O solo do Paraná é sua força! Vamos preservá-lo!

15/12/2021

Por Arnaldo Colozzi Filho, Coordenador Estadual da Pesquisa do Programa Recursos Naturais/Sustentabilidade

 

No dia 5 de dezembro, os países que integram a Organização das Nações Unidas (ONU) comemoram o Dia Mundial do Solo, data escolhida para celebrar e discutir com a sociedade a importância desse recurso natural como um dos pilares de sustentação da vida na terra. Mês passado, em Glasgow (Escócia), autoridades públicas, cientistas e representantes da sociedade civil de todo o mundo, reunidos na COP 26, destacaram a relevância do manejo sustentável do solo para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e o aquecimento da terra.

 

Para nós paranaenses, este deve ser um tema de permanente reflexão. Nosso solo, historicamente, tem sido o suporte de nossa economia e fonte de uma das maiores riquezas deste estado, a agropecuária, cujo resultado soma 33,86% do PIB do estado (IPARDES, 2020), podendo chegar a 40% se considerarmos toda a cadeia da agroindústria e de prestação de serviços correlata.

 

Portanto, da manutenção de condições climáticas adequadas e da preservação do solo e da água depende a continuidade e o sucesso da agropecuária, e a sustentabilidade da sociedade Paranaense.

 

Mas o Paraná tem do que se orgulhar! Dados recentes do Censo Agropecuário do IBGE apontam que 76,5% dos 5 milhões de hectares cultivados no Estado estão no sistema plantio direto (PD) (Fuentes-Lanillo et al., 2021). É o maior percentual de terras em PD no país.

 

Essa é uma liderança qualificada, aliada aos objetivos da ONU para descarbonificação da atmosfera. A prática do plantio direto no Estado advém do desenvolvimento e da transferência de tecnologias de modo regionalizado, que tem sido feita pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná IAPAR-EMATER (IDR-Paraná) e por várias instituições parceiras, com competência e obstinação.

 

Minimizar o impacto do cultivo agrícola e da produção pecuária sobre o solo e a água, com aumento na eficiência dos fatores de produção e dos processos produtivos tem sido a tônica dos investimentos em pesquisa e transferência de tecnologias, com a consciência de que ambos, solo e a água, são recursos naturais preciosos, de baixíssima ou quase nula taxa de renovação e com grande efeito no equilíbrio da atmosfera global.

 

A história de ocupação e uso do nosso solo nos ensinou que preservá-lo é garantir o futuro. Dos erros do passado, quando toneladas de solo eram arrastadas pelas chuvas para os rios, consequência da falta de tecnologias ou do uso de tecnologias mal adaptadas para a região, governo, organizações públicas, privadas e a sociedade desenvolveram capacidades para a busca de soluções técnicas e o treinamento continuado dos envolvidos na solução dos problemas.

 

Grandes ações e programas de manejo e conservação do solo foram executados pelo Governo Estadual através da Secretaria de Agricultura e suas vinculadas, com a adesão de grande parte dos principais atores do agronegócio no estado. Hoje, proposições que não privilegiem conservação do solo e preservação ambiental não têm aderência no Paraná. Movimentos retrógrados que tentam simplificar tecnologias preconizadas têm sido combatidos com afinco. Não cabe de volta em nosso meio a ideia da exploração do solo sem preservação.

 

A pesquisa e difusão, através da extensão rural, de técnicas de manejo adequado do solo merece grande atenção do IDR-Paraná, devido principalmente ao modo intensivo com que a agricultura é praticada no Estado, favorecida por características adequadas de clima, topografia e aptidão do solo.

 

O Instituto foi pioneiro nos trabalhos de pesquisa visando o uso dos terraços para o controle da erosão, no desenvolvimento e na difusão do sistema plantio direto como forma de proteção do solo e redução da erosão, e mais tarde, no desenvolvimento do conceito Plantio Direto de Qualidade, que preconiza o uso de rotações de culturas aliado ao terraceamento e ao não revolvimento do solo como os pilares básicos do PDQ.

