Entidade de Utilidade Pública Federal desde 1998
FEBRAPDP SISTEMA PLANTIO DIRETO IRRIGAÇÃO PROJETOS PUBLICAÇÕES ENPDP PARTICIPE
English Version
Newsletter




16º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha
A melhor safra de verão é preparada no inverno

Começando pela cobertura do solo, safra de inverno é estrategicamente importante para assegurar as melhores condições produtivas para todo o sistema 


Da Redação FEBRAPDP


De acordo com o ZARC, Zoneamento Agrícola de Risco Climático, de maio a agosto está a janela de plantio para culturas de inverno no Sul do Brasil. Seja para a produção de grãos, pastagem ou silagem, é tempo de cultivar o trigo e cereais de inverno na Região. Qualquer que seja o objetivo da cultura, a cobertura de solo estará sendo contemplada. Isso, estrategicamente, tem grande importância quando se observa de uma forma mais ampla o sistema produtivo como um todo e em suas diferentes etapas.


 “A melhor safra de verão é preparada no inverno. Os melhores rendimentos das lavouras continuam a ser obtidos nas áreas que fazem a diversificação de culturas, seja por rotação, sucessão ou consórcio, tanto no inverno quanto no verão. Esse comportamento reflete os resultados obtidos pela pesquisa agropecuária brasileira”.


 A frase é de Jorge Lemainski, engenheiro agrônomo e Chefe adjunto de transferência de tecnologia da Embrapa Trigo. Na entrevista concedida à Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, FEBRAPDP, Lemainski detalha a importância que, sob o aspecto agronômico, econômico e ambiental, a prática representa para o sistema produtivo, começando, pelo solo.



Jorge Lemainski, chefe da Embrapa Trigo. Foto: J. Valent



FEBRAPDP: Por que a melhor safra de verão é preparada no inverno?


 Jorge Lemainski: A Embrapa Trigo conduz desde 1980, em Passo Fundo, RS, um experimento de longa duração com rotação de culturas, tendo a sucessão trigo-soja como testemunha e em rotação as culturas de sorgo (milho), feijão, nabo, cevada, aveia preta e aveia branca. O resultado de 35 anos mostra a média de ganhos de rendimento do trigo de 35% (12,8 sc/ha) quando a cultura é plantada na mesma área depois de um ano, 40% (14,5 scs/ha) quando plantada na mesma área depois de dois anos e ganho de rendimento de 45% (16,4 scs/ha) quando o trigo é plantado na mesma área depois de três anos.


 O trigo de duplo propósito é uma ferramenta para a integração lavoura-pecuária e tem seu uso como alimento de alto valor nutritivo para ruminantes e produção de grãos. No sistema de produção, possibilita direcionar a lavoura de trigo para o produto de maior rentabilidade, isto é, à produção de grãos ou à produção animal (leite e carne).


 O trigo BRS Tarumã é de duplo propósito e adaptado para semeadura no RS, SC e PR (região fria). É uma tecnologia campeã que vem sendo utilizada há mais de 10 anos e chega a ocupar 150 mil hectares de lavoura de inverno no sul do Brasil.


 Resultados de campo obtidos com o Trigo BRS Tarumã, para o sistema integrado com gado de corte, mostram: a) ganho diário de peso entre 0,8 a 1,6 kg/animal; b) lotação de 1 a 3 animais/ha; c) rendimento de 100 a 300 kg/ha de carne; d) produção de grãos, tipo pão, de 1500 a 4500 kg/ha. Para o sistema integrado com gado de leite: a) ganho diário de 15 a 20 kg/leite/animal; b) lotação de 1 a 2 animais/ha; c) rendimento de 2000 a 4000 litros de leite/ha; d) produção de grãos entre 1500 e 4000 kg/ha.


 FEBRAPDP: Quais os benefícios diretos e indiretos para a soja e o milho de verão o senhor destacaria?


 Jorge Lemainski: A compactação e o adensamento do solo são os maiores desafios a serem enfrentados pela agricultura brasileira – limitam os ganhos de rendimento em anos bons de chuva e causam grandes perdas de produtividade por ocasião de veranicos.


