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“Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”


Verdades e mentiras sobre o paradigma agroquímico

 

Da Redação FEBRAPDP

 

Capa do livro
Capa do livro "Agradeça aos Agrotóxicos por Estar Vivo"
Lançado em julho deste ano, pela Editora Record, o livro “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital, vai além da provocação óbvia e propõe uma quebra de paradigma no debate acerca do manejo de produtos químicos na agricultura mundial. Num contexto onde a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe o uso do herbicida Paraquate e reavalia a toxicidade do Glifosato, ingrediente ativo mais comercializado no país, a publicação desmistifica o tema. Com informações desconhecidas do grande público, o autor reitera o estímulo necessário às políticas de boas práticas de produção e fiscalização no campo. 

A experiência de dez anos atuando como jornalista do agronegócio, somada a um período de dois anos debruçado sobre materiais científicos e a realização de mais de 50 entrevistas com especialistas do segmento credenciam o trabalho de Nicholas. Com uma referência bibliográfica de 30 páginas, o livro ostenta oito capítulos que provocam o leitor, dissecando verdades e mentiras sobre o papel dos produtos químicos na produção agrícola. 

“Tem muitas informações incorretas, divulgadas. Como jornalista eu visitei pelo menos 200 fazendas e a realidade que eu via no campo era bem diferente da que lia nos jornais da cidade. Eu sou de São Paulo e toda a opinião pública tem uma visão muito negativa desses produtos. Visitando as fazendas e conhecendo de perto a produção de alimentos eu vi que a história era completamente diferente, não tem ninguém passando mal. O que eles veem é um produto essencial para a produção e nem se cogita abrir mão desses produtos. Aí eu vi que tinha muitos mitos, muitas histórias mal contadas, contas malfeitas e resolvi botar isso num livro. Entrevistei mais de 50 especialistas entre médicos toxicologistas, biólogos, engenheiros agrônomos e outros especialistas, além de vários estudos científicos, vários livros... toda a informação que dou no livro é baseada em informação científica”, explica. 

O autor ressalta que o desafio constante da agricultura, de produzir cada vez mais com menos insumos e mais segurança, esbarra nas limitações da assistência técnica disponível. Ele enfatiza ainda que 99% da produção agrícola mundial utiliza agroquímicos, tecnologia que atualmente alimenta 7,3 bilhões de pessoas. Pesquisas mostram que a capacidade produtiva da agricultura orgânica é 34% menor do que a convencional, o que reduziria em um terço a comida disponível. 

Com o clima tropical e três safras por ano, o Brasil cultiva 99,5% das suas lavouras também de forma convencional. Vital explica que essa riqueza e fertilidade do solo local também propiciam comida para as pragas o ano inteiro, exigindo maior utilização de produtos químicos. No entanto, 80% desses produtos são destinados às grandes culturas, como soja, milho, cana e algodão, commodities que pouco chegam à mesa do consumidor. 

“Os agrotóxicos são muito importantes principalmente em países tropicais. Em países do hemisfério Norte, onde estão nossos principais competidores, EUA, Europa, no inverno rigoroso a neve cobre o solo e acaba esterilizando toda a área. Quando chega o momento do plantio, na primavera, o solo está limpo de pragas e há uma necessidade menor do uso de produtos químicos. E Voltando para o Brasil, é importante lembrar que 80% dos agroquímicos são usados em grandes culturas, como soja, milho, cana, algodão. A soja é muito pouco destinada ao consumo humano, a maior parte vira ração, óleo ou é exportada. O milho é a mesma coisa, a espiga é muito pouco comercializada, o resto é ração, exportação, parte vira até etanol. A cana também, o açúcar é refinado, etanol e álcool. E o algodão vira fibra. Tem muito defensivo usado para pastagem, florestas, produção de flores, e mesmo a parte que vai parar na mesa das pessoas é uma quantidade segura, se cumpridos os períodos de carência, são totalmente seguros. Os resíduos encontrados são medidos em partes por milhão, então o agroquímico é um insumo fundamental pra agricultura. O que precisamos não é lutar contra os produtos em si, mas pelo uso correto dessas tecnologias”, revela. 

De acordo com Nicholas, não há casos comprovados de morte por ingestão de resíduos de agrotóxicos no país, mesmo num cenário onde menos de 15% dos agricultores utilizam equipamentos de proteção. Além disso, dados do Ministério da Saúde relacionam somente 4,5% dos casos de intoxicação por agentes tóxicos aos pesticidas, sendo mais da metade dos episódios motivados por tentativas de suicídio. Ao passo, que medicamentos são responsáveis por 28% das intoxicações e os produtos de limpeza, por 8,5% dos problemas. 