 

Além disso, o Instituto tem proposto o uso de insumos oriundos da diversidade vegetal e microbiana tais como o cultivo diversificado de coberturas verdes, a potencialização do efeito de microrganismos do solo sobre o desenvolvimento e produtividade das culturas através da inoculação ou mesmo do aumento do potencial de inóculo natural do solo através do uso de plantas em cultivo consorciado, intercalar ou mesmo nas entrelinhas do cultivo principal.

 

Nesta linha de redução no uso de insumos químicos e potencialização dos bioinsumos, tema bastante atual na agricultura moderna, foram desenvolvidos estudos sobre manejo da adubação verde, com possibilidade de reduzir nitrogênio fornecido pela adubação química, com grande economia para o agricultor e principalmente para os produtores de orgânicos.

 

Também são desenvolvidos estudos que buscam adaptar culturas de cobertura aos sistemas de produção regionais, criando alternativas sustentáveis de renda a partir da exploração da diversidade vegetal nativa ou introduzida, como, por exemplo, a seleção e o melhoramento de espécies voltadas à produção de óleos vegetais para consumo humano ou produção de biodiesel como nabo forrageiro, amendoim, mamona, girassol, cártamo, pinhão manso e tungue, entre outras.

 

Pode-se destacar também a avaliação de sistemas integrados de produção de soja, mandioca e bovinos de corte na Região Noroeste Paranaense; eucalipto, soja, milho, aveia e bovinos de corte nas regiões Oeste e dos Campos Gerais do Paraná; soja, milho, aveia, alfafa e bovinos de leite nas regiões Norte e Sudoeste do estado. Cada projeto observa as condições de solo e clima de cada região, em busca da melhor configuração técnica e econômica que permita produzir com preservação do solo e da água.

 

Projetos de pesquisa com foco no manejo conservacionista do solo têm sido executados em redes multi-institucionais, integrando realidades regionais e competências distintas, com o objetivo de contribuir com o aperfeiçoamento das tecnologias atualmente praticadas. Como exemplo, a Rede Paranaense de AgroPesquisa e Formação Aplicada (Redeagro) que, desde 2017, coordena 35 projetos que coletam dados sobre a ocorrência de erosão em sistemas de produção representativos em seis mesorregiões no Estado. A iniciativa é executada pelo IDR-Paraná e por várias instituições de ensino e pesquisa que atuam no Paraná e financiada pelo Governo do Estado, através da Superintendência de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti) e da Fundação Araucária, e pela FAEP/SENAR-PR.

 

No que diz respeito à extensão rural, diversos projetos estão sendo executados junto aos agricultores do estado. O Projeto Grãos (soja, milho e feijão) desenvolvido tradicionalmente por técnicos e agricultores de nosso estado, tem trazido resultados significativos na busca de uma agricultura mais sustentável, aliado a níveis de produtividade elevados.

 

Por outro lado, o sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH) tem se expandido. O SPDH permite um novo olhar sobre a importância do solo na produção de hortaliças. O tradicional revolvimento generalizado e preparo de canteiros, que ocasiona a desagregação do solo, é substituído por um revolvimento mínimo, localizado às linhas de plantio. O resultado é a promoção de estruturação do solo, redução na perda de solo para os corpos hídricos e aumento na presença de fauna edáfica e microrganismos no solo.

 

É neste ambiente profícuo de competências, responsabilidades e parcerias que o Governo do Paraná e o IDR-Paraná têm trabalhado, congregando forças e esforços no sentido do uso e manejo o mais qualificado possível do nosso solo, nas áreas rurais ou urbanas.

 

Em síntese, o uso e manejo conservacionista do solo é um processo de busca e aprendizado contínuo, que deve ser perseguido por toda a sociedade. A sustentabilidade é uma resultante da busca e aplicação dos novos conhecimentos e deve ser incentivada sempre.

 

O IDR-Paraná acredita na “Força Conservacionista” da sociedade paranaense e de suas organizações, e conclama a todos para que continuemos a trabalhar em prol da conservação do solo e da água no nosso Estado.