 O Sistema Plantio Direto depende da intensificação do uso da terra no ambiente tropical e subtropical do Brasil para produzir seus melhores resultados ao longo do tempo. O cultivo do trigo é uma das principais fontes de renda da produção agrícola de inverno no Sul do Brasil, sendo fundamental no Sistema Plantio Direto – a palha resultante da colheita cobre o solo até a cultura de verão e as raízes em decomposição, constituem uma linha de montagem de agregados do solo.


 FEBRAPDP: Qual a representatividade das culturas de inverno hoje no Sul do Brasil?


 Jorge Lemainski: O trigo é o principal grão cultivado no inverno no Sul do Brasil há mais de seis décadas. A Região Sul cultiva cerca de 16,4 milhões de hectares no verão destinados à produção de grãos de soja, milho e arroz, enquanto que no inverno, utiliza três milhões de hectares na produção de grãos (CONAB). Os cereais, trigo, aveia, cevada, centeio e triticale são os principais componentes do sistema de produção de grãos no inverno no Sul do Brasil.


 Essa matriz produtiva dominante, de amplo predomínio de cultivos de verão (16,4 milhões de ha) em relação aos cultivos de inverno (3 milhões de ha), não produz fitomassa em quantidade, qualidade e frequência compatíveis com a demanda biológica do solo, sendo este um dos aspectos que explica a compactação e a baixa infiltração de água no solo, aumentando os riscos de quebra de safra por indisponibilidade de água às plantas, quando da ocorrência de veranicos.


 No ambiente tropical e subtropical, o solo requer de 8 a 12 t/ha/ano de matéria seca de raízes e palhada para se manter adequadamente poroso, conforme evidenciam estudos de longo prazo desenvolvidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vezzani e Mielniczuk (2011) apontam estudos em que a contribuição do carbono derivado do tecido e dos exsudatos das raízes para os compostos orgânicos do sistema solo pode exceder à contribuição da parte aérea em 1,5 vezes. Para Denardin e outros (2012), a quantidade e a qualidade da fitomassa, raízes e palha, que são aportadas ao solo, e a frequência com que este aporte ocorre, são componentes da fertilidade do solo: a fitomassa ativa a biologia do solo; a biologia do solo estrutura fisicamente o solo; a estrutura física do solo viabiliza as raízes absorverem os nutrientes presentes na solução do solo.


 Assim, ao considerar o solo agrícola como resultado de complexas interações entre minerais, plantas e organismos vivos; ao considerar que os microrganismos do solo ao decomporem as raízes das plantas mortas em interação com os sólidos minerais processam a linha de montagem de construção de agregados do sistema solo; ao considerar que nos agregados do solo se estabelecem os macroporos, microporos e criptoporos; e que, respectivamente, os macroporos e microporos são o reservatório de ar e de água para as plantas vivas; então, o Sistema Plantio Direto fica na dependência do aporte em quantidade, qualidade e frequência de raízes e palhada de plantas, em especial das gramíneas de inverno e de verão, para a construção de um solo fértil, poroso, capaz de produzir as melhores safras ao longo dos anos.


 E o trigo é um componente muito importante dos sistemas de produção do Sul do Brasil na construção de um solo fértil.


 Para Wiethölter, “a água é o melhor adubo”. Neste sentido, um dos maiores desafios das propriedades rurais é segurar a água onde ela cai. Essa prática, adotada em propriedade de 580 ha em Sarandi, RS, combinada à gestão empresarial e utilização dos preceitos da agricultura conservacionista, têm demonstrado ser um caminho seguro para a maior rentabilidade e estabilidade nas safras do empreendimento agrícola.


 Como estudo de caso, registre-se que nesta propriedade em Sarandi, RS, em 1997, foi validada a tecnologia do Sistema de Terraço for Windows em área de 149 hectares. Na oportunidade foram construídos terraços base larga em nível e a área foi corrigida física e quimicamente no perfil de 00 a 20 cm. Desde então, o sistema de produção contempla a diversificação de cultura – trigo, aveia branca, canola – no inverno, e soja e milho no verão. O plantio é realizado em contorno, assim como os tratos culturais e a colheita. Amostras de solo são coletadas a cada três anos para monitoramento dos nutrientes, mantidos acima dos níveis críticos estabelecidos pela pesquisa agropecuária. A adubação, na linha, é feita de modo a repor o quantitativo de nutrientes extraído pelas culturas.


