A dinâmica da agricultura em Mato Grosso do Sul

27/09/2021

Por Fernando Mendes Lamas, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste

Foto: Subsecom do Governo do Estado de MS

 

O ambiente de produção agropecuária de Mato Grosso do Sul passa por significativas transformações, tanto sob o ponto de vista quantitativo quanto pela diversificação de espécies vegetais e animais. A dinâmica do ambiente de produção proporciona nexos importantes para a sustentabilidade da atividade agropecuária do estado.

 

Municípios como Sidrolândia, Campo Grande, Maracaju, Dourados, Ponta Porã e Bandeirantes, dentre outros, apresentaram significativos aumentos na área cultivada com soja, na maioria dos casos em áreas antes ocupadas por pastagem, muitas delas com algum grau de degradação (Figura 1).

 

No ano agrícola de 2019/2020, Mato Grosso do Sul, rompeu a barreira dos três milhões e quinhentos mil hectares cultivados com soja, quando foram cultivados 3.529.000 ha de acordo com dados da AprosojaMS. O aumento da área cultivada com soja, mas não somente, altera de forma significativa a dinâmica da economia do município e do estado, em virtude dos vários elos da cadeia produtiva, e por conseguinte, melhora a geração de empregos e a renda das pessoas.

Figura 1. Evolução da área cultivada com soja em alguns dos municípios de Mato Grosso do Sul -Fonte: CONAB, 2021

Mato Grosso do Sul passa por um momento muito interessante quando se analisa a ocupação de seu território, aumento da área cultivada com soja, com eucalipto, com cana-de-açúcar e com milho. Importante também destacar o avanço da suinocultura, da avicultura e piscicultura no estado, além da melhoria do nível tecnológico da pecuária de corte, colocando o estado numa posição de grande produtor de proteína animal, com destaque para a qualidade da carne produzida.

 

A evolução da área cultivada em municípios como Campo Grande e Bandeirantes, com pouca tradição com a agricultura, vem apresentando aumento constante, dentro do período analisado. Nesses municípios também a agricultura está ocupando áreas antes com pastagens, na sua maioria com algum nível de degradação. Cabe destacar que, pastagem degradadas, além de sua baixa rentabilidade sob o ponto de vista econômico, constitui-se em um grande passivo ambiental. Alterações na ocupação do solo de Mato Grosso do Sul, não se restringem apenas aos municípios já citados, mas outros como Jaraguari, Camapuã, Itaquiraí, Paraíso das Águas, Nova Andradina, Anaurilândia, Naviraí e Ribas do Rio Pardo estão tendo suas áreas cultivadas significativamente aumentadas.

 

Na região de Três Lagoas, Selvíria, Água Clara e Inocência, a silvicultura, ocupa uma expressiva área, na maioria, antes ocupadas com pastagem degradadas. Recentemente foi anunciada a implantação de uma indústria de papel e celulose, tendo como matéria prima o eucalipto, em Ribas do Rio Pardo, o que tornará Mato Grosso do Sul um dos maiores produtores de celulose do Brasil. De acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar de Mato Grosso do Sul (Semagro), a área ocupada com pastagem vem decrescendo significativamente, o mesmo não acontece com o rebanho bovino. Com isso, é possível afirmar que a capacidade suporte das pastagens está aumentando, devido ao uso de tecnologia na sua formação e intensificação da pecuária de corte (https://bit.ly/3lY8lUS).

 

Produtos que até então eram de pouca ou nenhuma expressão, passam a ser produzidos no estado, podendo se destacar a melancia, a goiaba, o maracujá, o abacaxi e as folhosas. Esses produtos são produzidos na sua maioria, por pequenos agricultores. Nas diversas regiões do estado também se constata um aumento significativo de áreas irrigadas, o que contribui para redução do impacto de eventuais períodos de ocorrência de “veranicos”, muito frequentes em Mato Grosso do Sul, além de proporcionar condições para a intensificação da produção agropecuária. São grandes as possibilidades para a expansão da agricultura irrigada em Mato Grosso do Sul.

 

Oportuno destacar que todo o processo de transformação em andamento no estado se dá em bases tecnológicas consistentes. A pesquisa agropecuária em Mato Grosso do Sul, por meio das unidades da Embrapa (Dourados, Campo Grande e Corumbá), das Universidades (Federal de Mato Grosso do Sul, de Dourados, Estadual de Mato Grosso do Sul, Católica Dom Bosco, Unigran e Anhanguera), do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, com campus em diversos municípios, as Fundações de Pesquisa (Chapadão e MS), dentre outras instituições geram tecnologias que, ao serem incorporadas aos sistemas de produção, asseguram a sua viabilidade.

 

As transformações que estão ocorrendo na agricultura do estado, em primeiro lugar diversificam a matriz econômica, tornando-o grande produtor de grãos, fibra, energia, açúcar, papel, celulose e carnes (bovinas, suína e de aves), além da piscicultura em sistemas intensivos de produção, aproveitando o grande potencial formado a partir das usinas hidroelétricas especialmente no rio Paraná. Com a diversificação da matriz econômica tem-se também mais oportunidade de emprego, melhoria da renda e por conseguinte, da qualidade de vida da população do estado.

 

A posição geográfica de Mato Grosso do Sul, o ambiente tecnológico, as características de clima e solo e a capacidade empreendedora daqueles envolvidos com a produção agropecuária, não deixa dúvida do quanto a agricultura do estado deverá crescer. Interessante destacar que, junto com o aumento da área cultivada com soja e milho, principalmente, cresce a agroindústria, como esmagadora de soja em Dourados, projetos para implantação indústria de transformação do milho em etanol, em Dourados e Maracaju, por exemplo. Paralelamente ao crescimento da agricultura, verifica-se aumento no processo de agroindustrialização no estado.