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Plantio Direto: O sistema grita

 


Episódio da proibição do uso do glifosato expõe notória dependência do sistema, que, desequilibrado, não responde adequadamente à pressão de plantas, insetos e doenças, requerendo crescente uso de agrotóxicos


 


Da Redação FEBRAPDP


 



Molécula de glifosato


 


Entre os dias 7 de agosto e 3 de setembro, um certo pânico tomou conta da agricultura brasileira: o uso do glifosato estava proibido. Lideranças, produtores, analistas pintavam um horizonte de cores sombrias para os destinos de nossa agricultura: quebra de produção, retrocesso tecnológico, fim do Sistema Plantio Direto, fome...


O que aconteceu entre a expedição da medida pela juíza Luciana Raquel Tolentino de Moura, da 7ª Vara da Justiça Federal em Brasília, no dia 7 de agosto (entenda o episódio), e sua revogação pelo desembargador federal Kássio Marques, vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), de Brasília, no dia 3 de setembro, trouxe à tona a percepção de que é preciso haver um repensar acerca da enorme dependência de nossa agricultura de um único produto. A inviabilidade de glifosato poderia causar tudo isso mesmo? Provavelmente, sim. 


A constatação é grave e, sobretudo, oportuna. Ao observar o episódio mais profundamente, é possível perceber o quanto podemos estar alicerçados sobre um modelo estratégico frágil e dependente. Então, o que podemos aprender com essa situação? Que lição tiramos? Conversamos com vários especialistas do setor e, a seguir, veja algumas das reflexões:


 


Rafael Fuentes, pesquisador do IAPAR


“É muito interessante o que ocorreu nesse momento com relação ao questionamento da utilização do glifosato. Existe uma movimentação mundial, principalmente na Europa, relativa a uma inconformidade com os níveis de utilização de glifosato. Nas nossas condições ainda não existe uma comprovação científica completa sobre esse risco do glifosato e da existência de quantidades que pudessem ser consideradas alarmantes para saúde pública, caso contrário povos da Europa, da China, que estão com a regulamentação muito mais sólida com relação à questão ambiental e de saúde não estariam importando nossa soja, principalmente, e todos os produtos da agricultura brasileira, estaria tudo em cheque.


Então a primeira coisa que nós temos que verificar aí é que, para proibir e também para regulamentar a utilização do glifosato, primeiro precisamos de parâmetros técnicos e científicos bem rígidos e criteriosos, mas temos que ser rigorosos na questão técnico-científica porque existem duas situações.


No Brasil, o início do uso do glifosato em grande escala aconteceu no fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990, quando sua utilização era feita de forma pontual, apenas para dessecação e no início da instalação das culturas, então se fazia uma ou duas aplicações. Como o glifosato é uma substância que, em contato com o solo e com as argilas do solo, se decompõe rapidamente, praticamente não existia questionamento nenhum. Também durante os anos 1990, a patente do glyphosate caiu e o surgimento de diversas marcas aumentou sua utilização.


Com o surgimento dos organismos transgênicos, como a soja e o milho, a utilização continuada durante o ciclo aumentou em diversas vezes o uso. A partir daí a coisa saiu um pouco do controle. Nesse sentido, acho que existe fundamento quando se fala sobre o uso de forma exagerada. Como nós estamos usando o glifosato em 25 a 30 milhões de hectares da agricultura brasileira, quase na totalidade das culturas anuais, precisamos ir com cuidado porque o Plantio Direto poderia ser colocado em xeque, na medida em que não teria mais o dessecante que permite o não preparo de solo; ou então, começaríamos a fazer preparação de solo ou usaríamos outros produtos em grande quantidade.


Então acho que teria que ter pelo menos um dispositivo de tempo. Ao mesmo tempo em que você está checando a questão técnico-científica, você dá um período de 4 ou 5 anos para que se estudem outras formas adequadas de controle de ervas daninhas compatíveis com o Plantio Direto. O tempo também serviria para estudar outras substâncias, a fim de se comprovar ou não a questão dos riscos à saúde. Além de servir como um período tampão de substituição do produto. Essa é, mais ou menos, a lição que a gente tira do episódio”.


 


Marie Bartz, professora da Universidade Positivo e diretora da FEBRAPDP


Vou ser meio curta e grossa... Ficou claro o relaxo e acomodação do agricultor pelo que é mais fácil fazer, atrelado a uma máfia de venda em massa de insumos para lucro imediato a qualquer custo. Vou usar uma nomenclatura que tem sido usado aí nas mídias sociais... Tem se praticado um Sistema Plantio Direto “nutella”... Ruim demais, que não possui qualidade por não obedecer aos princípios do Sistema Plantio Direto “raiz”. O uso excessivo de agroquímicos é apenas um dos indicadores desse mau manejo.


Essa imagem do SPD estar diretamente ligado ao glifosato é internacional e isso é ruim para nós, pois depõem contra parte de nossos agricultores que tem feito um bom SPD, “raiz”. Tipo aquele ditado: uma maçã podre estraga as outras. Neste caso pela má fama.


