Sistema Plantio Direto é o caminho para incrementar o desempenho da agricultura nacional

28/04/2017

Manejo, produtividade e mitigação de gases

Fonte: LABMOS
Fonte: LABMOS
 Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimam que 33% dos solos do mundo estão degradados, impactando diretamente entre 20 e 40% a produção de grãos no planeta. No Brasil, a previsão é que a safra deste ano cresça consideravelmente em relação à última, que registrou 186,1 milhões de toneladas (IBGE). Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a expectativa é atingir 215,1 milhões de toneladas de grãos em 2017. João Carlos Moraes Sá, pesquisador e professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), ressalta, no entanto, que a adoção de manejos construídos sobre os pilares do Sistema de Plantio Direto ainda poderia incrementar em 20% o desempenho da agricultura.
Membro do Laboratório de Matéria Orgânica do Solo da UEPG, entidade filiada à Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP), o pesquisador ressalta que é necessário investir na conscientização dos produtores rurais em relação à importância da manutenção do material orgânico para a qualidade do solo e o aumento da capacidade de produção.
TABELA 1
TABELA 1
“Embora tenha ocorrido uma melhora da quantidade adicionada ao solo de resíduos culturais em todas as regiões do país, ainda está longe do ideal. Por exemplo, nas regiões tropicais (3 e 4 da tabela 1) onde as taxas de decomposição são muito elevadas temos apenas 44 a 56% das áreas amostradas com muito resíduo. Pesquisas na região Sul do país indicam que para manter o equilíbrio de carbono (entradas – saídas = 0) no solo devemos adicionar quantidades de resíduos entre 6 a 8 ton/ha (Bayer et al., 2006; Amado et al., 2010), enquanto que nas regiões tropicais há necessidade de 11,5 a 13,5 ton/ha (Sá et al., 2015). Além disso, a adoção da rotação de culturas tão recomendada e difundida nesses últimos 30 a 40 anos não atinge 50% das áreas em Sistema Plantio Direto. Portanto, se considerarmos o conceito de SPD, talvez tenhamos entre 15 a 25% das áreas funcionando em sua plenitude. O ganho que o incremento de 1 tonelada de C que acumula no solo pode gerar o aumento em 20 a 70 kg/ha de trigo e 30 a 300 kg/ha com o milho (Lal,2006). Corroborando com esses dados, Sá et al. (2015) estimou o ganho em soja por tonelada de C acumulado no solo em 28 kg/ha”, analisa.

 

Efeito Estufa

Outro desdobramento importante do tema é a vocação natural do SPD para minimizar a ação dos gases do efeito estufa, grande vilão do aquecimento global no mundo todo. De acordo com Sá, o Sistema Plantio Direto na América do Sul poderia contribuir na mitigação dos GEE, com cerca de 24 % (equivalente a 0,26 bilhões de toneladas/ano) das emissões globais provocadas anualmente pelo uso da terra.

“O SPD contribui para a atenuação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) podendo mitigar entre 0,5 a 2,18 ton de C /ha/ano (Diekow, et al., 2005; Bayer, et al., 2006; Cerri et al., 2007; Sá et al., 2006; Boddey et al., 2010; Sá et al., 2015; Corbeels et. al., 2016). O cenário atual das emissões globais de GEE devido a queima de combustíveis fósseis, produção de cimento e atividades humanas situa-se em 10,1 bilhões de toneladas de C /ano e as mudanças no uso da terra (incluindo atividade agrícola e desmatamento) é cerca de 1,1 bilhão de toneladas (Le Quére et al., 2014).”, explica Sá.

Em contrapartida, Carlos Eduardo Cerri, professor e pesquisador da Esalq /USP, considera bastante interessante a aplicação dos conhecimentos em áreas cultivadas hoje sob plantio direto no país. Segundo ele, nos últimos dez anos, a taxa de conversão de áreas de preparo convencional para áreas cultivadas em SPD é da ordem de um milhão de hectares por ano.

“Apesar dos esforços das agências de fomento estaduais e federal ainda pode-se dizer que os investimentos nessa linha de pesquisa são bem aquém da necessidade. O Brasil possui uma dimensão muito extensa; a área de SPD já atinge quase 30 milhões de hectares, o que requer uma complexidade de entendimento em função das diferentes condições edafoclimáticas, ou seja, solos variados em regiões diversas com climas diferentes e uma rotação de culturas bastante complexa, portanto investimentos mais elevados são necessários”, afirma.

Cerri encerra dizendo que o SPD é um dos processos mais eficientes para construção e preservação da matéria orgânica do solo, porque privilegia entradas de material orgânico contínuas no solo e proporciona pequenas saídas desse material para atmosfera. Ele aponta também outras técnicas de manejo, que adotam o mesmo princípio, como a Integração Lavoura Pecuária e os sistemas agroflorestais.

“Há uma tendência dessas práticas de manejo acumularem material orgânico no solo, diferente de práticas onde a entrada é muito pequena, por exemplo, as culturas que fornecem pouco material vegetal ou sistemas que fazem com que a saída seja muito grande, com excessivas arações e gradagens. Ou mesmo as monoculturas, em que o tipo de material vegetal que entra é sempre o mesmo, fazendo que, com o tempo, haja uma redução não só na quantidade como na diversidade de organismos, que são responsáveis pela alteração e estabilização da matéria orgânica do solo.”, conclui. 

Fonte: LABMOS
Fonte: LABMOS