Plantio Direto na fruticultura

20/12/2017

Afonso Peche Filho*

Pedro Maranha Peche**

 

 

Nos últimos cinquenta anos a maior inovação tecnológica na agricultura tropical foi sem dúvida o Sistema Plantio Direto. Mesmo com bases conceituais consolidadas, o plantio direto na fruticultura ainda não é uma unanimidade e carece de ações de difusão para que os conceitos venham a serem conhecidos, adotados e praticados pelos fruticultores. A implantação de pomares utilizando sistema convencional com a movimentação profunda do solo é ainda muito praticada, principalmente em pomares com fruteiras de clima temperado. Essa prática é popular por que permite correção química profunda, mas fragiliza o solo e facilita a ocorrência de erosão, principalmente no início da implantação do pomar. Atualmente a erosão e a compactação geram muitos problemas nos pomares brasileiros. São fatos de ocorrência generalizada no Brasil, que o fruticultor passivamente aceita comprometendo a longevidade e qualidade produtiva das plantas; principalmente em áreas de topografia acidentada.

Reconhecido hoje como a principal prática de manejo em áreas agrícolas, o plantio direto se bem implantado pode ser a solução definitiva para os problemas de redução da erosão em pomares e ainda pode resultar na construção de uma lavoura longeva e produtiva. O ponto de partida é adoção de um planejamento de implantação com base num diagnóstico bem feito, que contemple boas informações sobre a drenagem superficial, sobre a infiltração, sobre as condições químicas e das condições biológicas como é o caso da presença de nematoides, fusariose e outros agentes patogênicos, além das espécies de plantas invasoras.

Um ponto fundamental na fruticultura é o entendimento sobre as relações e o funcionamento do sistema radicular e partes aéreas das plantas cultivadas. As fruteiras exploram um grande volume de área, tanto na parte aérea quanto no solo e apresentam algumas características importantes no desenvolvimento de suas raízes que estão diretamente ligadas com as condições da copa e com as condições do solo. Uma planta que produz frutos normalmente tem seu metabolismo fisiológico muito relacionado com as estações climáticas, sendo o crescimento de raízes influenciado pela disponibilidade sazonal de alimentos fotossintetizados e pelas condições físicas, químicas e biológicas do solo. As variações de temperatura e umidade do solo interferem fortemente no desempenho produtivo da planta. A distribuição de nutrientes no perfil é um forte condicionador da concentração do tipo de raízes nos horizontes. As atividades biológicas diversificadas condicionam a saúde e longevidade produtiva das plantas.

Árvores frutíferas apresentam raízes que tem uma formação complexa. A raiz primária tem origem ainda na fase embrionária, na transformação da semente em plântula e durante a fase vegetativa a raiz principal cresce rapidamente buscando as grandes profundidades do solo. É nesta fase que o bom desempenho agrega à planta vantagem adaptativa aos períodos secos ou muito úmidos. Tornando-se lenhosa e definitiva, a raiz principal contribui muito com a sustentação e resistência da planta. Ramificações horizontais dão origem a raízes secundárias e não lenhosas, sendo estas responsáveis pela construção da “malha ou teia”, formando um intrincado sistema tubular com raio de ocupação muito maior que o raio ocupado pela sua copa. A grande área total das raízes secundárias é muito importante, pois são responsáveis pela absorção de água e sais minerais do solo. Das raízes secundárias saem longos filamentos (raízes terciárias) compostos de milhares de raízes muito finas (pelos absorventes) que exercem funções de absorção, condução de água e sais minerais, reserva e ainda de fixação da planta. Em função de todas estas características a preparação para implantação de um pomar no sistema plantio direto tem todo um referencial metodológico que busca qualidade e longevidade produtiva das plantas.

O primeiro passo começa a ser dado dois a três anos antes do plantio com a definição do local de instalação do pomar. Esse tempo é necessário para promover as adequações e correções necessárias para a eliminação de desarranjos de superfície, instalação de práticas conservacionistas, corrigir possíveis desequilíbrios no perfil do solo.

