Sucessos e insucessos do uso combinado de cama de aviário e calcário

11/02/2021

Por Engenheiros-agrônomos e doutores Jonatas Thiago Piva, professor do curso de Agronomia UTFPR/Campus Santa Helena, e Luís César Cassol, professor do curso de Agronomia UTFPR/Campus Pato Branco

Somente no Paraná, dos cerca de 5,5 milhões de hectares cultivados com soja, milho e feijão, mais de 90% são em área de SPD - Foto: Divulgação

 

Em condição natural, os solos brasileiros são, em geral, ácidos, pobres em bases trocáveis e deficientes na maioria dos elementos essenciais, por conta da elevada taxa de intemperização. Nessas condições, os usos de calcário (para corrigir problemas de acidez e fornecer bases) e de adubos (para repor os nutrientes) são práticas fundamentais para o sucesso da agricultura brasileira.

 

Além dessas, o manejo do solo com sistemas conservacionistas é fundamental para a preservação da qualidade estrutural e para a adição de matéria orgânica. Atualmente, o sistema plantio direto (SPD) ocupa, aproximadamente, 33 milhões de hectares no Brasil. Somente no Paraná, dos cerca de 5,5 milhões de hectares cultivados com soja, milho e feijão, mais de 90% se encontram alicerçados no SPD. Esse sistema é caracterizado pelo mínimo revolvimento do solo (somente na linha de semeadura), pela rotação de culturas e pela manutenção dos resíduos culturais sobre a superfície do solo, protegendo-o contra os agentes erosivos, desde que associado com outras práticas conservacionistas.

 

Há mais de 20 anos, em uma série de estudos, foi demonstrado que a aplicação de calcário em superfície (sem incorporação) no SPD aumenta o pH, os teores de cálcio e de magnésio e a saturação por bases, além de reduzir a acidez potencial na camada superficial do solo e também em subsuperfície, podendo alterar pH e teor de alumínio além dos 60 centímetros de profundidade, apesar da baixa solubilidade do calcário.

 

Calagem e adubo orgânico

 

Porém ainda é pouco estudado o efeito da interação da calagem com o uso de adubo orgânico. Principalmente a cama de aviário, que pode apresentar efeito corretivo na acidez do solo, já que, em sua composição, pode ter óxido de cálcio (CaO), a cal virgem, que tem um efeito corretivo superior ao carbonato de cálcio (CaCO3), popularmente conhecido como calcário.

 

A cama de aviário pode neutralizar o alumínio trocável (Al3+) devido à presença da cal virgem utilizada na desinfecção de aviários e granjas. Também possui um excelente valor fertilizante. Porém o seu uso indiscriminado e sem controle pode trazer problemas de alcalinização dos solos, além de representar alto risco de contaminação ao meio ambiente quando utilizado e manejado inadequadamente.

 

Critérios técnicos

 

Dessa forma, o uso da cama de aviário deve seguir os mesmos critérios técnicos utilizados pelos produtores que utilizam adubo mineral. Ou seja, a definição da dose a ser aplicada depende da condição nutricional do solo, caracterizada pela análise de solo, e da concentração de nutrientes presentes no resíduo. A dose utilizada deve beneficiar a cultura em uso, sem prejuízos ao meio ambiente.

 

Pelo exposto, percebe-se que tanto calcário quanto cama de aviário são capazes de modificar as características químicas do solo ligadas à acidez. Isso significa que o uso em conjunto deve ser acompanhado regularmente pelos produtores com o intuito de evitar problemas referentes a uma possível alcalinidade dos solos, refletindo em mudanças na disponibilidade de elementos no solo e na dispersão de partículas de argila, favorecendo processos de erosão do solo, assim como alterações na composição da comunidade microbiana, responsável pelas transformações dos elementos no solo, como o nitrogênio, podendo refletir em maior ou menor emissão/perda de nutrientes na forma de óxido nitroso (N2O), metano (CH4) e outros para atmosfera.

 

Nesse sentido, a aplicação do calcário em dose e momento adequados possibilitará garantir condições químicas favoráveis para que as culturas expressem seu potencial produtivo. Isso associado ao sistema plantio direto, que deve ser empregado sem exceção, garantindo que o solo torne-se um ambiente propício ao acúmulo de carbono, fazendo com que ocorra a diminuição da emissão de gases do efeito estufa para a atmosfera. A mesma necessidade vale para a cama de aviário como alternativa ao uso de adubos minerais, de forma a se reduzir custos e buscar um menor impacto ao ambiente, por meio da mitigação dos gases de efeito estufa.

