Como lidar com doenças da soja na safra 2020/21

Por Caroline Wesp Guterres, Gilmar Seidel, Elaine Deuner, Andiara Marchezan e Leonardo Graminho Tassi, Cooperativa Central Gaúcha, CCGL – Revista Cultivar 20/01/2021
Foto: Divulgação Revista Cultivar
Foto: Divulgação Revista Cultivar

Em anos desfavoráveis, como foi a safra de verão 2019/20, torna-se mais clara a importância da qualidade do sistema de plantio direto, considerando perfil de solo, rotação de culturas, quantidade de palha disponível e seus reflexos para a produtividade de soja. Áreas com bom perfil de solo tiveram prejuízos menores em função da seca em comparação a áreas onde houve limitação do desenvolvimento radicular em profundidade. Nos anos de elevada precipitação associada à semeadura isso também é evidenciado. Nas duas últimas safras, estima-se que 20% a 30% das áreas de soja do Rio Grande do Sul precisaram ser ressemeadas em função de problemas no estabelecimento da cultura, especialmente causados por patógenos de solo, como Phytophthora infestans, mais comum em solos compactados.

Entretanto, nos anos de menor precipitação, além dos prejuízos diretos para a cultura da soja, a pressão de doenças é menor. Na safra 2019/20, na área experimental da CCGL, em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, a precipitação foi de 365mm entre os meses de novembro e março, 460mm a menos do que o observado na safra 2018/19 (825mm no total). As temperaturas também foram mais altas, em média, aproximadamente 1,4°C acima do que na safra anterior, especialmente nos meses de dezembro, fevereiro e março, nos quais frequentemente superaram os 30°C. Com isso, a severidade de ferrugem, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi baixa, sendo a menor pressão observada nos últimos anos na região.

A Figura 1 mostra a evolução da ferrugem da soja nas últimas cinco safras, avaliada na cultivar BMX Lança IPRO, semeada na primeira quinzena de novembro e sem a aplicação de fungicidas. Observa-se uma variação na curva de progresso da doença entre as diferentes safras, diretamente relacionada com as condições de ambiente em cada ano. Porém, na safra 2019/20 a severidade final de ferrugem foi, em média, de apenas 6%.

Com o clima seco, a doença predominante na safra 2019/20 foi o oídio. No entanto, com a ocorrência de temperaturas muito altas, mesmo o oídio, doença favorecida por ambientes mais secos, teve pressão considerada média (entre 15% e 20% de severidade final), já que temperaturas acima de 29°C costumam limitar o seu crescimento. A incidência de manchas foliares foi baixa, com destaque para a ocorrência de mancha parda (Septoria glycines) e para o crestamento de cercospora (Cercospora kikuchii).

Em relação às aplicações de fungicida, na safra 2019/20 não houve resposta significativa na produtividade com a realização da aplicação de fungicidas no estádio V4, na chamada aplicação da capina. Porém, esta aplicação resultou em incremento médio no controle de manchas foliares de 33%. Alguns produtos resultaram em incrementos de até 45% de controle de manchas, quando comparados ao tratamento sem a aplicação em V4. Para controle de oídio esta aplicação também foi eficiente, respondendo, em média, por incremento de 88% no controle. Alguns tratamentos conferiram 100% de controle de oídio em relação ao tratamento sem a aplicação em V4. Os tratamentos que apresentaram controles superiores de manchas e de oídio foram os realizados com carbendazim 500g/L + flutriafol 84g/L, tetraconazol 80g/L + azoxistrobina 100g/L, propiconazol 250g/L + difenoconazol 250g/L, difeconazol 250g/L + ciproconazol 150g/L e tebuconazol 250g/L + trifloxistrobina 100g/L. Na safra 2018/19, com maior pressão de ferrugem e de outras doenças, a aplicação em V4 resultou em até seis sacos/ha de incremento produtivo.

Os dados de pesquisa gerados na última safra (2019/20) evidenciaram e reforçaram a importância da primeira aplicação de fungicidas para a manutenção do potencial produtivo da soja. Em estudo para avaliar a primeira aplicação, realizada aos 45 dias após a emergência, no estádio V8, observou-se que responde por uma variação no rendimento de grãos de quatro sacas/ha a até 12 sacas/ha, dependendo de qual fungicida foi utilizado no manejo. Para tal, as aplicações foram fixas a partir de R1, variando apenas o fungicida utilizado na primeira aplicação. Os fungicidas comerciais avaliados são apresentados na Tabela 1. Esta variação deu-se especialmente pelo melhor controle de oídio, septoriose e cercospora.