Para ilustrar os baixíssimos riscos do consumo de agrotóxicos em geral, o autor cita o exemplo do pimentão, que há alguns anos figura entre os vilões da contaminação química para os consumidores. Vital atribui o caso à burocracia para obtenção de registros de produtos e a uma falha na divulgação do programa de análise de resíduos de agrotóxicos da Anvisa. 

“A gente já ouviu falar aquela história de que mais de 90% do pimentão estaria contaminado, que seria um problema consumir o pimentão. Esse programa da Anvisa, até pouco tempo, colocava o agrotóxico como grande problema da agricultura, trouxe um medo para população porque a divulgação das informações era um pouco deturpada. A última divulgação já veio de uma forma mais técnica, dizendo que só 1% dos produtos tem problema. Na divulgação de 2012, o pimentão apresentava 92% das amostras irregulares, mas eles não explicavam, colocavam numa vala comum, só falavam que estava intoxicado por agrotóxicos. No Brasil, os agrotóxicos são registrados por cultura, ou seja para o pimentão tem que fazer um registro, se for usar o mesmo produto em outra cultura tem que ter outro registro. O pimentão é primo do tomate, então ele usa os mesmos produtos. Só que por ser uma cultura menor não tem produto registrado para o pimentão, mas para o tomate sim, por ser uma cultura de maior escala. Então os produtores de pimentão acabam usando esses produtos que são aprovados pela Anvisa para o tomate. Desses 92% irregulares, 89% eram referentes a isso, produto não autorizado, gente que usou o produto do tomate no pimentão, é um problema legal não tem problema de saúde pública nenhum. Existe sim 3 % dessas amostras que tem resíduo de agrotóxicos acima do limite, isso sim é um problema. E mesmo ao quanto a esses 3% acima do limite, para entender o quão pequena é a quantidade que se ingere do agrotóxico. Existe uma substância química que se chama Clorpirifós, ingrediente ativo de alguns agrotóxicos com uma ingestão diária aceitável, um índice mundialmente praticado de 0.01 miligrama por quilo de peso corporal. Um homem de 85 quilos poderia ingerir 0.85 miligramas por dia sem ter problema, já o LMR que é o limite máximo de resíduo pra essa substância, o Clorpirifós no pimentão é de 0.04 miligramas por quilo. O que significa que pra esse homem ter problemas precisaria ingerir 21 quilos de pimentão todos os dias. E tem outra conta que ninguém faz, o pimentão tem magnésio, elemento químico natural que tem uma proporção de 110 miligramas por quilo de pimentão, ou seja, em 20 quilos de pimentão tem 2.200 miligramas de magnésio, que é dez vezes mais que a dose letal da substância para humanos. Se o cara comer 10 quilos de pimentão num dia ele vai morrer por excesso de ingestão de magnésio, antes de se intoxicar. A média do consumo de pimentão no Brasil é de 4,6 gramas por pessoa, ao dia, então ninguém vai morrer intoxicado por pimentão e nem por produto nenhum”, analisa. 

Por outro lado, mesmo registrando um crescimento anual de 30%, a agricultura orgânica ainda tem pouca representatividade no mercado mundial, com apenas 1% do total. Estima-se que o mercado de orgânicos brasileiro movimente cerca de três bilhões de reais frente aos 500 bilhões gerados pela agricultura convencional. No entanto, há espaço para todos e um método não deve excluir o outro. A perspectiva de desenvolvimento da agricultura orgânica é muito positiva, mas o domínio do mercado ainda é improvável. 

