores podem se valer do trigo mourisco com capim coracana ou ainda outras espécies. O milho vai crescer e fechar as ruas. Com menos insolação, as plantas param de crescer, voltando só depois, quando as folhas do milho começarem a secar.