Bioanálises
A saúde do solo ao alcance do produtor

Da Redação FEBRAPDP 20/04/2018

Uso de bioindicadores é tendência e deve ganhar força já a partir da próxima safra

 Da Redação FEBRAPDP

A safra 2018/2019 deverá ter uma grande novidade para o agricultor brasileiro: as bioanálises incorporadas às análises laboratoriais de solo. Inédita no mundo em termos de rotina, a verificação dos bioindicadores tornará possível avaliar de forma mais objetiva a real saúde do solo.

Na prática, os bioindicadores equivalem a uma espécie de exame de sangue do solo. Servirão de suporte para o produtor tomar decisões com relação à sua estratégia de manejo de solos. Para quem está com bons níveis, servirá como referência para mostrar que ele está no caminho certo, para o que não está, servirá como alerta para ele entender o que precisa mudar.

Em trabalho apresentado na reunião da equipe do projeto Rede de Pesquisa SoloVivo, que aconteceu no início deste mês em Curitiba, PR, a pesquisadora Ieda Carvalho Mendes, da Embrapa Cerrados mostra, em resumo, que solos biologicamente ativos são mais saudáveis e, necessariamente, mais produtivos. No entanto, nem todo solo produtivo é biologicamente saudável. E o trabalho vai mais além: o equilíbrio químico atestado nas análises de solo tem grandes chances estar mascarado pelo uso dos fertilizantes e pesticidas. As bioanálises mostram isso.

Ieda explica que os bioindicadores são mais sensíveis para detectar os efeitos diretos do manejo na saúde do solo. “Muitas vezes os solos podem ser quimicamente semelhantes, mas biologicamente totalmente distintos em função do manejo”, detalha.

 

Baixo custo

Serão agregados dois parâmetros microbiológicos relativos às atividades de duas enzimas do solo: β-glicosidase e arilsulfatase, que darão ao produtor rural uma boa perspectiva do funcionamento biológico do solo.

Da formação da matéria orgânica até a ciclagem de nutrientes, passado também pela biorremediação de pesticidas, tudo é efeito da atividade enzimática. Especificamente falando, a β-glicosidase atua na etapa final da decomposição da celulose, enquanto a arilsulfatase atua na ciclagem do enxofre orgânico.

As duas foram selecionadas para servirem como bioindicadores nas análises de solos porque, além de já serem estudadas há 25 anos, são muito sensíveis para detectar as alterações do solo que acontecem em função do manejo. Sua verificação é simples e qualquer laboratório de análise comercial do Brasil pode fazer hoje, sem necessidade de aquisição de equipamentos extras. Em termos de custos, são baratas e vão representar muito pouco no valor das análises de solo que o produtor já paga atualmente.

 

Entendendo o aumento de qualidade

Com o crescimento da adoção de sistemas conservacionistas como o Plantio Direto, a Integração Lavoura-Pecuária e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, foi percebido que valer-se apenas dos parâmetros relativos à química do solo não era suficiente. Para obter respostas satisfatórias sobre a revolução qualitativa que está acontecendo no solo em função do sistema de manejo empregado seria preciso aprofundar as análises.

“Esses sistemas conservacionistas melhoram muito a qualidade do solo, e esses aspectos de qualidade e, sobretudo, saúde do solo passam despercebidos quando nos restringimos somente aos dados que as analises químicas trazem”, observa Ieda.

As bioanálises são resultado do Projeto Bioindicadores de Qualidade do Solo, que atua em conjunto com o Rede de Pesquisa SoloVivo, ambos da Embrapa. A ideia é que os componentes biológicos integrem as análises de rotina de solos feitas nos laboratórios comerciais. Segundo a pesquisadora, a previsão é de que já a partir do segundo semestre deste ano, a Embrapa comece a capacitar os laboratórios comerciais para adotarem os procedimentos da bioanálise de solo.

 

Estrutura reforçada

Um dos exemplos de benefícios da atividade biológica do solo citados por Ieda Mendes diz respeito a um experimento conduzido em Rondonópolis, MT. Na safra 2013/2014, houve um veranico muito forte na região, numa área sob Plantio Direto e, onde uma das culturas de cobertura era a braquiária, a produtividade subiu em 30 sacas/ha em comparação a uma outra área também em Plantio Direto, mas sem cultura de cobertura. Isso reflete o quanto um equilíbrio viabilizado pela presença de uma planta bioativa no sistema, pode melhorar essa estrutura do solo.

“O primeiro passo na escalada da melhoria de um solo é a atividade biológica que precisa ser ativada, seja através da rotação de cultura, da adoção do Plantio Direto, da incorporação da braquiária, etc. Ativando os microrganismos, com o tempo, o produtor terá mais matéria orgânica, mais ciclagem de nutrientes, melhor agregação, melhor estrutura, maior capacidade de armazenamento de água é só mais, mais, mais e quem primeiro detecta esses efeitos é a parte viva do solo, são os bioindicadores. Com eles podemos acessar a ‘memória’ do solo. Cada tipo de manejo deixa no solo, uma espécie de impressão digital”, diz ela.

Todo solo biologicamente ativo é saudável e produtivo. E ele não só requererá menos aplicação de insumos, como também fará um uso maximizado dos insumos que forem adicionados.

De acordo com Maurício Lopes, presidente da Embrapa, o modelo reflete com métricas sólidas os ganhos que os sistemas conservacionistas estão trazendo para a qualidade do solo e de sua biologia. “Representa a revolução da produção sustentável e inteligente de alimentos necessária para os próximos anos da produção de alimentos no cinturão tropical do globo. Uma agricultura intensificada, de baixa emissão de carbono, que respeita os nossos recursos naturais mais importantes”, afirma ele.

 

Tabelas

Abaixo, as tabelas de interpretação para bioindicadores do solo. De posse das análises, é possível entender em que nível o solo está: baixo, moderado e adequado. Para cultivos anuais sob Plantio Direto (Tabela 1) e outra para solos sob Plantio Convencional (Tabela 2).