 No ano de 2005, quando ocorreu um longo período de veranico, enquanto no município de Sarandi, RS, a produtividade média chegou a nove scs/ha, na propriedade objeto deste relato, a produtividade alcançou os 35 scs/ha de soja.


 Escosteguy (2015), em relato no curso Fundamentos da agricultura conservacionista e da fertilidade do solo realizado na Embrapa Trigo, apresentou o resultado da produção de soja na safra 2013/2014, da mesma área de 149 ha em que foi validada a tecnologia do Sistema Terraço for Windows, em Sarandi, RS. Ao avaliar 21 pontos da lavoura, onde a soja se desenvolveu enfrentando um período de 30 dias de sol, seguido de 7 mm de chuva e, daí, por mais 45 dias de sol, com duas semanas registrando temperaturas acima de 40°C, o resultado da colheita foi de 57 scs/ha.


 Seguir os fundamentos das boas práticas agronômicas – aporte de 8 a 12 t/ha de matéria seca em raízes e palha, obtido com o cultivo anual de três ou mais culturas em rotação, consórcio e/ou sucessão; semeadura em contorno; e, o terraceamento agrícola – é o caminho que evidencia os melhores resultados de safra do Sistema Plantio Direto em ambiente tropical e subtropical do Brasil.


 FEBRAPDP: As opções de cultura de inverno hoje são muitas, por exemplo, trigo, cevada, centeio, triticale, aveia e canola. Naturalmente, quando se opta por uma delas, os preços de mercado são decisivos. Mas, sob o ponto de vista agronômico, é possível correlacionar a opção de cultura com a situação em que esta seria mais recomendada?


 Jorge Lemainski: Pires (2017) avaliou na Embrapa Trigo, em Coxilha, RS, ensaio com diferentes sistemas de manejo, comparando sistema de produção utilizado comumente pelos agricultores (A), e sistema de produção com padrão tecnológico considerando as boas práticas agronômicas (B). A produtividade do sistema (A) foi de 4.823 kg/ha, teve um custo operacional de 1.796 reais e uma renda líquida de R$ 559,00/ha, considerando o preço do trigo de R$ 29,00/sc. Por sua vez, a produtividade do sistema (B) foi de 5.312 kg/ha, teve um custo operacional de 1.548 reais e uma renda líquida de R$ 1.020,00/ha.


 O trigo é a principal cultura de inverno e compõe, com as gramíneas e leguminosas de inverno e de verão, o sistema de produção da agricultura brasileira.


 A compactação do solo é um dos maiores problemas da agricultura brasileira, limita o avanço da produtividade de grãos, restringe as plantas de externarem o seu potencial produtivo, causa perdas por erosão em anos chuvosos e quebra de safra quando dos veranicos.


 Avaliação de práticas de manejo do solo e da água na Embrapa Trigo, em 2015 e 2016, mostrou a contribuição da diversificação de culturas, do plantio em contorno e do sistema de terraços na construção de um solo fértil em Sistema Plantio Direto. Área testemunha, em pousio, apresentou taxa de infiltração de água de 13 mm/h, em chuva simulada com intensidade de 136 mm/h; por sua vez, área manejada em 2012 a 2015, com gramíneas e leguminosas de inverno e de verão, apresentou taxa de infiltração de 92 mm/h, para a mesma chuva simulada de 136 mm/h. O trigo foi um dos componentes do sistema de manejo.


 O manejo da área com taxa de infiltração de 92 mm/h constou da correção físico-química do solo no perfil de 00 a 20 cm, mediante calagem e escarificação, depois de cobertura do solo com sorgo forrageiro na safra 2011/2012. A área foi dividida em quatro glebas, sendo uma destinada ao cultivo de grãos de inverno e de verão – trigo, aveia, cevada, centeio, triticale, canola (inverno) e soja, milho, feijão e sorgo (verão) – enquanto as outras três glebas com plantas de cobertura – aveia, aveia + ervilha (inverno) e capim sudão, milheto e sorgo (verão) – compunham o sistema em rotação, consórcio e/ou sucessão de culturas. Este manejo, com aporte superior a 12 t/ha/ano de matéria seca evidencia a possibilidade de descompactação e manutenção do solo descompactado no decorrer dos anos, reduzindo os riscos de perdas por erosão e de quebra de safra por veranicos.


