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16º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha
Plantio Direto e os seus desafios em diferentes manejos

Por Fernando Ribeiro Sichieri,


Engenheiro agrônomo e coordenador do Projeto Arenito do Vale



Plantio Direto é uma tecnologia muito usual e praticada extensivamente por mais de três décadas pelos sojicultores brasileiros do Norte ao Sul deste país continental. Nesse contexto, sabemos que muitas afirmações de que “eu faço Plantio Direto”, se levarmos ao pé da letra a “técnica”, seria “eu faço plantio com plantadeiras de Plantio Direto" ou "eu não revolvo meu solo para plantar a cultura posterior”. A não utilização do plantio convencional na maioria dos 35 milhões de hectares de soja e 17 milhões de hectares de milho cultivados no Brasil, anualmente, nos trazem fabulosas divisas produtivas e ambientais para as áreas de culturas anuais, benefícios que não temos nas culturas semiperenes, em parte das áreas cultivadas com um relevo mais acentuado, principalmente no Centro-Sul do País.


As culturas anuais com maiores áreas plantadas, como soja e milho, não são estabelecidas, em sua maioria, em sistemas convencionais, conforme ocorre nas demais culturas de grande representatividade econômica e social, como cana-de-açúcar, mandioca, amendoim e outras. Vamos aos fatos: é rotineiro observarmos nas estações chuvosas da primavera/verão áreas sendo preparadas convencionalmente, com grande revolvimento de solos para plantio ou renovação destas culturas. Inevitavelmente, temos tido grandes problemas com erosões hídricas, principalmente em solos arenosos, acarretando em um aumento dos custos de produção, como também uma forte queda de produtividade por área, devido ao deslocamento das partículas de solos e minerais do solo, para as bases das curvas, áreas mais baixas, rios e córregos. É quase uma unanimidade que os agricultores de culturas semiperenes buscam um solo que tenha profundidade de 30 a 40 centímetros, com ausência de camadas impermeáveis, e que seja solto, poroso e friável para possibilitar o fácil crescimento das raízes.


Para propiciar essas condições, realiza-se o preparo que, de acordo com Howeler et al (1993), deve proporcionar um bom rompimento do solo para possibilitar melhor drenagem e aeração, reduzindo as podridões de raízes, como diminuição e sistemas radiculares, aumentando a produtividade, facilitando a colheita e reduzindo os danos das raízes durante essa fase. Entretanto, a associação de sistemas de preparo que resultam em pequena quantidade de palha remanescente sobre o solo oferece reduzida proteção à superfície do solo no período inicial de desenvolvimento para essas culturas, ficando assim expostas a altas temperaturas de solo e erosões hídricas.


Com isso, podemos concluir que os grandes desafios estão na dificuldade de mecanizar o Sistema de Plantio Direto (SPD), produção de cobertura morta de qualidade, com bom volume e alta relação C/N dessa palhada, proporcionando uma maior proteção à cultura posterior e, consequentemente, com maiores benefícios. Conceitualmente, temos que quebrar o paradigma de que para termos a produtividade almejada com segurança não é necessário, na maioria das áreas, a subsolagem, aração e gradagem em solos que não apresentam alumínio e têm um bom perfil de solo. Temos vários trabalhos de PC x PD, capitaneados pela Embrapa em parcerias com usinas, fecularias e produtores rurais, que trazem resultados consistentes para termos mais práticas de Plantio Direto com inclusão de outras culturas no sistema.


Milho em PD na renovação de canaviais — A Agropecuária Paschoal Campanelli, de Bebedouro/SP, é um ótimo exemplo de sucesso com a inclusão do PD de milho entre a renovação dos canaviais, sendo na sua maioria a utilização apenas de um subsolador ou discos de maiores polegadas para um bom plantio nas touceiras do canavial a ser reformado. Se referindo à cana-de-açúcar, os técnicos e produtores citam que os principais fatores que contribuem para pouca utilização do SPD está relacionado à correção da fertilidade do solo (calagem, gessagem e fosfatagem), controle de pragas do solo e sua descompactação, além do controle de plantas daninhas.


