ILPF na pequena propriedade: da ciência à prática

02/12/2021

Da Redação FEBRAPDP

Foto: Emiliano Santarosa/Embrapa

 

A FEBRAPDP entrevistou esta semana o engenheiro agrônomo, consultor e professor Ronaldo Trecenti. Ativista da agricultura sustentável há 30 anos, ele realizou nesta quarta-feira, dia 1 de dezembro, um evento virtual no qual reuniu especialistas em torno de uma temática que torna mais próxima da pequena propriedade rural a possibilidade de utilizar a ILPF em seu sistema produtivo. Segundo Trecenti, a principal razão da primeira live de seu canal é levar aos pequenos produtores as informações técnicas que já se encontram disponíveis, mas precisam ser decodificadas para gerar renda e riqueza. Confira abaixo a entrevista. Para assistir à live na íntegra pelo YouTube, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=mYaupqGt6hg

 


FEBRAPDP - Quais as condições mínimas necessárias para se viabilizar essa tecnologia em espaços onde, muitas vezes, não se permite escalar a produção?

Ronaldo Trecenti - A viabilização da implantação da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) em qualquer propriedade depende de uma série de fatores que devem ser analisados pelo planejamento antes da sua adoção. Tudo deve começar pelo diagnóstico da propriedade, onde um profissional experiente vai fazer a sua caracterização e avaliar as condições de clima (precipitação, temperatura, ventos etc.) e solo (fertilidade química, física e biológica, topografia, profundidade etc.), o saber local, as atividades desenvolvidas, a infraestrutura e os recursos humanos e financeiros disponíveis. Ele deverá identificar os problemas encontrados, apresentá-los ao produtor, discutir as suas causas, efeitos e soluções possíveis e viáveis, e elaborar um projeto para implantação da ILPF considerando as condições da propriedade levantadas no diagnóstico, as demandas e condições de mercado da região para os produtos originados pela ILPF (grãos, carne, leite e madeira), a logística de acesso à propriedade, a disponibilidade de insumos, mão de obra, mudas e serviços na região, os recursos matérias, humanos e financeiros necessários e as possíveis fontes de financiamento. O projeto deverá indicar: o que será feito; porque será feito; onde será feito; quando será feito; como será feito; por quem será feito; e quanto custará.

FEBRAPDP - Quais as principais vantagens para o produtor e a sustentabilidade em seus vários aspectos, principalmente, no ambiental?

Trecenti - As principais vantagens da adoção da ILPF para o pequeno, médio e grande produtor são: a viabilização da recuperação das pastagens em processo de degradação, isto é, que estão apresentando queda na produção de forragem; a diversificação de atividades (lavoura, pecuária e floresta, e a geração de serviços ambientais passíveis de pagamento como a produção de água e os créditos de carbono) reduzindo a sazonalidade de uso da mão de obra e os riscos climáticos e de mercado; a intensificação da produção, isto é, o aumento da produção por unidade de área (hectare); e o aumento da renda e da qualidade de vida. A arborização das pastagens proporciona um aumento no conforto térmico aos animais, em função da sombra produzida pelas árvores, que se traduz no melhor desempenho com aumento na produção de leite e carne por animal e por hectare.

FEBRAPDP - Quais os principais desafios para implantação e manutenção?

Trecenti - Os principais desafios são: a falta de conhecimento da tecnologia pelos técnicos e produtores, em especial, dos benefícios econômicos, ambientais e sociais da sua adoção e dos requisitos para a sua implantação e manejo, visto que o modelo de formação técnica e de produção ainda predominantes é o da departamentalização (individualização do conhecimento) e da especialização das atividades (monoatividade: só pecuária ou só agricultura ou só floresta). Tanto a implantação como o manejo da ILPF exigem a integração dos saberes, das competências, dos atores e das atividades, isto é, é fundamental reunir e desenvolver conhecimento básico sobre o cultivo de grãos, forragens e árvores, e o manejo animal e da floresta, tudo isso na mesma área e ao mesmo tempo.