As variações de fungicidas nas demais aplicações resultaram em diferenças de um a oito sacos/ha (dados não apresentados). Além da importância de se levar em consideração a escolha dos ingredientes ativos, sempre com foco nas doenças de maior probabilidade de ocorrência em função das características da cultivar utilizada e do clima, o momento de início das aplicações é de extrema importância. Aplicações atrasadas, que ocorrem após o estádio vegetativo e o fechamento das linhas, costumam resultar em perdas médias de quatro sacas/ha a cinco sacas/ha, quando comparadas às aplicações iniciadas no vegetativo, antes do fechamento das linhas. Em anos de intensa pressão de ferrugem, esta diferença pode ser ainda maior. Na safra 2015/16, a de maior pressão dos últimos cinco anos (conforme Figura 1), a diferença média entre iniciar no estádio Vn ou em R1, com o mesmo número de aplicações, foi de 15 sacas/ha.

Figura 1 - Evolução de epidemias de ferrugem da soja nas últimas cinco safras. Cruz Alta, RS
Figura 1 - Evolução de epidemias de ferrugem da soja nas últimas cinco safras. Cruz Alta, RS

A primeira aplicação de fungicidas é fundamental para a assertividade no manejo de doenças. Muitas doenças são transmitidas via sementes ou estão presentes nos restos culturais, como as manchas foliares e a antracnose. A ferrugem e o oídio também podem ocorrer já no estádio vegetativo. Sendo assim, as aplicações iniciadas por volta de 35 DAE a 45 DAE favorecem o controle preventivo de doenças e garantem uma melhor cobertura de folhagem. Como as cultivares atuais têm uma maior participação do terço médio e inferior na produtividade e as doenças geralmente se iniciam no baixeiro, a cobertura eficiente desde o início do ciclo resulta em menor taxa de progresso das doenças. Como resultado, o controle é mais efetivo.

As previsões de clima para a safra de verão 2020/21 são de ocorrência de La Niña, com menores precipitações a serem observadas até o mês de fevereiro na região Sul. Em anos mais secos, a ferrugem tende a se estabelecer mais tarde. No entanto, o oídio geralmente aparece mais cedo. Sendo assim, nas primeiras aplicações é importante contemplar ativos que possuam eficiência de controle sobre oídio, mas também para manchas (já que o inóculo pode estar na semente ou na palha), como o tebuconazol, o tetraconazol, o epoxiconazol, o difenoconazol, o clorotalonil e o oxicloreto de cobre. Em trabalho variando o reforço utilizado nas duas primeiras aplicações de fungicida, observou-se que o uso de clorotalonil ou de oxicloreto de cobre resultou em controle superior de oídio, quando comparado ao reforço de mancozeb nas primeiras aplicações.

Desde a safra 2018/19 a CCGL monitora a disponibilidade de esporos de ferrugem no ar através de coletores de esporos instalados na sua área experimental. Embora exista variação na quantidade de esporos disponíveis durante o ano, principalmente em função das condições de clima, é possível detectar esporos mesmo na entressafra, provavelmente pela possibilidade de sobrevivência de inóculo em plantas guaxas de soja, já que o Rio Grande do Sul não realiza o vazio sanitário. No último ano a quantidade de esporos na entressafra foi baixa em razão da menor precipitação observada ao longo do ano.

Mesmo com a menor precipitação ocorrida em 2020, os coletores evidenciam que há a presença de esporos no ar. Os dados do número de esporos observados por cm2 de lâmina desde o mês de setembro de 2020 são apresentados na Figura 2. Geralmente o maior número de esporos está associado a períodos de maior precipitação.