Em relação à correção da fertilidade do solo, a cana-de-açúcar, ao longo dos sucessivos cortes, extrai grande quantidade de nutrientes dele. Por exemplo, em um ano de cultivo, a extração de nutrientes em um hectare se dá na seguinte sequência: K (325 kg/ ha); Ca (226,5 kg/ha); N (179,0 kg/ ha); Mg (86,9 kg/ha) e P (25,4 kg/ ha). Dessa maneira, ao longo de quatro ou cinco anos de cultivo, a extração de nutrientes é intensa, ocasionando a redução da fertilidade, sendo necessária, portanto, a reforma do canavial para reconstrução da fertilidade do solo. Como a extração de nutrientes é muito grande, torna-se extremamente difícil a reposição deles somente com a adubação de cobertura, com especial destaque ao controle do pH através da calagem. No entanto, já existem diversos estudos que demonstram que é possível ter canaviais com alta longevidade e produtivos sem a reforma do canavial, como também diversos estudos com o uso do Plantio Direto na cultura da cana-de-açúcar.


Estamos convictos de que, se não tivesse havido o advento do SPD no Brasil, nenhuma tecnologia teria sido tão eficiente na elevação da produtividade das culturas anuais. Mesmo com todos os excelentes estudos realizados nas décadas de 1970, 1980 e 1990 na área de conservação do solo e da água, sem o SPD a erosão teria inviabilizado boa parte das áreas agrícolas atuais, aumentando os custos de produção e incentivando à expansão das nossas fronteiras agrícolas para compensar a redução da produtividade.


É observado que a produção está centrada em soja e milho, o que diminui a diversificação de espécies cultivadas. A não utilização do SPD conforme seus fundamentos está comprometendo esta técnica como ferramenta da Agricultura Conservacionista com potencial para suportar a sustentabilidade a campo. Os maiores benefícios resultantes da implementação do Plantio Direto no Brasil estão diretamente relacionados à redução da intensidade da erosão hídrica, à redução dos custos de produção e à otimização do tempo, potencializando a área para um maior aproveitamento de culturas durante o ano.


É importante ressaltar que, apesar das dificuldades de implantação do SPD nas culturas da cana-de-açúcar e mandioca nos últimos anos, vários estudos com Plantio Direto têm demonstrado que é possível o uso desse sistema nas culturas semiperenes. Além do Plantio Direto, o cultivo mínimo é outro sistema que também tem sido bastante utilizado na cultura, principalmente em plantio após cultivo de amendoim, crotalária, milho, soja, entre outras.


A Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), de Ribeirão Preto/SP, vem, desde 1998, validando um projeto de longo prazo com dois sistemas de manejo (Plantio Direto x plantio convencional), com diferentes doses de calcário, tendo a soja como cultura de sucessão. Ao longo das safras, vários aspectos favoráveis vêm se destacando para adoção do Plantio Direto na reforma da cana crua, mas também existem muitos desafios, tais como a compactação nas camadas superficiais, o pisoteio de soqueiras pelas colhedoras mecânicas, a presença de alta infestação de pragas de solos (Migdolus sp. e Sphenoforos sp.) de difícil controle e mesmo a correção de alumínio em subsuperfície. Todavia, as avaliações comerciais têm sinalizado que esses problemas podem ser contornados e, mesmo assim, é possível realizar a prática do Plantio Direto, tendo um ponto fundamental para esses resultados positivos, a rotação com leguminosos, tendo a soja como a cultura de grande sinergia.


 Embora as bases experimentais e comerciais ainda estejam validando os resultados produtivos e técnicos, nota-se uma maior concentração em Latossolos e espera-se que possa ser realizado também nos Nitossolos e Argisolos, tendo esses fertilidade natural mais elevada, o que contribui fortemente para uma vida mais longa de canaviais e mandioca de ano e meio. O caminho ainda será longo para que as novas técnicas de Plantio Direto sejam utilizadas em grande escala nas culturas semiperenes mas esse caminho também foi percorrido pelos agricultores e técnicos de culturas anuais. Podemos ter certeza que, embora para estes o caminho seja mais curto, pois a dinâmica de plantio e colheita seja de quatro a cinco meses, a quebra de paradigma foi essencial para que hoje ninguém, destes milhares, tenha saudade do pátio cheio de grades, tombadores, subsoladores etc.


Artigo originalmente publicado na Revista A Granja

Por Fernando Ribeiro Sichieri - 06/04/2018 - 11:41:46


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