Com o local definido, é fundamental elaborar um plano de amostragem para coleta de solo com vistas a diagnosticar e avaliar as condições químicas, físicas e biológicas. Como regra básica a quantidade de amostras deve ser suficiente para caracterizar a variabilidade de toda área do terreno. É importante que esquema de amostragem seja do tipo malha com pontos equidistantes direcionados do centro para as laterais sempre no sentido de cobrir todas as partes do terreno. Um número acima de setenta amostras confere adequada confiabilidade estatística no processamento dos dados e na elaboração dos mapas de referência. Com esse tipo de amostragem é possível conhecer com detalhes a real situação ambiental do terreno. Para avaliar a situação das propriedades químicas é necessário retirar amostras de superfície (0-20cm) e de sub-superfície (20-40cm), lembrando sempre que é bom solicitar ao laboratório analises de macro e micro nutrientes. Para avaliar a situação das propriedades físicas as amostras de solo devem permitir analise das possíveis variações texturais e das variações de coloração; além da coleta é importante realizar a penetrometria e avaliar a RSP (Resistência do Solo a Penetração) bem como, se possível, determinar a velocidade de infiltração de água no solo. Com relação à avaliação da situação das propriedades biológicas o plano de amostragem deve permitir a analise nematológica determinando as espécies de nematoides presentes, bem como o nível de infestação. Além disso, a o plano de amostragem deve auxiliar na prospecção de doenças e pragas do solo e ainda a presença de plantas invasoras de difícil controle.

Com o auxilio de tecnologia SIG (Sistema de Informação Geográfica) e recursos da internet é importante selecionar gratuitamente uma imagem digital do local e assim obter um mapa planialtimétrico que vai auxiliar em todo planejamento das etapas seguintes.

Após a amostragem de solo o passo seguinte é planejar e realizar a sistematização do terreno e instalação de práticas conservacionistas. O período mais indicado para essas práticas é o outono, época de chuvas brandas e espaçadas permitindo a mobilização do solo sem riscos de provocar erosão. Com a definição das fruteiras a serem exploradas é possível planejar a posição e dimensão dos talhões e com isso os carreadores e unidades operacionais bem como todas praticas conservacionistas necessárias para promover a infiltração, captação, condução e dissipação das águas de chuva, alem de definir as culturas de rotação intercalar e cobertura do solo.

Com o terreno sistematizado e as práticas conservacionistas instaladas ainda no outono do primeiro ano deve-se realizar a aplicação de calcário e se necessário o gesso para correção antecipada da acidez e eliminação do alumínio e outras substancias tóxicas do solo. Neste mesmo período é indicada a semeadura de inverno que pode ser com culturas econômicas como o trigo, a aveia ou mesmo o milho safrinha entre outros, ou com culturas ditas como adubos verdes de inverno como o milheto, o chicharo ou as crotalárias.

No final do período de outono e começo do inverno o solo deve estar totalmente coberto e pronto para que toda a mobilização de solo ocorra de maneira gradativa consolidando a sua nova forma de ocupação e uso. As atividades programadas para o primeiro ano são finalizadas com o manejo da cobertura e o plantio direto da cultura de verão que deve ser instalada em meados de outubro ou inicio de novembro.

O segundo ano de preparação começa com a colheita da cultura de verão e uma nova avaliação das condições do solo para receber as fruteiras. Deve-se então novamente no outono realizar as retificações das práticas conservacionistas, realizarem as correções necessárias nas propriedades do solo e novamente semear uma cultura de cobertura no inverno e no início do verão manejar a palhada e implantar outra cultura de verão, respeitando um esquema de rotação.

Com o final da segunda safra de verão é esperado que o solo e a área estejam em ótimas condições de receber as fruteiras do pomar. Inicia-se então a definitiva semeadura da cultura que servir de cobertura no inverno e será à base de proteção da superfície do solo antes do coveamento para implantação das mudas.

Definida as dimensões e os insumos que vão compor a cova ou o sulco de plantio faz-se a marcação no terreno e sobre a palhada abre-se o solo para definitivamente instalar o pomar no sistema plantio direto. Nos primeiros anos e até quando possível utiliza-se as entrelinhas para instalação de lavouras em rotação intercalar.

 

*Pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas

**Professor de Fruticultura na Universidade Federal de lavras - UFLA