Figura 2 - Flutuação no número de esporos de Phakopsora pachyrhizi em coletor de esporos instalado no município de Cruz Alta, RS

Figura 2 - Flutuação no número de esporos de Phakopsora pachyrhizi em coletor de esporos instalado no município de Cruz Alta, RS

Mesmo que haja a presença de esporos, o que vai determinar a ocorrência ou não da ferrugem no campo é o clima. Para que ocorra a penetração nas folhas, o fungo não necessita de chuva. Seis horas de molhamento, garantidas pelo orvalho, já são suficientes. O período de latência (tempo necessário para a produção de esporos) é mais influenciado pela temperatura. Em temperatura média de 26°C o período de latência é de aproximadamente seis dias. Em temperatura de 15°C, o período de latência vai de 12 dias a 16 dias. Após a infecção, para que a doença progrida no decorrer do ciclo da cultura, as chuvas são importantes. Embora os esporos de ferrugem possam percorrer longas distâncias através de correntes de vento, as chuvas prolongam o molhamento foliar, facilitam a liberação, a sobrevivência e a deposição de esporos, auxiliando na disseminação de inóculo e contribuindo para o aumento na severidade observada no campo.

Anos de La Niña não são sinônimos de ausência de ferrugem. A safra 2016/17 esteve sob influência do fenômeno La Niña. Nesta, houve um atraso no início da epidemia de ferrugem em função da menor quantidade de chuvas no início do ciclo. Porém, com a volta das chuvas, a severidade final de ferrugem sem a aplicação de fungicidas chegou a 80% (Figura 1).

É importante salientar, ainda, que as aplicações de fungicidas sob condições de estresse hídrico requerem alguns cuidados especiais, principalmente a partir do estádio reprodutivo, quando os riscos de fitotoxidez são maiores. As condições ideais para as aplicações de fungicida são de umidade acima de 60%, temperatura inferior a 30°C e ventos entre 3km/h e 10km/h, já que na ausência de vento pode ocorrer o fenômeno de inversão térmica, em que o fungicida não se deposita na folhagem, em função de deriva. Por isso, em períodos de déficit hídrico, geralmente as aplicações noturnas levam vantagem. O ideal, no momento da decisão de quando aplicar (se de dia ou à noite) é sempre conferir as condições de ambiente com aparelhos que meçam estas variáveis. Os mais indicados são os termo-higroanemômetros.

Figura 3 - Início das aplicações de fungicidas em Vn x Reprodutivo: diferença média ao longo dos anos foi de 5 sc/ha

Figura 3 - Início das aplicações de fungicidas em Vn x Reprodutivo: diferença média ao longo dos anos foi de 5 sc/ha

Ainda assim, não é sempre que o agricultor vai encontrar condições ideais para as aplicações. Nestes casos, para continuar respeitando os intervalos de aplicação, serão necessários ajustes no tamanho de gotas e no volume de calda. É importante evitar gotas muito finas ou muito grossas, dando preferência a um espectro de gotas de finas a médias, para reduzir os riscos de deriva e evaporação. Volumes maiores de calda (próximos a 100L/ha) também reduzem os riscos de fitotoxidez em condições de estresse hídrico.

Outro ponto que pode favorecer a ocorrência de fitotoxidez em condições de déficit hídrico é a utilização de fungicidas considerados mais quentes, como triazóis e triazontiliona. Por isso, em anos mais secos, a associação de fungicidas com comprovada ação sobre a fisiologia da planta pode atenuar os possíveis efeitos causados pelas aplicações de fungicida em condições de estresse hídrico.

No que diz respeito aos intervalos de aplicação, em anos mais secos estes podem ser um pouco mais flexíveis. Porém, as decisões devem ser tomadas de forma técnica, com base no monitoramento da lavoura, na sanidade das plantas e, claro, na condição fisiológica das plantas. Em trabalho realizado na CCGL na safra 2016/17, também de La Niña, foi observada uma redução na produtividade de 48kg/ha para cada dia de atraso nas aplicações de fungicida, quando comparados intervalos de 15 dias ou 20 dias, com o mesmo número de aplicações. Isso ocorreu em função do melhor controle de ferrugem quando se utilizaram os intervalos menores.

Quanto ao clima, não se sabe exatamente o que esperar da safra que se inicia. Porém, começando com boas escolhas, as decisões em relação ao número e aos intervalos de aplicações certamente serão mais fáceis e seguras. A assertividade no manejo de doenças começa cedo. Nada que já não seja de conhecimento público, mas sempre é bom relembrar!

Artigo publicado originalmente na Revista Cultivar – janeiro de 2021