Se voltarmos a adotar um SPD “raiz”, seguindo seus princípios, que por regra reduz o uso de insumos (tanto agroquímicos, como fertilizantes), já podemos resolver boa parte dessa dependência, tendo em mente que o uso zero de agroquímicos é utopia também.


Qualidade no Sistema Plantio Direto para construir um solo e ambiente biologicamente vivo a ativo, conduzindo a um sistema equilibrado e resiliente, é o caminho alternativo para essa problemática!


 


Ronaldo Trecenti, diretor da Vetor Agroambiental Consultoria


A questão da proibição do uso do glifosato é realmente uma ameaça séria para nossa agricultura sustentável, uma vez que esse herbicida é a base de quem trabalha com dessecação de plantas daninhas para poder fazer o Plantio Direto. Causa, sim, uma grande preocupação, mas também suscita um assunto que a gente vem pensando há muito tempo: o Plantio Direto orgânico ou o Plantio Direto sem uso de herbicidas, que é uma realidade possível já no Brasil, especialmente quando a gente considera a Região Sul, onde se tem plantas de cobertura ou plantas cultivadas que dão a possibilidade de serem trabalhadas durante o período de inverno e serem manejados normalmente com rolo faca. Elas podem morrer ou também, em função da chegada da primavera e a elevação de temperatura, acabam fechando o ciclo entrando em senescência, deixando a palhada para a cultura subsequente.


Já no Brasil Central, que é tipicamente uma região tropical, temos a seca e algumas plantas daninhas ou plantas cultivadas não desenvolvem ou entram em hibernação, o que dificulta bastante para a gente o trabalho de manejo. Por isso, a necessidade do uso de herbicidas, com predominância do glifosato.


Estamos, porém, encontrando alternativas através de consórcio com um mix de plantas de cobertura. Temos um longo caminho à frente, que nos enche de esperança para encontrar plantas a fim de combinar e poder trabalhar com seu manejo; plantas que não sejam perenes, que não é o caso das forrageiras tropicais com a braquiária e pânicos e que são perenes então não permitem esse manejo com corte ou manejo tombando, simplesmente elas não vão encerrar seu ciclo, não vão morrer e vão poder competir quando chegarem as chuvas e o plantio, podendo competir com a cultura principal.


Temos acompanhado algumas iniciativas pioneiras de produtores que estão trabalhando com plantas de cobertura como: crotalárias, nabo forrageiro e o próprio milheto, que permitem esse manejo sem herbicida. Portanto, possível de se pensar em fazer um Plantio Direto sem a dependência do glifosato, no caso. É possível de se trabalhar isso eu acho que nós temos que avançar muito em pesquisa e validação dentro dessa linha, e, assim, não tenhamos um gargalo futuro com Plantio Direto.


 


Carlos Pitol, pesquisador da Fundação MS


O fato que ocorreu com o glifosato mostra que o setor agrícola precisa ter mais cuidado com as tecnologias desenvolvidas. O conceito de que a tecnologia é neutra pode ser verdadeiro, mas a forma como é usada e aplicada essa tecnologia não o é. Isso foi o que levou a nossa agricultura a tamanha dependência em função de vários fatos que ocorreram. Apesar disso, não acho que nossa agricultura iria à falência. Iria, sim, levar um baque bastante forte pela grande dependência do momento. O racional seria ter uma fase de transição. E é isso que vejo que o setor tem que começar a analisar e a pensar em buscar alternativas. A questão do glifosato não é tão simples assim como as pessoas gostam de se manifestar. Ele tem seus problemas.


Nós, na verdade, deixamos de lado as práticas culturais de manejo e a pesquisa de novos herbicidas isso fez com que fossemos levados à dependência. Hoje, no entanto, há muitos trabalhos de pesquisa em nível das lavouras comprovando que o uso da rotação de culturas e a cobertura do solo, na faixa de um terço um quarto da área todos os anos, diminui drasticamente a incidência de invasoras e consequentemente o uso dos herbicidas, dentre eles o próprio glifosato, além dos benefícios, principalmente no que se refere à incidência de pragas e doenças das culturas. Então nós simplificamos o manejo das coberturas, palhadas, das invasoras e acabamos por complicar todo o nosso aspecto fitossanitário de condução das lavouras.


Sem o glifosato não dá para fazer o que se faz hoje. Mas é possível fazer agricultura sim, só que tem que haver uma fase de transição para sistemas mais complexos e isso poderá acontecer um dia e eu acredito que vai acontecer.


 


Leandro do Prado Wildner, pesquisador da Epagri


“Eu fui um dos grandes incentivadores do Plantio Direto em Santa Catarina. Fiz os primeiros trabalhos de avaliações com recomendações de plantas de cobertura do solo para região oeste do Estado. Acredito muito nos princípios de manejo dos recursos naturais, acredito muito nos princípios do manejo integrado de práticas para o manejo de insetos, microrganismos e das plantas que constituem o agroecossistema. Eu acho que nós simplificamos muito a agricultura na busca do lucro. Botamos abaixo os ecossistemas naturais altamente diversificados, com centenas de milhares de espécies por hectare para um agroecossistema; ou seja, lavouras simples e monocultivo, e aí queremos que isso seja o paraíso, com a monocultura e com a intensificação da agricultura os problemas apareceram.