“É preciso contextualizar, os orgânicos tem a importância e o mercado deles, mas o que não pode é essa ideologia se sobrepor aos interesses da maioria. Hoje, 99% da população, pelo custo benefício, opta pelos convencionais. E a gente não vê nenhum tipo de problema de saúde pública, a gente vê as pessoas vivendo mais e melhor. O discurso dos orgânicos é “nós contra eles” e não é bem assim. Existe mercado para todo mundo; se a pessoa acredita nos benefícios dos orgânicos pode continuar comprando, esse mercado vai continuar crescendo, novos fornecedores vão surgir, o preço vai acabar caindo porque hoje ainda é muito maior e não acessível à população. E mesmo nos países mais desenvolvidos, por exemplo, a Dinamarca, que é o país mais orgânico do mundo, o consumo é de 7% do total. Está muito longe de ser uma maioria mesmo nos países mais desenvolvidos. Os EUA que é o maior mercado em tamanho para os orgânicos, esses produtos representam 5% das vendas. É um mercado crescente mas pouco representativo e dificilmente vai crescer muito porque demanda novas áreas e investimentos. Não é simplesmente parar de usar agrotóxico. Para produzir orgânico de qualidade é preciso investimento em pesquisas, em produtos biológicos de controle eficiente, porque as pragas vão atacar e se não fizer um controle vai ter problema. E esses controles biológicos ainda são um pouco menos eficientes e custosos. Dá pra fazer mas existe uma perda e por isso os orgânicos custam mais caro. Eles representam 1% no mundo e pode ser que cresçam muito mas até virar maioria ainda demora muito”, diz ele. 

Sobre os riscos de contaminação dos produtos orgânicos, Vital pontua riscos, como a maior suscetibilidade às doenças e o manejo das substâncias naturais tóxicas, utilizadas nas lavouras livres de agroquímicos. Outra questão a ser observada é a crescente quantidade de produtores orgânicos que não tem acompanhamento das certificadoras. 

“Qualquer alimento se bem produzidos faz bem e se mal produzido pode ser perigoso, seja convencional ou orgânico. No caso do convencional, é preciso respeitar o período de carência entre a aplicação do produto e a colheita, assim como o remédio é preciso esperar um tempo para degradar. No caso do orgânico, também pode haver problemas apesar de não ter resíduos de pesticidas. O orgânico não é livre de produtos químicos, usa produtos que são encontrados na natureza, por exemplo, o enxofre, substância extremamente tóxica que é aprovada; a ureia é utilizada também; o cobre pode ser utilizado, e são substâncias tóxicas que se utilizadas em excesso também podem trazer problemas. E também são mais suscetíveis a doenças. Houve um caso na Alemanha com a bactéria Ecoli num lote de broto de feijão orgânico, que causou mais de três mil intoxicações e mais de 30 mortes. É um caso isolado que mostra que os orgânicos também podem causar problemas, se produzidos de forma incorreta. As pessoas devem lutar pelas boas práticas agrícolas, por uma produção que tenha acompanhamento, com produtos químicos ou não, mas que sejam bem orientadas, que usem na quantidade correta., afirma. 

 

Paraquate

Numa decisão bem recente, do dia 19 de setembro de 2017, a Anvisa, decidiu pelo banimento do herbicida Paraquate das lavouras brasileiras. Muito utilizado nas culturas do milho, algodão, soja, feijão e cana-de-açúcar, o produto está associado ao risco de desenvolvimento da doença degenerativa em trabalhadores que manuseiam o produto sem as devidas precauções. Textualmente, a Anvisa afirma, após nove anos de pesquisas em parceria com a Fiocruz, que “há um peso de evidência forte em estudos em animais e epidemiológicos indicando que o Paraquate está associado ao desencadeamento da doença de Parkinson em humanos”. Os estudos mostraram que o produto pode afetar a condição neurológica, levando a problemas como tremor, rigidez, distúrbios na fala e problemas de equilíbrio. Não há, porém, evidências comprovadas de que o herbicida deixe resíduo nos alimentos. O prazo concedido para o total banimento do Paraquate é de três anos.

 

Glifosato

Ingrediente ativo de produtos químicos, com maior volume de vendas no Brasil, o Glifosato continua sendo reavaliado pela Anvisa acerca do sua carcinogenicidade. Desde o início do processo, em 2008, também, com a participação da Fiocruz, foram publicados diversos relatórios declarando as evidências insuficientes para a proibição. No entanto, não havendo consenso entre especialistas, órgãos internacionais e as demais agências regulatórias do mundo, a análise do perfil de segurança do agrotóxico prossegue. A expectativa é que a avaliação seja concluída até 2019, para que a nota técnica resultante seja colocada em consulta pública.

 

Japão e Canadá já concluíram pela manutenção do uso irrestrito do Glifosato, porém o painel de especialistas realizado pela Agência de Proteção Animal Americana (US EPA), em 2016, constatou divergência entre os pesquisadores quanto à classificação de improvável carcinógeno para humanos. A Anvisa tem adotado a mesma postura da US EPA, no sentido de aprofundar as discussões sobre a certificação do produto. 

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