 

Experiência no Paraná

 

Dentro dessa temática, foi conduzido um estudo, com apoio da Fundação Agrisus (Projeto nº 2.762/2019), cujo objetivo foi avaliar o efeito combinado da aplicação de calcário (quatro doses) + cama de aviário (com e sem cama), sobre o desempenho das culturas de grãos (safra e safrinha) em SPD, e a emissão de gases de efeito estufa. Esse trabalho foi realizado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em um Latossolo Vermelho, numa condição de clima subtropical úmido (Cfa), no município de Santa Helena, Oeste paranaense, a 240 metros de altitude.

 

A aplicação de calcário na dose de 4 toneladas/hectare, em razão das características químicas do solo antes da implantação do experimento, apre-sentou as melhores condições para o desenvolvimento da cultura da soja (Figura 1). Já para a cultura do trigo na safrinha (inverno), a utilização de 8 toneladas/hectare de calcário – aplicado antes da semeadura da soja – mais o uso da cama de aviário na dose de 8 toneladas/hectare – aplicada antes do trigo – se mostrou mais eficiente em elevar a produtividade da cultura (Figura 2).

Importante destacar os baixos rendimentos observados tanto na cultura da soja quanto na do trigo. Para a primeira, o clima mais seco na fase final de desenvolvimento da cultura pode ter causado um efeito negativo, fazendo com que as produtividades ficassem abaixo do potencial produtivo esperado. Contudo, nas parcelas que receberam a maior quantidade de calcário, mesmo no curto prazo, pode ter ocorrido um melhor desenvolvimento do sistema radicular, favorecendo a absorção de água e nutrientes nas camadas subsuperficiais.

 

Ainda por problemas de seca, ocorreu um atraso na semeadura do trigo safrinha, a qual somente foi realizada cerca de dois meses após a colheita da soja. Esse atraso na semeadura, aliado com novas condições de baixa precipitação pluviométrica durante o ciclo, são as razões que ajudam a explicar a baixa produtividade da cultura.

 

Emissão de gases de efeito estufa

 

Para a emissão de metano (CH4) e de óxido nitroso (N2O) do solo, a utilização da cama de aviário aliada à aplicação do calcário não promoveu aumentos expressivos nas emissões comparada à testemunha. Pequenas variações foram observadas apenas nas avaliações realizadas com melhores condições de umidade do solo, onde os tratamentos com maiores doses de calcário promoveram emissões mais elevadas, embora ainda consideradas de baixa magnitude (dados não apresentados).

 

De qualquer forma, é importante o produtor ficar atento também a esse tipo de perda, especialmente porque, no ano em estudo – safra 2019/20 –, ocorreu um baixo volume de precipitação, o que pode ter reduzido as emissões de CH4 e N2O para a atmosfera, em razão da baixa umidade do solo, refletindo-se em baixa atividade biológica. No entanto, em condições favoráveis, o uso excessivo de calcário associado a doses elevadas de cama de aviário podem se constituir numa importante fonte de contaminação ambiental, se for manejada incorretamente.

 

Além disso, em trabalho semelhante em Pato Branco/PR, também foram observados problemas com acamamento de plantas de aveia pelo uso excessivo de cama de aviário. Convém ressaltar que, no referido trabalho, doses de até 12 toneladas/hectare de cama de aviário vêm sendo aplicadas todos os anos, desde 2011, sendo constatados valores extremamente elevados para P e K no solo, principalmente, os quais já podem estar situados em condições acima do limite crítico ambiental.

 

Respeito às condições de solo e ao SPD

 

A cama de aviário é uma alternativa viável de adubação que pode ser usada pelos agricultores, desde que respeitem as condições do seu solo e ambiente e apliquem em doses e momentos adequados. Tanto calcário quanto cama de aviário não promovem emissões significativas de gases de efeito estufa, porém isso depende muito da condição de umidade do solo e da quantidade utilizada.

 

Dessa forma, espera-se que os técnicos de campo e os produtores possam difundir e utilizar a adubação orgânica com cama de aviário associada à calagem, desde que os princípios do plantio direto sejam respeitados, uma vez que o uso desses dois produtos conjuntamente foi eficiente em manter as produtividades com baixa emissão de gases do efeito estufa, possibilitando, com isso, diminuir os custos, focando na sustentabilidade do sistema de produção.

 

 

Artigo publicado originalmente na Revista A Granja – fevereiro/2021