 FEBRAPDP: O senhor pode detalhar algumas características médias de cada uma dessas principais culturas de inverno para o sistema? Por exemplo: volume produzido de matéria seca, tempo de cobertura do solo, custo de implantação, exigências de manejo e operacionais, etc.


 Jorge Lemainski: O preço dos produtos e dos insumos são determinantes para o avanço ou recuo na área plantada. O custo de produção é muito relativo. Pode variar em função do sistema de manejo aplicado à cultura, à infraestrutura da propriedade, às condições da fertilidade do solo e do comportamento agroclimático, dentre outros aspectos. Uma lavoura com produtividade de 106 scs/ha é muito provável, terá uma rentabilidade significativamente maior do que a que obtiver 40 scs/ha.


 Sob o ponto de vista de forrageiras de inverno, por exemplo, o trigo de duplo propósito BRS Tarumã, tem o ciclo da emergência a espigamento de 110 dias e da emergência à floração de 162. A semeadura pode ocorrer a partir de abril com início de pastejo de 45 a 70 dias da emergência, chegando a uma produção de matéria seca em torno de 6,5 t/ha. Resultados em propriedades rurais indicam rendimento do trigo de duplo propósito de 100 a 350 kg/ha de carne, ou de 2 mil a 4 mil kg de leite por hectare – que cobrem o custo de produção -, tendo a colheita de grãos de 1500 a 4.5000 kg/ha de grãos de trigo, tipo pão, como renda líquida.


 O Centeio BRS Serrano chega a produzir de 8 a 13 t/ha de matéria seca, sendo mais indicado para o pastejo. O triticale pode ser utilizado no pastoreio, silagem e na produção de grãos, podendo atingir até 125 sc/ha de grãos, com ciclo próximo de 150 dias e produção de matéria seca na ordem de 8 t/ha. A aveia preta BRS Centauro, com ciclo de 155 dias, produz em torno de 6,5 t/ha matéria seca ou cerca de 45 t/ha de matéria verde. 


 Cabe ressaltar que a construção de um solo fértil requer aporte de material orgânico em quantidade, qualidade e frequência. O alto aporte de palha e raiz é o caminho para melhorar as taxas de infiltração de agua no solo e maior estabilidade dos sistemas de produção.


 A valoração de bens não tangíveis na agricultura brasileira é uma variável necessária para a compreensão e tomada de decisão. A mineralização do material orgânico aportado ao solo no ambiente tropical brasileiro, levando ao aumento do teor de matéria orgânica lábil (fresca) e, depois à matéria orgânica estável (química e fisicamente protegida) no solo, contribui para a estabilidade e crescentes ganhos de produtividade das safras. Apenas por argumentar sob o ponto de vista da valoração da matéria orgânica com base em estudos de Wiethöltehr. A energia de 1% da matéria orgânica presente em 1 hectare de lavoura corresponde à energia contida em 8.333 litros de óleo diesel. A considerar o valor de R$ 3,05/litro de diesel, a valoração de 1% de teor de matéria orgânica no solo corresponde a R$ 25.040,00/ha.


 Os cereais de inverno além de excelentes forrageiras, constituem-se em material de excelência para cobertura de solo, contribuindo para a redução das perdas de solo e nutrientes por erosão, estruturação do solo, manejo de plantas daninhas e a consequente redução dos custos de produção dos cultivos de verão – soja e milho, isto é, a melhor safra de verão é preparada no inverno.



Plantio em contorno e rotação. Foto: Paulo Kurtz


 


Da Redação FEBRAPDP - 01/06/2018 - 13:47:19


Imprimir Fazer PDF Compartilhar por E-mail
404 notícias encontrados. 41 páginas. Mostrando página prAticas-sustentAveis-E-foco-de-discussAo-no-lanCamento-do-16O-enpdp
Buscar em NOTÍCIAS:
SEDE
Avenida Presidente Tancredo Neves, N° 6731
Parque Tecnológico de Itaipu
Edifício das águas 2° Andar sala 201.
CEP: 85867-900
Foz do Iguaçu - Paraná - Brasil.
+55 45 3529-2092
febrapdp@febrapdp.org.br
FEBRAPDP - Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação
Filiada à CAAPAS
Confederação das Associações Americanas para uma Agricultura Sustentável


Correspondência
Caixa postal: AC PTI 2140
CEP: 85867-970
Foz do Iguaçu - Paraná - Brasil.