E para resolver tais problemas, apareceram as nossas grandes amigas, as poderosas empresas do agronegócio para nos ajudar. Isso significa então que: apareceu praga põe inseticida, apareceu doença põe fungicida, apareceu planta daninha põe herbicida e assim por diante. Nós esquecemos os princípios do manejo. Podemos fazer uma agricultura dentro dos princípios técnicos que minimizem ou até inibam o aparecimento de pragas, ou então que não permitam que o inseto se torne praga, evitem o aparecimento de doenças e de plantas daninhas, mas isso pode comprometer as vendas dos insumos, não é?


Pois bem, o Plantio Direto foi desenvolvido e prima pelos três princípios básicos: não revolvimento do solo, manutenção permanente da cobertura do solo e aumento da biodiversidade do sistema de produção, também chamado de rotação de culturas, pois tentaram e conseguiram quebrar as pernas desse tripé.


Hoje, temos a grande parte da área do Plantio Direto no Brasil como não revolvimento, mas temos pouca cobertura do solo e quase nada de rotação de culturas. As plantas daninhas estão soberanas nas lavouras. Temos mais de 40 espécies de plantas daninhas resistentes a um ou mais herbicidas. E assim ficamos escravos dos herbicidas. Ficamos escravos da dessecação. E daí, é possível criar um outro cenário para isso? Sim, acredito que sim. Sem herbicidas, sem defensivos agrícolas? Bom, daí eu não sei. Talvez não, talvez sim. Sou da opinião do uso adequado do uso integrado das práticas agrícolas; ou seja, práticas agronômicas, práticas químicas, práticas mecânicas, afinal, das boas práticas agrícolas. Exageramos no uso, por exemplo, do glifosato? Eu não tenho dúvida. Se me perguntar: dá para expurgar o glifosato da agricultura? Não. Mas dá para racionalizar o seu uso? Não tenho dúvida. Hoje qualquer técnico, inclusive os das empresas, sabe que a saída para o manejo adequado de plantas daninhas começa com a cobertura do solo como prática agronômica para o manejo das plantas daninhas. Depois disso vem o uso adequado integrado dos produtos químicos.


Antigamente, cada empresa dizia que o seu produto era o melhor e só ele deveria ser usado. Hoje, todas as empresas dizem que os produtos químicos devem ser usados comedidamente e de maneira alternada para não provocar mais resistência de plantas além do que já existe. Deu no que deu: uso exagerado, desregrado e único de produtos. A saída? Manejo integrado de práticas agronômicas, práticas químicas e práticas mecânicas; aliás, as boas práticas na agricultura, como dizia nosso saudoso Dirceu Gassen recém-falecido”.


 


Herbert Bartz, pioneiro no Plantio Direto


Na verdade, se seria possível trabalhar sem o glifosato, a alternativa seria o paraquat, gramoxil, com eficiência e capacidade técnica mais reduzia, além de mais perigoso que o glifosato. A nossa grande esperança, e dentro da própria missão da FEBRAPDP, consta que um dos principais objetivos é sair da dependência dos agrotóxicos que temos hoje, mas é preciso ter uma noção bem clara de que não existe uma solução fácil ou milagrosa.


Passei por muitas cirurgias na vida. Todas elas de grande duração. A última durou onze horas e meia e o médico até duvidava que eu fosse sobreviver. Foi feito o uso de todos os recursos médicos – não naturais – disponíveis para que tudo desse certo. E deu. Mas paralelamente, antes dessa e das cirurgias, sempre peço ao médico um pouquinho de uma “sobremesa” composta por dentes de alho, cebola, e óleo de oliva. A ideia é manter meu sistema imunológico em bom estado para que o organismo responda favoravelmente. Gosto de comparar a saúde do solo com a humana. Hoje a pesquisa mais avançada do combate do câncer, combate ao envelhecimento, ou à degeneração do organismo, essencialmente, tem sua chave de solução no sistema imunológico. Ele funcionando, o problema está resolvido.


Os bons e mais avançados agricultores, que fazem pleno uso da rotação de culturas, da biodiversidade, e de mais uma porção de princípios que estão em volta do Plantio Direto, conseguem reduzir bastante o uso de químicos.


Meu filho, no ano passado, por exemplo, conseguiu produzir numa área de 15 alqueires, em Grandes Rios, PR, sem o uso de qualquer inseticida, 212 sacas de soja por alqueire. Ele mesmo ficou muito impressionado em ver como o sistema responde quando está equilibrado. Naturalmente, eu concordo que é muito difícil fazer isso em milhões e milhões de hectares, como em Mato Grosso, por exemplo. O que nos cabe é apontar onde estão as causas nevrálgicas. Quem tiver uma inteligência média, não poderá tirar outra conclusão diferente da que estamos chegando aqui.

Redação FEBRAPDP - 10/09/2018 - 11:26:40


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