FEBRAPDP - Pode falar um pouco sobre o evento realizado nesta quarta-feira, 1? Qual a proposta central e motivação?

Trecenti - A proposta da realização da “LIVE ILPF na pequena propriedade: da ciência à prática” foi motivada pela minha experiência de vida profissional de mais de 30 anos, através da qual pude constatar aquilo que já se sabe, pouco se discute e menos ainda se enfrenta no nosso País, que é que grande parte das informações geradas pela pesquisa não chegam aos usuários, isto é, aos produtores rurais, em especial, às pequenas propriedades. As informações geradas pela ciência precisam ser decodificadas (adaptadas às realidades do campo) pela extensão rural e pela assistência técnica, e para agravar essa situação, as empresas públicas estaduais sofreram um processo de desmonte e depreciação nos últimos anos. Além disso a dificuldade de conectividade no campo tem agravado o problema de transferência e de uso de tecnologias no meio rural, evidenciado pela pandemia da covid-19.

FEBRAPDP - Qual o balanço que você faz e a que conclusões obtidas?

Trecenti - Sem falsa modéstia o balanço foi bastante positivo, considerando que sou semianalfabeto digital, isto é, estou me reinventando e me adaptando ao “novo normal” onde tenho toda uma vida profissional alicerçada por atividades presenciais que vão da pesquisa e melhoramento genético à produção de  grãos (FT Pesquisa e Sementes e Sementes Selecta), à capacitação técnica (Associação de Plantio Direto no Cerrado-APDC/Federação do Sistema Plantio Direto-FEBRAPDP e Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior-ABEAS), ao planejamento, desenvolvimento agrícola e assistência técnica (Companhia de Promoção Agrícola-CPA CAMPO), à docência, ensino e instrutoria (Unoeste, Rehagro, Agrolink, SENAR Central e SENAR-DF) e à consultoria em boas práticas agrícolas (BPAs) para a agricultura de baixa emissão de carbono (ABC), para os Projetos ABC Cerrado e FIP Paisagens Rurais por meio da Pio Consultoria Agroambiental.
As conclusões foram muito claras e consistentes de que a ILPF é uma tecnologia altamente viável e sustentável para qualquer tamanho de propriedade, em qualquer lugar do Brasil, desde que seja adotada de forma planejada e gradativa, considerando os diversos fatores apresentados pelos prelecionistas e que os seus benefícios econômicos, ambientais e sociais atestam que ela é uma das melhores alternativas para a recuperação de áreas degradadas e para a intensificação sustentável da produção, credenciando-a como uma “inovabilidade”, segundo o Dr. Abílio Pacheco da Embrapa, uma junção de inovação com sustentabilidade.


FEBRAPDP - Há alguns anos, houve um esforço para que a ILPF passasse a integrar o conjunto de políticas públicas do governo. Como está isso hoje em dia e como ressoa sobre as propriedades de pequeno porte?


Trecenti - Hoje, com a realização da COP 26, a ILPF está na pauta principal das boas notícias do que o campo está fazendo em prol da sua competitividade e sustentabilidade, aquelas que a mídia nacional costuma dar pouca atenção e destaque e que beneficiam toda a sociedade, porque ela viabiliza a recuperação da produção em áreas degradadas, principalmente de pastagens, e o aumento da produção em áreas já cultivadas, reduzindo a pressão para a abertura de novas áreas, mitigando a emissão de gases de efeito estufa (GEE), possibilitando o sequestro de carbono pela sua adoção, somado do Sistema Plantio Direto e ao manejo adequado de pastagens e florestas, que geram a possibilidade futura de renda extra com o pagamento por serviços ambientais (PSA), por meio de programas como o Programa Produtor de Águas da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) e da venda de créditos de carbono, as tão propaladas pela bioeconomia e economia verde.